quinta-feira, dezembro 31, 2015

Sobre escrever diários


Já tentei várias vezes escrever um diário. A última tentativa denominei de “Bauman foi mais esperto”, pois gostei do título que o sociólogo deu ao seu, que dialoga com a pintura do cachimbo de Magritte. Ainda esbocei algumas coisas em caderninhos, que chamo de “molekine de pobre”. Nada vai adiante. Poderia simplesmente retomar o diário de onde parei e registrar algo como “ah, não escrevo há tantos meses” ou “me perdoe, querido diário, por abandoná-lo”. Sinto, porém, que devo começar um novo. E não mais publicá-lo no blog ou nas redes sociais. Será um diário íntimo. “A alegria intensa é recolher-se e calar-se. Falar é dispersar”, escreveu Amiel em seu exemplar diário.

O crítico Rodrigo Gurgel elencou, em um texto de seu site, “10 motivo para escrever um diário”. Destaco o número 2: Escrever um diário despertará sua autoconfiança. Você está livre diante da página em branco. Pode julgar os homens do seu tempo e você mesmo sem pudor, sem qualquer tipo de censura — o que não deixa de ser uma higiene mental.” Há muita coisa presa nessa minha mente inquieta. Como sou professor, no entanto, sinto necessidade de me conter, pois já escrevi muita coisa que pesou contra mim em muitas ocasiões. Às vezes pensamos que devemos ser livres para dizer o que bem entender, mas não é bem assim. Agora mesmo estou pensando uma porção de coisas sobre alguns alunos que se formaram no Ensino Médio e preciso colocar no papel. Vou fazê-lo, portanto, num diário a que somente eu terei acesso e que não terá relevância para ninguém além de mim mesmo. Os amigos das redes sociais não precisam mais saber tudo o que eu penso. E acredito que ninguém queira saber mesmo, salvo aqueles que planejam me prejudicar.


Leio alguns diários. Mergulho no momento no de Abelardo Castillo e na fila está o de Ricardo Piglia. Preciso reler o de Kafka. E preciso escrever um de verdade sobre as minhas verdades.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

No Traçando livros de hoje, "Guia politicamente incorreto do sexo", de Luiz Felipe Pondé


Filosofando sobre sexo


Comecei a conhecer a obra de Luiz Felipe Pondé a partir de Crítica e profecia – a filosofia da religião em Dostoiévski, um longo ensaio acadêmico sobre a obra do autor de Crime e castigo. Só depois apareceram na imprensa os seus artigos menos alentados em que o filósofo buscava atingir um público maior para as suas reflexões, sem deixar de lado, no entanto, sua enorme erudição. Surgiu daí o polemista, com pensamentos “de direita”, politicamente incorretos e, por isso, provocativos. É o tipo de escritor que gosto de ler: aquele que nos deixa inquietos, de quem às vezes discordamos, ou fingimos discordar, e outras vezes diz aquilo que gostaríamos de dizer e não dizemos, muitas vezes com vergonha do julgamento dos outros.
Depois de Contra um mundo melhor e antes de A era do ressentimento, Pondé escreveu, em 2012 o Guia politicamente incorreto da filosofia, que se tornou um inesperado best-seller e lhe rendeu uma boa dose de críticas por fugir do que a esquerda dita como cultural e intelectualmente relevante no país. Seguindo a mesma linha, acaba de publicar o Guia politicamente incorreto do sexo (Leya, 228 páginas) que promete incendiar os debates sobre os tabus sexuais e sobre como os “chatinhos” e “chatinhas”, segundo o autor, tratam o tema.
Denominado pelo filósofo como uma “coletânea de aforismos imorais”, os curtos e irônicos ensaios buscam rever posições ainda muito conservadoras sobre o sexo e combater a patrulha, principalmente das feministas: “o feminismo não entende nada de mulher”, escreve. O politicamente correto censura nossas atitudes, nossas relações. Busca o bem comum, muitas vezes, porém resultando numa imposição no modo como o indivíduo deve se comportar na sua vida pessoal. “A praga do politicamente correto destrói, no campo do prazer e do afeto, uma miríade de relações microscópicas construídas ao longo de milhares de anos entre homens e mulheres a fim de dar conta dessa insustentável paixão que um tem pelo outro, seja nas suas formas legítimas, como casamento e família, seja nas suas formas ilegítimas, como o adultério e o segredo de alcova.”
Pondé ressalta que a mulher gosta de ser desejada e as que pensam o contrário são as feias, sem atrativos, ressentidas com o sucesso das outras. Ele vê com bons olhos, inclusive, os patrões que contratam as atraentes: “Fazer uma reunião com pernas lindas a sua volta melhora o pensamento, ainda que ignorantes e mentirosos digam o contrário.” E afirma: “Quem não mistura sexo e trabalho deve muito àqueles que o fazem”.
Como todo bom aforista, Pondé nos proporciona frases lapidares que podem ser usadas nas redes sociais: “querer fazer sexo politicamente correto é como querer ser piloto de avião tendo medo de altura”; “pessoas muito limpas não deveriam emitir opiniões sobre sexo”; “fala-se ‘penetrar uma mulher’ porque a anatomia imita a vida do afeto: o amor é a invasão da vida.” Vale destacar, também, a capa e as ilustrações de Gilmar Fraga, que trazem, por exemplo, Freud e Lacan com as calças arriadas e cuecas samba-canção. A propósito, Pondé também é psicanalista.

 Guia politicamente incorreto do sexo não tem a mesma qualidade dos demais livros de Pondé, porém traz boas e bem-humoradas reflexões para mentes inquietas. Goste-se ou não do autor, é uma leitura indispensável para conhecer nossa contemporaneidade.

sexta-feira, dezembro 18, 2015

Minha crônica no jornal Gazeta do Sul de hoje



Estrague sua vida que eu estrago a minha (título original)

Conheço pessoas que têm um aplicativo no celular que avisa onde há uma “blitz” policial. Não saem de nenhuma festa sem antes consultar o oráculo para poder fugir do bafômetro e de uma multa. Essas mesmas pessoas reclamam dos governantes, dos impostos, da crise, da violência, dos furtos. Inclusive têm medo de terem seus carros roubados. E, claro, esquecem que os bandidos também têm o mesmo aplicativo e que, por isso, também escapam da polícia depois de praticarem o roubo.
Conheço pessoas que, depois de ler este primeiro parágrafo, já estão tentando se desculpar, se justificar, vão tentar me atacar, achando que estão certos em burlar as leis. “Ora, bebo, mas não perco meus reflexos”, “o limite de velocidade é muito baixo nas ruas da cidade”, “não deixo meus documentos em dia porque os governantes só nos tiram dinheiro e sou apenas mais uma vítima da indústria da multa”.
E o bandido, pergunto, também não seria vítima de algo, segundo os defensores do chamado “direitos humanos”? Não reclame, então, se te roubarem, afinal todos temos nossas razões, todos somos vítimas.
Por que estou escrevendo isso? Sei lá, estava pensando cá com minha xícara de café e meu cachimbo sem fumo: parei de beber justamente depois de começar a dirigir, pensando nas pessoas que estão comigo, nas pessoas que estão na rua, nas pessoas que estão em outros carros. Basta pensarmos no outro. O que eu faço tem consequência não só para mim. O problema é que só pensamos em nós mesmos, nos nossos prazeres, na nossa pretensa infalibilidade.
Minto. Penso em mim também. Na verdade, penso primeiro em mim. E só penso no outro que faz parte da minha vida.  Como escreveu Luiz Felipe Pondé, no seu Guia politicamente incorreto da filosofia, “quando o ‘outro’ não cria problema, não há nenhum valor ético supremo em tolerá-lo.” Que se dane o outro. Penso só no meu bem-estar. Se bebo, fico com meu estado mental alterado e não gosto disso. O pior é a ressaca do outro dia e, com ressaca, não consigo ler e escrever. E se não consigo ler e escrever eu não vivo. Sem literatura eu não vivo. A literatura é a minha cervejinha. Ela é que me embebeda.
Ah, mas é claro que já bebi muito. É o que está louco para me dizer aquele que me conhece de carnavais passados, de boates todo o final de semana, do vinho ou do “samba” (mistura de cachaça e Coca-Cola) quase diário nas esquinas da vida. Costumo dizer: ainda bem que não existia facebook na minha adolescência. Postaria coisas de que estaria arrependido hoje.

