Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

A mostrar mensagens de Outubro, 2016

Minha mais recente coluna no Digestivo Cultural

Tchau, pai!

O destino é duro com o ser humano. Penso nele como um cara cruel, que nos dá bons momentos para depois nos derrubar. Também nos faz refletir sobre algumas coisas para depois tudo que refletimos cair em nosso colo. No último sábado, escrevi no meu “blog” sobre um livro de contos chamado Velórios, de Rodrigo M. F. de Andrade. Coincidentemente, eu havia ido, nas últimas semanas, a alguns velórios de mães e sogras de amigos e também no de um primo, na verdade primo de minha mãe. Pois o destino, na mesma noite, levou o meu pai, de forma trágica, e me vi, então num velório que não gostaria de enfrentar assim tão cedo. Para ser sincero, não acredito em destino. Também não acredito nas Moiras, mas as utilizo simbolicamente para pensar sobre a vida e a interrupção dela. Na mitologia grega, as Moiras são as responsáveis pelo destino, tanto dos mortais como dos deuses. Elas são três e, através da Roda da Fortuna (e por mais uma dessas coincidências inexplicáveis, enquanto estou escrevendo, começa…

A morte e a vida em “Velórios”, de Rodrigo M. F. de Andrade

Por essas coincidências que não podem ser explicadas, enquanto lia os contos de Velórios, de Rodrigo M. F. de Andrade (1898-1969), tive a tristeza de ir a três velórios no espaço de poucos dias. Mães e sogras de amigos e também um parente meu não muito próximo acabaram nos deixando. É a roda, como costumo dizer. Dela não podemos escapar. Livro único do autor, que deixou de escrever para se dedicar exclusivamente à direção do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, cargo que assumiu até quase o fim de sua vida, Velórios (publicado em 1936) tem como unidade a “indesejada das gentes”, mais precisamente o reflexo dela nas pessoas que ficam. A maioria tem algumas cenas que acontecem justamente nesse ambiente algo sombrio e melancólico, em que a vida e a morte se intercalam em uma mesma sala, em que conversamos com o corpo frio do ente querido e fazemos homenagem a sua memória. É também local de conversa, de reencontro, há de tudo um pouco nesse momento. Há, por exemplo, os “fi…

O escritor que ainda não ganhou o Nobel

O Traçando Livros de hoje poderia ser sobre um Prêmio Nobel de Literatura. Javier Marías é sempre um dos cotados para ser laureado, porém a academia sueca, neste ano, resolveu prestigiar o cantor Bob Dylan, que produz poesia para suas músicas, mas não faz literatura. Seria uma longa discussão que não vou realizar aqui, pelo menos não na coluna de hoje. Marías tem uma obra sólida, construída ao longo dos anos de forma impecável, elabora a palavra artisticamente para ser publicada em livro. Faz grande literatura, portanto, assim como Philip Roth, também ignorado pelo Nobel. Assim começa o mal, lançado recentemente pela Companhia das Letras, com tradução de Eduardo Brandão e generosas 520 páginas, é um título retirado de versos de Hamlet, peça de Shakespeare. O bardo inglês é uma referência na obra de Javier Marías e, dessa forma, a voz do fantasma do pai de Hamlet me soprava a todo o momento para fazer uma leitura do romance como tragédia teatral. E aí poderia surgir outra questão: por q…

Na página de opinião do jornal Gazeta do Sul de hoje: Desejar a “indesejada”: uma reflexão

Escritores: lancem discos ou sejam jornalistas

A discussão será longa, o debate acalorado, as opiniões irão divergir. Quem está sorrindo e se vangloriando, no entanto, é quem não se importa com as fronteiras de gêneros, desde que o seu gênero não seja o afetado. Qual o maior prêmio da música hoje? Grammy, talvez, apesar de haver muitas categorias. E não há uma categoria que contemple, sei lá, melhor disco de poema ou audiobook de um romance (ou tem?). E