Não estou julgando ninguém. Não tenho moral para isso. Critico, porém, quem julga os outros de forma hipócrita. Viva e arque com as consequências. Já dizia o ator Antônio Abujamra: “a vida é sua, estrague-a como quiser”. Eu a estrago com a literatura. E com muito café também.

segunda-feira, dezembro 14, 2015

Raio X de um poeta

“− Chegou o teu 'Troco poesia por dinamite' aqui, Barata.

− Obrigado, amigo, espero contar com uma análise do livro.

− Veio com cheiro de cigarro e tudo. Vi também que eu apareço com meu depoimento sobre a tua obra.

− O livro tem cheiro de cigarro, é isso? Que comentário inusitado! Encare isso como algo pessoal meu. ‘O cigarro é meu escarro’... rs.

− Quando abri o envelope senti o cheiro. Me senti próximo de ti, cara!

Não foi proposital, mas é uma boa forma de encarar, rs. Essa é a vantagem e a desvantagem de receber livros que não são de editoras... Garanto que a Record ou qualquer outra grande não tem esse recurso... rsrsrsrs.

Achei legal isso, é um bom ponto de partida para uma resenha. Tua vida está literalmente nos teus livros.

 − Sim, sou transparente nisso, Cassionei. Vida e pensamento.”

Tive esse diálogo com o poeta Barata Cichetto através da internet. É uma troca de ideias que se mantém há alguns anos, depois de tê-lo ouvido em uma web rádio declamando poesias e tocando rock de qualidade. A partir do nosso primeiro contato passei a receber a produção artística desse agitador cultural: livro de contos, fanzines, CD’s de ópera-rock (em parceria com Amyr Cantusio Jr.), tudo produzido por ele em processo artesanal.

O obra que recebi com cheiro de cigarro foi o livro de poemas Troco poesia por dinamite, que traz na capa o Raio X do crânio do autor. Entramos, de certa forma, no inquieto cérebro do artista, que deixa expostos sua alma, seus ossos, sua mente imunda, pornográfica. É uma poesia para os fortes, que não ruborizam ao ler versos como os de “Uma senhora puta”: “Lembro das fúnebres orgias de tempos de outrora/Nas ruas com nomes de putas, Augusta ou Aurora/Transando com cadáveres mornos de putas tortas/E sem perceber se eram putas ou se eram mortas.”

Estes versos estão na primeira parte, chamada “Troco poesia por sexo”, em que predomina uma literatura pornográfica, nua e crua, com sexo sem metáforas ou subterfúgios, como lemos em “Sacanas bacanas”: “Enquanto te espero cansada do trabalho/Apanho, seguro firme e masturbo o meu caralho/Imaginando que quando entrares a porta da casa/Eu o enfiarei na tua buceta o meu pau em brasa.”

Na segunda parte, “Troco poesia por dinheiro”, notam-se poemas que falam das agruras do artista num mundo em que a poesia sofre resistência de quem só enxerga a realidade palpável: “Mas acontece é que ser poeta é o meu ofício/Ainda penso eu antes de me jogar do edifício/E o pedreiro ainda cheio de um ódio não secreto/Pensa: ‘que merda é isso sujando meu concreto?’”.

A parte 3, “Troco poesia por rock’n’roll”, revela as influências musicais de Barata, com títulos e epígrafes que mencionam principalmente Patti Smith e Lou Reed. Gostei de “Misanthropía (hoje não tem Rosa de Hiroshima)”, que glosa Vinícius de Moraes e a banda Secos e Molhados: “Que se dane o poeta e sua cirrose, foda-se Hiroshima/Pois não me importa se o fim do mundo se aproxima/E se em rotas hereditárias e inexatas de radioatividade/A humanidade afundará na merda da própria vaidade.”.


A parte 4 recebe o nome do título do livro e retoma todos os temas anteriores. Em “Carta aos poetas modernos”, temos um longo poema que critica os artistas “vigaristas”, “hipócritas”, “moleques em fraldas, catarrentos, ofendido”, “tolos esses que se definem como poetas revolucionários”. Em “A poesia ou a vida!”, Barata maldiz a própria “poesia que me arranca os olhos da cara/Me rói os ossos, chupa minha carne e mata minha tara.” É ela, portanto, que deixou o poeta no estado em que é estampado na capa: só osso, não há mais pele. É o retrato 3x4 mais fiel da identidade do Barata. 

domingo, dezembro 13, 2015

Direita, esquerda, dois lados da mesma moeda

Por pura coincidência, leio dois livros de escritores com posições políticas bem distintas: Abelardo Castillo, que é de esquerda, e Nelson Rodrigues, de direita. Do primeiro, leio Diarios – 1954-1991, e do segundo, me debruço sobre O óbvio ululante – primeiras confissões. Em ambas as obras, por serem confessionais, os autores revelam suas ideologias abertamente. Não é, porém, sobre elas que quero escrever, mas sim sobre certo patrulhamento que noto nas redes sociais sobre o que se deve ler ou não.

Quem é de esquerda, por exemplo, critica quem lê autores como Luiz Felipe Pondé. Já me chamaram a atenção por ter postado uma frase dele, dizendo algo como “não acredito que você lê esse cara!”. Do lado da direita, nunca fui abertamente questionado, mas indiretamente noto pessoas considerando gente do calibre de José Saramago como péssimo escritor só por ele ter sido comunista.

Por estas e por outras é que eu me afasto cada vez mais de ideologias, pelo menos tento me manifestar o mínimo possível sobre elas. Sigo e tenho como “amigos” nas redes sociais gente de todos os lados, indo dos mais radicais aos mais moderados e tiro algo de bom de suas postagens. Se nada me acrescentam, deixo de seguir o sujeito, mesmo que permaneça “amigo” dele.

Hoje é um desses dias em que as postagens beiram ao ridículo, pois há manifestações a favor do impeachment da presidente Dilma em várias capitais. De um lado, gente que tenta de todas as maneiras diminuir a relevância dos protestos; de outro, gente que tenta de todas as maneiras mostrar que algo inútil (pois acabei me convencendo de que qualquer tipo de protesto leva do nada a lugar nenhum) tem adesão de uma parcela significativa da população. É um show de falácias e incoerências que não têm tamanho, por isso me distancio de tudo isso e não tomo partido de lado nenhum. Já cantavam os Engenheiros que esquerda e direita são iguais e que Fidel e Pinochet tiravam sarro da gente.

Sou alienado? Talvez. O alienado é aquele que enxerga apenas o seu próprio mundinho como o verdadeiro e despreza o mundo dos outros. Eu enxergo apenas o meu mundo, no entanto fico apenas indiferente aos dos demais. Sou alienado na medida em que me sinto um alien que recém-chegou a um planeta confuso. Para entendê-lo, procuro uma biblioteca e leio os livros que poderiam me dar uma resposta, porém me trazem mais questionamentos e, por isso, não tenho tempo para ter certezas, muito menos tempo para convencer os outros de que minhas certezas são as certas.


Por isso vou continuar lendo escritores e filósofos de esquerda ou direita. Leio Márcia Tiburi e Olavo de Carvalho, Graciliano Ramos e Vargas Llosa, ouço Chico Buarque e Lobão. Não me interessam suas ideologias, mas sim o que criam e a capacidade que eles têm de me fazer questionar a realidade, cada um a sua maneira.  

sábado, dezembro 05, 2015

Conheça Carácolis (parte 1)

Carácolis é um país perdido no continente antártico, num lugar cujo relevo tem todas as condições necessárias para a sobrevivência. Ignorado até há bem pouco tempo pelo resto do mundo, tornou-se conhecido depois que passou a exportar caracóis, tornando-se a principal economia da nação.

“Não é mol a casca del caracol” é o primeiro verso de seu hino. A língua oficial é uma mistura de espanhol e português chamada enrolês. Falam devagar, assim com são umas lesmas quando se trata de trabalhar. O produto de exportação, portanto, não poderia ser outro, afinal não dá muito trabalho criá-los.

O regime político é o presidencialismo de casca, que funciona da seguinte forma: o povo elege o governante que, por sua vez, refugia-se na sua casa, uma espécie de caverna em forma de concha de caracol. De lá, executa as leis escritas nas paredes pelos antepassados que, dizem, teriam vindo de um país da América. De vez em quando o presidente, atualmente uma presidenta, põe a cabeça para fora para ver se está tudo tranquilo. Como nunca está, refugia-se de novo e convida seus correligionários para comemorar o sucesso do governo.

Conta-se que a atual governante foi proibida de falar em público, pois se enrolava muito mais do que o próprio enrolês que já é enrolado. A população, por sua vez, também evita falar e prefere se comunicar com celular, uma das poucas invenções do exterior que deram certo em Carácolis. A escrita, no entanto, me pareceu mais enrolada ainda. Conseguem complicar e tornar mais ilegível o que já é complicado e legível. Dizem, porém, que conseguem se comunicar e é o que importa.

Há controvérsias quanto à origem do nome do país. Numa pouco frequentada biblioteca, livros enrolados como os antigos papiros nos contam duas versões. Uma, a que me parece mais óbvia, diz que o nome deriva, por suposto, do plural de caracol. Outra versão, mais mitológica, diz que os primeiros habitantes teriam chegado numa espécie de canoa plana, sem remo (acredito que seja uma prancha de surfe) e, quase mortos de frio, ao verem a beleza e a singularidade do lugar, exclamaram “caraca!”.


“Caraca!” exclamei também eu (na verdade não foi bem essa a expressão que usei) quando fui assaltado em plena rua. Nisso eles são ligeiros, ah! como são! Mas isso é um assunto para um próximo relato, se não roubarem meu notebook.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

Os rios de Heráclito, Saramago e Borges no Traçando Livros de hoje


Não moro perto de nenhum rio. Próximo a minha casa há somente um arroio onde na minha infância tomava banho. Hoje mergulho apenas na minha biblioteca, que ainda não é rio. É dela que pesco meu alimento diário. Sobrevivo dos seus peixes, grandes e pequenos. Geralmente eles têm espinhas que trancam na garganta. São os mais apetitosos.

“Em rio não se pode entrar duas vezes no mesmo.” Pesco esta frase em um livro da coleção Os pensadores, no volume dedicado aos filósofos pré-socráticos. Este famoso fragmento de Heráclito de Éfeso aparece também desta forma: “Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos.” A ideia é de que mudamos, não somos a mesma pessoa depois que os anos passam. O Cassionei que antes se banhava no arroio perto de sua casa não é mais o mesmo Cassionei de hoje, muito menos as águas do arroio, que agora estão muito poluídas.

Fui levado ao rio de Heráclito depois de reler com meus alunos a crônica “Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, de José Saramago, do livro Deste mundo e do outro. Nela, o Nobel de Literatura reflete sobre a passagem do tempo; “Desço até a água, mergulho nela as mãos, e não as reconheço. Vêm-me na memória outras mãos mergulhadas noutro rio. As minhas mãos de há trinta anos, o rio antigo de águas que já se perderam no mar.

Esse rio da literatura e da filosofia me leva agora a um argentino. Pesco nas minhas estantes um livro de Jorge Luís Borges, Elogio da sombra. Há um poema cujo título é “Heráclito”. Leio:

“Que rio é este cuja fonte é inconcebível?
Que rio é este
que arrasta mitologias e espadas?
É inútil que durma.
Corre no sono, no deserto, num porão.
O rio me arrebata e sou esse rio.”

 Em outros versos de outros livros, Borges também menciona a alegoria do filósofo, como no poema “São os rios”, de Os conjurados:

Somos o tempo. Somos a famosa
parábola de Heráclito, o obscuro.
Somos a água, não o diamante duro,
a que se perde, não a que repousa.
Somos o rio e somos aquele grego
que se olha no rio (...).”

No poema “Arte poética”, em O fazedor, escreve:

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.”

É, porém, este trecho da conferência “A poesia”, publicado no livro Sete noites, que me arrebata:
Emerson disse que uma biblioteca é um gabinete mágico em que há muitos espíritos enfeitiçados. Despertam quando os chamamos; enquanto não abrimos um livro, esse livro, literalmente, geometricamente, é um volume, uma coisa entre coisas. Quando o abrimos, quando o livro dá com seu leitor, ocorre o fato estético. E, cabe acrescentar, até para o mesmo leitor o mesmo livro muda, já que mudamos, já que somos (para voltar a minha citação predileta) o rio de Heráclito, que disse que o homem de ontem não é o homem de hoje e o homem de hoje não será o de amanhã.

Mudamos incessantemente e é possível afirmar que cada leitura de um livro, que cada releitura, cada recordação dessa releitura renovam o texto. Também o texto é o mutável rio de Heráclito.”


Sinto-me assim. Há livros na minha biblioteca que, quando os releio, não me dizem mais nada. Outros ganham novos significados, pois eu mudei, envelheci, adquiri novos conhecimentos. Alguns poderiam ser vendidos aos sebos, pois só ocupam espaço, não têm espinhas que atravessam a garganta. Outros ainda continuam no meu cardápio. O tempo passa, tudo passa. Os livros também passam como rios na minha vida. E de rio em rio busco o mar.

quarta-feira, novembro 11, 2015

Nei Duclós na minha coluna Traçando Livros de hoje


Romance que deixa rastros no leitor

As histórias do novo romance de Nei Duclós, Tudo o que pisa deixa rastros (edição do autor, 161 páginas) são sobre parte da História que deixou poucos rastros. O ficcionista apenas seguiu as pegadas, as pistas, as trilhas deixadas por alguns historiadores e jornalistas elencados na bibliografia. Poeta por vocação, historiador por formação, jornalista por profissão, o gaúcho Nei Duclós mostra-se um romancista que se arrisca, e com bons resultados.

Sigo também, para escrever estas linhas, os vestígios deixados pelo escritor. Eu próprio deixei meus rastros nas frases sublinhadas. Traço os livros como a onça deixa suas pegadas.

O romance é formado por fragmentos de parte da História não contada nos livros didáticos. Não há um protagonista, salvo se considerarmos o livro como um conjunto de contos, o que nos desmente a ficha catalográfica. São as guerras, os conflitos e revoluções ocorridas no Brasil nos séculos XIX e XX, dos conflitos da independência do Brasil, passando pela Revolução Farroupilha, Guerra do Paraguai, revoluções de 30, 32, até a Ditadura, que movem as personagens. “O Brasil é assim: tanta guerra que não damos conta de contar a história direito.”

São histórias da História contadas por diversas vozes e personagens históricos e ficcionais. O imperador Dom Pedro I e suas aulas de esgrima (“Preciso dominar esta arte, disse para a lâmina, pois a toda hora me vejo diante de adversários mal intencionados.”), o lanceiro negro experiente em rastrear animais (“Para quem conhece os segredos, nem chuva ou vento apaga os sinais do rumo, o risco das garras.”), o imperador Dom Pedro II perdido em meio à chuva no interior do Rio Grande do Sul, crianças em meio ao bombardeio na cidade de São Paulo dos anos 20.

Há descrições de cenas dolorosas, como esta: “No meio daquele horror e daquela sangueira, os gemidos dos feridos, os gritos das mães juntando os membros espalhados das suas crianças eram um quadro do mais profundo sofrimento.” Mas há também momentos hilários, como o diálogo de uma velha (que seria a viúva do lanceiro rastreador) que duvidava do homem que se dizia ser o imperador, que se perdera de uma comitiva durante a Guerra do Paraguai: “– Vai dormir, vai, véio. Imperador, pois sim. Não passa de um calça frouxa.”

Depois da leitura, um rastro de desolação fica no leitor. A crueza dos conflitos e a desumanidade de quem os pratica deixam marcas na história coletiva, mas atingem também o indivíduo que lê. Nei Duclós, como todo bom escritor, mais sugere que revela, deixa pistas para o leitor seguir. Até os erros de revisão são vestígios, no caso de uma escrita que merecia ainda ser melhor lapida, porém representativa de quem somos: seres imperfeitos, sujeitos a erros como as guerras que aconteceram e as que ainda podem acontecer.

quinta-feira, novembro 05, 2015

As sombras e os muros de José J. Veiga

Texto publicado na minha coluna no site Digestivo Cultural.

“Que são eles, quem eles pensam que são”, versos que pertencem à música “3ª do plural”, dos Engenheiros do Hawaii, seriam uma ótima epígrafe para boa parte das narrativas do escritor José J. Veiga. Há em muitos dos enredos de seus contos e romances uma localidade que recebe alguns forasteiros, cujas identidades nunca são reveladas, que instalam máquinas ou fábricas que interferem de certa forma na vida dos habitantes. Muda o cotidiano, as relações familiares são abaladas, amizades desfeitas e um clima de desconfiança entre os moradores fica evidente. Penso, só para exemplificar, no romance A hora das ruminantes e no conto “A usina atrás do morro”.

Sombras de reis barbudos, obra de 1972 reeditada recentemente pela Companhia das Letras, segue o mesmo caminho. O protagonista Lucas narra a história, a pedido de sua mãe, já alguns anos depois do ocorrido: “Sei que esse pedido insistente”, diz o rapaz, “é um truque para me prender em casa, a senhora acha perigoso eu ficar andando por aí mesmo hoje, quando os fiscais já não fiscalizam com tanto vigor.” O ambiente, porém, parece ainda tenso: “Preciso ter muito cuidado para não deixar o caderno esquecido por aí (...).” Seu ponto de vista não é do jovem quase adulto, mas sim do menino de 11 anos, cuja inocência começa a dar lugar a certo ceticismo em relação aos fatos.

Tudo teve início com a chegada da Companhia Melhoramentos Taitara, chamada apenas de Companhia durante todo o relato, fundada pelo tio de Lucas, Baltazar, que, entretanto, logo foi afastado do cargo através de um golpe, o que o deixou doente. Depois disso, uma onda de repressão foi instaurada, tendo como ponto de partida a construção de enormes muros nas ruas: “Da noite para o dia eles brotaram assim retos, curvos, quebrados, descendo, subindo, dividindo as ruas ao meio conforme o traçado, separando amigos, tapando vistas, escurecendo, abafando.” Símbolo da separação e da divisão, a relação entre as pessoas jamais seria a mesma.

Logo após, o pai de Lucas, Horácio, que já trabalhava na Companhia, obteve um novo cargo, de fiscal, e passou a vestir uma farda que impunha respeito. “Você precisa ver como a cambada me trata. Só faltam se mijar”, dizia ao filho. A alusão à ditadura militar que vivia o Brasil nos anos 70 torna-se mais evidente.

Outros fatos aparentemente insólitos passariam a acontecer. Não bastassem os muros, começaram a aparecer na cidade uma enorme quantidade urubus. Num lugar sem grandes atrativos, crianças e adultos miravam o céu ou a parte de cima dos muros para ver as aves, utilizando-se às vezes de lunetas e binóculos, logo proibidos pela Companhia, que também passou a baixar “novas proibições bobocas, só pelo prazer de proibir (ninguém podia mais cuspir para cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com a peneira, como se todo mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem irritantes, como a de pular muro para cortar caminho”. Quem descumpria as normas, sofria mutilações, como ter os dedos da mão costurados.

Quando Horácio decidiu deixar a Companhia, as dificuldades da família foram se acumulando até ele ser preso, acusado de contrabandear madeira. Nunca mais voltaria para casa. O relato de Lucas prossegue com outros fatos insólitos, como a moda dos meninos de passarem o tempo olhando para o horizonte nos campos, escondidos dos fiscais, lógico. Depois disso, homens surgiam voando sobre a cidade, e a Companhia, não podendo evitar mais esse insólito fato, proibiu que as pessoas levantassem a cabeça para olhá-los: “com penas tão severas, era evidente que a Companhia tinha se aparelhado de todos os sentidos, e nós compreendemos que ela não estava brincando. O jeito era obedecer, e andar de cabeça baixa para evitar mal-entendidos”.

Conformar-se, aceitar, baixar a cerviz. 
Sombras de reis barbudos pode ser a alegoria da ditadura militar no Brasil, mas não só dela, de outro modo seria uma obra datada, como bem lembrava o próprio José J. Veiga quando falava sobre seus livros. Hoje, nos conformamos com os muros das redes sociais, aceitamos proibições de fumar um cigarro porque faz mal, como se outras coisas não o fizessem também, baixamos a cabeça para olhar apenas a tela de um celular, deixamos de mirar e alcançar o horizonte para ir adiante e transpor os muros que nos cercam. Sombras severas nos observam e não querem que fiquemos nem mesmo em cima do muro. O romance de José J. Veiga é, pois, bastante atual.


segunda-feira, outubro 26, 2015

Meu texto no caderno PrOA, da Zero Hora.


Na Zero Hora de domingo, mais precisamente no caderno PrOA, publiquei um artigo sobre o concurso literário que exigia a promoção de valores morais nos contos concorrentes. Dou um pitaco, da mesma forma, sobre a redação do Enem, que exige uma dissertação politicamente correta: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/proa/noticia/2015/10/concurso-causa-polemica-ao-exigir-valores-morais-na-ficcao-4885711.html

quarta-feira, outubro 21, 2015

Aconteceu uma orgia literária no Traçando Livros de hoje

Uma orgia literária


Aconteceu uma orgia aqui na minha toca, onde leio, escrevo, tomo meu café e ouço música. Gustave Flaubert, Emma Bovary e Mario Vargas Llosa misturavam-se sobre minha mesa de leitura e me proporcionaram dias prazerosos. O primeiro, escritor francês, e a segunda, sua criação literária, estavam nas páginas de Madame Bovary, de 1857, romance cuja melhor edição disponível por estas bandas é a da Companhia das Letras em parceria com a Penguin, com textos complementares de Charles Baudelaire e Lydia Davis, além da tradução de Mário Laranjeira. Mas eles também estavam no livro escrito pelo terceiro vértice deste triângulo amoroso, o romancista peruano, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura em 2007, no ensaio A orgia perpétua, lançado neste mês pela Alfaguara, com tradução de José Rubens Siqueira. Tenho a edição antiga, traduzida por Remy Gorga Filho, e serão deste volume as citações desta resenha.

Aos poucos, foram chegando à orgia outras personagens da trama, como o marido de Emma, Charles Bovary, aquele que é o último saber, os amantes dela, Léon e Rodolphe, assim como os destinatários das cartas que Flaubert escrevia sobre a criação de seu romance, principalmente sua namorada, Louise Colet. As correspondências serviram de base para Vargas Llosa desenvolver sua análise, assim como ensaios de outros escritores, Jean Paul Sartre entre eles. O título do ensaio, e inspiração para o início da nossa conversa, vem justamente de uma frase de Flaubert retirada de uma dessas cartas: “O único meio de suportar a existência é despojar-se na literatura como em uma orgia perpétua”.

Emma, uma espécie de Dom Quixote de saias, lê muitas histórias românticas e deseja ter uma vida como a das heroínas. Seu marido, no entanto, um médico de província, não podia dar-lhe as condições necessárias para uma vida extraordinária, tampouco a falta de disposição dele para o sexo a deixa satisfeita. Começa, então, a se envolver com outros homens (“E dizia consigo mesma: – Tenho um amante! Um amante! – deleitando-se com essa ideia, como se fora uma nova puberdade que lhe sobreviesse.”) e a pedir dinheiro emprestado para presenteá-los e também enfeitar sua casa, resultando numa enorme dívida que não consegue quitar. Os acontecimentos e seu exagero sentimental a levam para um destino trágico, num final talvez moralista, em que pese Flaubert tenha sido julgado por imoralidade devido à publicação da obra.

Vargas Llosa desenvolve três formas diferentes de análise crítica do romance, como afirma na introdução. Na primeira parte, expõe suas impressões subjetivas sobre Madame Bovary: “Desde as primeiras linhas o poder de persuasão do livro agiu sobre mim de modo fulminante, como um feitiço poderosíssimo.” Na segunda, em análise mais extensa, predomina a objetividade científica, repercutindo desde a gênese do romance e passando pelos elementos da narrativa, como narrador e personagens, a “lenta escrupulosa, sistemática, obsessiva, teimosa, documentada, fria e ardente construção de uma história”. Na terceira, Llosa põe a obra no seu lugar histórico, comparando-a com outros romances.

Em A orgia perpétua, Llosa afirma que a obra-prima de Flaubert incorreu “no crime de Lúcifer: querer romper os limites, ir mais além do possível”, fixando “um topo mais alto para o romance e a crítica”. Depois de Madame Bovary, a literatura jamais foi a mesma. E nem mesmo nós, leitores, somos os mesmos depois de sua leitura.

 Cassionei Niches Petry é escritor. Autor do livro de contos “Arranhões e outras feridas” e do romance “Os óculos de Paula”. Escreve regularmente para o Mix, é colunista do site Digestivo Cultural e mantém um blog, cassionei.blogspot.com. 

sábado, outubro 17, 2015

Júlio Nogueira e o celular na sala de aula

Mais uma colaboração do Júlio Nogueira, professor de literatura aposentado, que mora numa chácara no interior de uma cidade do interior do RS, e que hoje apenas lê e escreve. O mestre me mandou esse e-mail depois de ler um comentário no facebook de um desses críticos da educação que não saem dos seus gabinetes sobre um “gif” dos Simpson, que também compartilhei nas redes sociais da internet:

"Sobre o descaso dos professores retrógrados como eu que não usam o celular como recurso 'pedagógico' em sala de aula, cabem algumas considerações:
1- Nem todos os alunos têm o aparelho, o que dificulta o trabalho uniforme e gera a exclusão.
2 - O acesso à internet ainda é precário nas escolas.
3 - Se o professor não consegue controlar o aluno que não faz as atividades (como uma simples leitura de um texto) por causa do celular, quem garante que ele utilizará o aparelho para a atividade proposta? Vale para tablet, notebook, etc.
4 - Nem todos os professores têm condições ou querem ter um aparelho moderno. Sou ultrapassado se quero ter um celular barato que apenas faz e recebe ligação?
5 - Vamos dar mais um passo para sermos escravizados por esse aparelhinho?
6 - Por que abandonar os livros? Ora, não adianta fazer de vez em quando o uso do celular como prática pedagógica. Quando não for utilizado, o aluno não vai largá-lo para ler um livro e continuaremos com o mesmo problema. Então, vamos aposentar os livros e os deixem apenas para velhos gagás como eu.
7 - Será que, para resolvermos todos os nossos problemas, precisamos sempre  nos adaptar e mudar nosso comportamento? Por que o aluno não pode mudar o seu?
8 - Até quando quem pouco ou nunca pisou numa sala de aula do ensino básico (dar palestrinhas ou fazer projetinhos extraclasse vez ou outra não conta como experiência) vai ficar defecando na cabeça dos professores?
9 - Se os alunos são o reflexo de seus mestres, basta uma visita a uma sala de professores na hora do recreio e contar quantos estão lendo um livro e quantos estão nos seus celulares vendo e compartilhando besteiras para sabermos o nível em que estamos. Alguns ainda, felizmente, conversam entre si, mesmo que seja para falar sobre a imagem que compartilharam no celular.
10 - Ah!, mas isso é coisa de mentes ultrapassadas como a minha.
11 - Teria outras considerações a fazer, caro Cassionei, mas volto à minha releitura de Kafka.

12 - Metido a intelectual, esse cara, dirão alguns depois de ler esses itens, o que para muitos é um defeito. O certo hoje em dia é ser metido a imbecil.”

quinta-feira, outubro 15, 2015

"Feliz dia do 'Desligue o celular, Joãzinho!' ", minha crônica no site da Zero Hora


Minha crônica sobre o Dia do Professor no site da Zero Hora:  http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/opiniao/noticia/2015/10/cassionei-niches-petry-feliz-dia-do-desligue-o-celular-joazinho-4877052.html

Feliz dia do "Desligue o celular, Joãzinho!"


Há muito tempo parei de escrever na condição de professor. Agora, em todos os textos que assino ponho embaixo escritor, apesar de esse não ser o meu ganha-pão. O motivo é que o que escrevo às vezes causa polêmicas que acabam respingando na minha atividade profissional e muitos não sabem separar o artista do mestre. Já perdi oportunidades de emprego na rede privada por causa disso.
Nunca deixo, porém, de refletir sobre o trabalho na área de ensino. Aliás, a palavra ensinar parece que saiu de circulação, pois só se fala em educar. A própria denominação professor vem sendo sistematicamente substituída por educador, na qual não me encaixo. Vem sendo deixada de lado a ideia de transmitir conhecimento para a concepção de "treinar" para a vida. O conhecer cede lugar à prática.
Minha preocupação atual relaciona-se ao foco da atividade do professor, que é o aluno, porém não em mimá-lo, como se vem fazendo. O sistema de ensino jamais irá funcionar se não há a busca de ambos os lados pelo saber. Todos aprendemos, claro. Devemos estar sempre em busca do conhecimento e escolhi essa profissão justamente porque me sustentaria financeiramente realizando essa busca diária. A cada releitura que faço dos escritores descubro coisas novas. Uma coisa, porém, precisa ser levada em consideração: o aluno não sabe a mesma coisa do que eu e nem mesmo sabe mais. Criou-se uma ideia de igualdade, uma falta de hierarquia no âmbito escolar, que está sendo nefasta.
Nesse sentido, falta o aluno querer saber e não é o que acontece. Velhas teorias do século passado que são mostradas como novas dizem que a escola deve ser prazerosa para o estudante, deve atraí-lo, pois há outras coisas mais agradáveis e interessantes ao seu redor. Ora, jamais a escola vai ser "atraente", porque o saber requer esforço. Se vamos treinar para a vida, devemos lembrar que ela não é totalmente prazerosa. Por que a escola seria?
Há momentos em que rimos, nos divertimos, brincamos, contamos piadas em sala de aula. Há outros momentos em que se deve ficar calado, ouvir, baixar a cabeça, realizar tarefas, ler, interpretar. São momentos de tortura para o aluno. Mesmo assim, são atividades que precisam ser realizadas, não se pode fugir delas. Se perguntarmos para os estudantes, no entanto, se eles querem esses momentos, dirão que não. Por quê? Porque o conhecimento não é relevante para eles. Basta a informação e ela está somente a um clique do computador ou do celular.
Nossa profissão está perdendo sua credibilidade porque nós mesmos não a estamos valorizando, na medida em que aceitamos inovações fajutas com máscara de modernidade. A maioria dos meus colegas professores também não se preocupa mais em buscar conhecimento. Numa sala de professor, hoje, discutir a novela da TV é mais importante do que a leitura de um livro (salvo um que tenha meia centena de variações de gris ou outro que coloque a responsabilidade nos astros do céu), assim como folhear a revista de produtos de beleza é mais comum do que uma publicação científica.
Antes de me apedrejarem, colegas, lembrem-se: a culpa é do escritor.

segunda-feira, outubro 12, 2015

Júlio Nogueira deu sinal de vida

Júlio Nogueira me mandou um e-mail do seu retiro intelectual para dizer por que andou parando de escrever. Mergulhado apenas nas leituras em meio a seus milhares de livros na biblioteca – construída durante mais de 50 anos no mínimo –, ele me conta que o mundo de hoje já não é mais aquele que era o seu. Cansou de ficar horas elaborando frases, refletindo sobre assuntos da mais alta complexidade e tentando colocar a alta literatura no seu lugar de direito, que é no alto mesmo, superior a toda e qualquer outra forma de escrita. Sua voz não ecoou, não repercutiu quando tentou postar nas redes sua filosofia literária. Enquanto isso, qualquer bobagem dita/escrita, qualquer “obra” de um artista medíocre, qualquer “videozinho” postado por celebridades ganham mais relevância. Basta vender bastante ou ter centenas de milhares de visualizações nas redes sociais para alguém ganhar o status de escritor, de revelação literária, de grande artista ou até de crítico literário.

“Dia desses, Cassionei, uma bienal do livro deu destaque aos tais vídeos de dicas literárias. Hoje vale mais um comentário tartamudo de um jovem recém-saído ou ainda na barra de saia da mãe do que uma análise escrita por um sujeito que tem décadas de leituras nas costas.” Júlio é um sujeito mais velho, é verdade, mas gente menos velha, como eu, concordam com ele. Há uma supervalorização dos vídeos em detrimento à crítica escrita. Aliás, nem crítica existe mais.

Falando nisso, respondi o e-mail dizendo que, por causa dele, dois escritores me bloquearam nas redes sociais. Acontece que publiquei alguns textos do Júlio no meu blog e em um deles criticava levemente os autores. Repercuti nas redes sociais e, de repente, não tive mais acesso ao Facebook e ao Twitter dos intocáveis gênios. E olha que um deles mereceu em outra oportunidade uma resenha elogiosa minha, que ele compartilhou todo orgulhoso.

O autor dos esboços d aminha biografia não autorizada (http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=4144&titulo=Esbocos_de_uma_biografia_precoce_nao_autorizada) me respondeu dizendo que era para me acostumar com isso e não esperar boas reações nem mesmo às críticas elogiosas. “Uma vez mandei uma carta a um consagrado escritor, criticando seu último romance. Não recebi nenhuma réplica. Anos antes havia mandado outra carta, elogiando-o. Recebi um agradecimento efusivo, me convidando, inclusive, para beber uma cervejinha com seu grupinho de amigos literatos que se reuniam todas as quintas num bar badalado no meio intelectual de São Paulo. Não fui, é óbvio.”


 Tenho uma pontinha de inveja do Júlio Nogueira, que não precisa mais escrever e publicar para ser visto, até porque não quer ser visto. Quer apenas ler, ler e ler. Disse que, na verdade, continua escrevendo sim, porém para consumo próprio, como vinha fazendo há muitos anos. Seus cadernos e arquivos no computador estão abarrotados de textos inéditos que, talvez, só depois de sua morte venha à tona. Ele ia começar a nos dar o prazer ou o desgosto de poder lê-lo, mas começou tarde e desistiu cedo demais a praticar seu projeto. Deve estar neste momento mergulhado em um volume de Dostoiévski, anotando, sublinhado, escrevendo, refletindo sobre a leitura. Ou pode estar produzindo alguma ficção, mais uma entre as dezenas que ele diz manter guardadas. “Sou egoísta, Cassionei, não foi sobre isso que você andou escrevendo esses dias?”

domingo, outubro 11, 2015

Ainda sobre o outro

Escrevi na crônica anterior algo sobre não pensar no outro. No entanto, como escritor, estou sempre olhando, analisando e me pondo no lugar desse outro. A alteridade é importante para o escritor. Alteridade, palavrinha que me fez passar vergonha numa entrevista para entrar no mestrado em uma universidade federal.

Acredito que sempre somos o centro do mundo. O mundo gira a nosso redor sim. Mesmo quem pensa na coletividade, no bem comum, é solidário, na verdade é por uma satisfação pessoal. Sente-se melhor consigo mesmo quando vê a felicidade do outro. Não deixa de ser, portanto, individualista e egocêntrico.

Vejamos o sexo. É um ato individualista, mesmo que seja a dois, a três, a quatro, etc, e mesmo para aquele homem que fica se preocupando se a mulher vai gozar ou não. Ele o faz porque sente prazer em ver o prazer do outro.

Os políticos são individualistas (conte-me uma novidade, Cassionei!), mesmo aqueles que dizem pensar no bem comum. O caridoso também é individualista. Todos pensam somente em si. Quem me desculpem os que se dizem altruístas, mas não acredito no altruísmo.

Então, como ia dizendo, quando escrevo, olho para o outro. Sou um observador do outro. Analiso gestos, opiniões, atitudes, para assim ajudar a criar minhas personagens que, como vocês sabem, não surgem do nada. Há um pouco dos outros em cada personagem que invento, assim como há um pouco de mim. “Personagem”, etimologicamente, significa “máscara”. O escritor apenas mascara a realidade ou então tira as máscaras de quem as usa. Portanto, tomem cuidado comigo!

Toda vez que penso na palavra “outro”, me vem à mente a novela “O outro”, da Rede Globo, e um poema do português Mário de Sá-Carneiro, que foi musicado pela Adriana Calcanhoto: “Eu não sou eu nem sou o outro,/Sou qualquer coisa de intermédio:/Pilar da ponte de tédio/Que vai de mim para o Outro.”

A novela, escrita pelo Aguinaldo Silva, bebeu na fonte da boa literatura e do cinema que tratam do duplo, da possibilidade de haver um sósia de cada um de nós solto por aí, aprontando das suas e com o risco do original levar a culpa. O pior, ainda, é quando esse outro toma nosso lugar. O duplo, do Dostoiévski, William Wilson, do Poe e O homem duplicado, do Saramago, são algumas das obras literárias que trazem este tema.

Já o poema de Sá-Carneiro sugere aquele outro que gostaríamos de ser e não conseguimos. Aliás, na tentativa de ser outro, ficamos no meio termo, entramos em conflito com o outro eu, gritando no meio da ponte como na pintura de Edvard Munch, enquanto ignoramos os outros que estão atrás de nós, tentando nos ajudar ou nos prejudicar, depende da interpretação que se faz da pintura.

Ou seja, quando escrevo olho para os outros, porém, da mesma forma, para o outro que está dentro de mim.


sábado, outubro 10, 2015

Estrague sua vida que eu estrago a minha

Conheço pessoas que têm um aplicativo no celular que avisa onde há uma “blitz” policial. Não saem de nenhuma festa sem antes consultar o oráculo para poder fugir do bafômetro e de uma multa. Essas mesmas pessoas reclamam dos governantes, dos impostos, da crise, da violência, dos furtos. Inclusive têm medo de terem seus carros roubados. E, claro, esquecem que os bandidos também têm o mesmo aplicativo e que, por isso, também escapam da polícia depois de praticarem o roubo.
Conheço pessoas que, depois de ler este primeiro parágrafo, já estão tentando se desculpar, se justificar, vão tentar me atacar, achando que estão certos em burlar as leis. “Ora, bebo, mas não perco meus reflexos”, “o limite de velocidade é muito baixo nas ruas da cidade”, “não deixo meus documentos em dia porque os governantes só nos tiram dinheiro e sou apenas mais uma vítima da indústria da multa”.
E o bandido, pergunto, também não seria vítima de algo, segundo os defensores do chamado “direitos humanos”? Não reclame, então, se te roubarem, afinal todos temos nossas razões, todos somos vítimas.
Por que estou escrevendo isso? Sei lá, estava pensando cá com minha xícara de café e meu cachimbo sem fumo: parei de beber justamente depois de começar a dirigir, pensando nas pessoas que estão comigo, nas pessoas que estão na rua, nas pessoas que estão em outros carros. Basta pensarmos no outro. O que eu faço tem consequência não só para mim. O problema é que só pensamos em nós mesmos, nos nossos prazeres, na nossa pretensa infalibilidade.
Minto. Penso em mim também. Na verdade, penso primeiro em mim. E só penso no outro que faz parte da minha vida.  Como escreveu Luiz Felipe Pondé, no seu Guia politicamente incorreto da filosofia, “quando o ‘outro’ não cria problema, não há nenhum valor ético supremo em tolerá-lo.” Que se dane o outro. Penso só no meu bem-estar. Se bebo, fico com meu estado mental alterado e não gosto disso. O pior é a ressaca do outro dia e, com ressaca, não consigo ler e escrever. E se não consigo ler e escrever eu não vivo. Sem literatura eu não vivo. A literatura é a minha cervejinha. Ela é que me embebeda.
Ah, mas é claro que bebi muito. É o que está louco para me dizer aquele que me conhece de carnavais passados, de boates todo o final de semana, do vinho ou do “samba” (mistura de cachaça e Coca-Cola) quase diário nas esquinas da vida. Costumo dizer: ainda bem que não existia facebook na minha adolescência. Postaria coisas de que estaria arrependido hoje.

Não estou julgando ninguém. Não tenho moral para isso. Critico, porém, quem julga os outros de forma hipócrita. Viva e arque com as consequências. Já dizia o ator Antônio Abujamra: “a vida é sua, estrague-a como quiser”. Eu a estrago com a literatura. E com muito café também.

sexta-feira, outubro 02, 2015

Entrevista ao blog "Página Cinco"

Rodrigo Casarin me entrevistou para uma matéria sobre o caso do “Prêmio Sesc de Contos Machado de Assis”, promovido pelo Sesc do Distrito Federal, cujo item sobre moralidade causou certa polêmica entre escritores. Segue o link: 

quarta-feira, setembro 30, 2015

Edgar Allan Poe no "Traçando livros" de hoje


Poe e a insanidade como arte


Dia desses, num colégio de Ensino Médio, um professor de literatura teve uma daquelas experiências, ultimamente raras, em que consegue despertar o interesse dos alunos pela obra de um escritor. Realizando uma sessão de cinema na sala de aula, apresentou-lhes a obra de Edgar Allan Poe através do filme O corvo, direção de James McTeigue. O ator John Cusack interpreta o próprio escritor, que se vê envolvido na perseguição de um assassino que comete crimes e deixa pistas inspirado em suas histórias. Depois de assistir ao filme, uma aluna disse que ficou com vontade de ler os livros do Poe. Restou ao professor abrir um largo sorriso. A propósito, há uma excelente série televisiva, The following, com um mote parecido com o do filme, porém o assassino já é conhecido desde o primeiro episódio: um sedutor professor de literatura que transformava seus crimes em arte. E o pior, arregimentou uma porção de seguidores. Como dá para perceber, Poe influencia muita gente.

Precursor da literatura de horror moderna, o romancista, contista e poeta americano Edgar Allan Poe nasceu em Boston, EUA, no dia 19 de Janeiro de 1809 e morreu em outubro de 1849, aos 40 anos de idade, dias depois de ser encontrado em um profundo estado de embriaguez, semiconsciente e sujo, em uma rua de Baltimore. Mestre do conto, escreveu histórias como “A queda da casa dos Usher” e “O gato preto”, em que estão presentes o mistério e o terror góticos típicos do século XIX. Já “Os crimes da Rua Morgue” e “A carta roubada” o tornaram o criador de histórias do gênero policial. O poema narrativo “O Corvo”, por sua vez, é um dos seus textos mais populares, sendo inclusive adaptado num dos episódios do desenho Os Simpsons.

“Mas eis o ponto mais importante: notaremos que esse autor, produto de um século orgulhoso de si mesmo, filho de uma nação mais orgulhosa de si mesma que qualquer outra, viu com clareza e afirmou impassivelmente a perversidade do homem”, escreveu o poeta Charles Baudelaire num texto com o qual divulgou a obra do escritor aos franceses. Os personagens de Poe são maus, muito maus. O protagonista de “O gato preto”, por exemplo, tortura e enforca seu bicho de estimação e também mata a sua mulher, para depois emparedá-la no porão de sua casa. Em “O poço e o pêndulo”, temos a crueldade humana expressa na tortura física e psicológica de um condenado pela inquisição da Igreja Católica. Em “O barril de Amontillado”, Fortunato, motivado por uma vingança, trama a morte de um desafeto, emparedando-o vivo nas catacumbas de seu palácio.

Poe descreve nossos medos como poucos. Tenho medo, por exemplo, de que exista algum doppelgänger, um duplo meu, cometendo alguns atos que eu não cometeria e sobre os quais levaria a culpa. No conto “William Wilson”, temos justamente a história de um duplo que atormenta, desde a época da escola, a vida do protagonista. Ele tem o mesmo nome, nasceu no mesmo dia, e ainda por cima usando as mesmas roupas que ele. “No lugar onde momentos antes eu nada vira, havia agora um grande espelho… Aproximei-me dele cheio de terror e vi caminhar para mim a minha própria imagem, com o rosto extremamente pálido e todo salpicado de sangue, avançando a passos lentos e vacilantes.” Pergunto-me às vezes: e se o meu duplo me encontrasse? Seria eu dominado por ele? Ou teria que matá-lo, já que o mundo é pequeno demais para dois Cassioneis? Ou, o mais provável, ele me mataria?


O argentino Julio Cortázar escreveu que “sua obra, atingindo dimensões extra-temporais, as dimensões da natureza profunda do homem sem disfarces, é tão profundamente temporal a ponto de viver num contínuo presente, tanto nas vitrinas das livrarias como nas imagens dos pesadelos, na maldade humana e também na busca de certos ideais e de certos sonhos”. Pois Poe tem várias traduções disponíveis nas livrarias do Brasil. Para ficar em apenas uma, recomendo a de José Paulo Paes, reproduzida numa edição de bolso da Companhia das Letras e intitulada Histórias extraordinárias, reunindo 18 contos. 

terça-feira, setembro 29, 2015

Sobre o conceito de família para os cristãos



Na chamada "Sagrada Família", a mulher pulou a cerca, ficou grávida, deu a desculpa que foi de um espírito, e o pai, que não é o pai, acreditou e assumiu a criança. O pai de verdade é solteirão e o filho também não formou família oficialmente, mas, dizem as más línguas, teve filhos fora do casamento, no entanto. Amém?

quarta-feira, setembro 23, 2015

As histórias magras de Rubem Fonseca


Ele é um dos meus heróis literários. Seus contos e romances – de narrativas envolventes, numa dosagem precisa de ação e pausas reflexivas, misturando palavras de baixo calão com expressões eruditas e rebuscadas, repletas de citações literárias e cinematográficas que me levaram a conhecer outros artistas – o colocaram merecidamente no panteão dos grandes escritores da nossa nem tão grande literatura. As obras recentes, no entanto, carecem da genialidade daquele que escreveu O cobrador, Feliz ano novo, Bufo & Spallanzani e A grande arte. Se outro grande contista, Dalton Trevisan, vem escrevendo também obras fracas, pecando por realizar o mais do mesmo, Rubem Fonseca nos frustra porque ele não é mais o mesmo.
Tentei encontrar o bom e velho Rubem Fonseca na sua mais recente reunião de contos, Histórias curtas (Nova Fronteira, 176 páginas). Não deu. O livro chega a ser vergonhoso, apesar de alguns críticos terem afirmado que ele ainda está em plena forma. Não, não está, e não é porque tenha completado recentemente 90 anos, idade também do citado Dalton Trevisan. Histórias curtas é um volume pior do que o anterior, Amálgama, que, não sei como, ganhou o Jabuti de 2014 de melhor de livros de contos. Até Axilas e outras histórias indecorosas, de 2011, podemos ainda encontrar a boa literatura fonsequeana. Nas duas últimas obras, entretanto, não há nenhum resquício.
Os contos são ruins porque faltam todos os predicados elencados no início deste texto crítico. As narrativas não nos envolvem, não por serem curtas, pois ele sempre foi genial nos contos curtos. Estamos diante de histórias escritas aparentemente com pressa, sem a elaboração artística que conhecemos do autor. Quando se espera que algo vá acontecer, não acontece nada, tudo termina de forma abrupta, nem ao menos se deixa uma abertura para o leitor imaginar o que ocorrerá depois.
O conto “O mundo é nosso!”, por exemplo, em que uma idosa relata que usa botox e vai ao teatro em uma van com suas amigas, tem um final constrangedor: “Resumindo: o número de velhotas cada vez aumenta mais, como uma música de Carnaval do meu tempo de jovem cujo refrão era ‘e o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais’. Bem, o mundo está ficando nosso, e vai ficar todo, todo nosso dentro de pouco tempo. Então tudo vai mudar, a vida vai mudar. Preparem-se!" E que tal a frase derradeira do conto “O peido”? "Isso é uma irrefutável prova do nosso egoísmo: o que é nosso é sempre bom, pode ser um peido ou uma xícara de café; o que é dos outros é sempre ruim, pode ser um peido ou uma xícara de café."
Um dos temas da maioria dos contos é a loucura e eles terminam com uma solução simplória para os conflitos das personagens. Chega uma pessoa vestida de branco para aplicar uma injeção e voilà, sabemos que a pessoa é louca. Simples assim. Um exemplo está no conto “A Preferida”, em que um homem conta que só consegue transar com a mulher quando pensa na “outra”, sua “Preferida”, na qual basta encostar o pênis para alcançar o orgasmo. Pois ele acaba sendo capturado depois de ser flagrado com ela e só entende o motivo de estar algemado na cama de um hospital quando o “sujeito de avental branco” mostra uma foto do flagra (não vou contar quem é a tal preferida). “Antes que eu pudesse raciocinar sobre isso, o médico me aplicou a injeção e perdi os sentidos.”
A obesidade também é um tema recorrente. Sempre há alguém falando mal e ridicularizando os gordos. No conto “O reencontro”, um homem irá rever um amor da juventude, porém está apreensivo, pois ganhou muito peso com o passar dos anos. Quando chega a mulher ao local combinado, ele fica horrorizado ao vê-la: “Juju se transformara (ou seria mais correto dizer se transtornara?) numa mulher gorda, muito gorda. Inesperadamente deixei de sentir amor por ela.” Porém, logo pensa que por isso ela não se incomodaria com o seu tamanho e volta a amá-la. Ela, porém, olha para o homem e diz que ele engordou muito. O narrador conclui: “Pude ver nos seus olhos um sentimento de desdém, pior, de repulsa.” E a história acaba. Falta gordura. Além de curtas, muito curtas, as histórias são magras.

No conto, “O brinco de pérola”, o protagonista afirma: “Eu podia escrever qualquer porcaria, por exemplo, a história de um homem casado que se apaixona por uma mulher casada. O problema é que sou um escritor com certo prestígio, não posso decepcionar os meus leitores.” Pena que Rubem Fonseca não pensou o mesmo que seu próprio personagem.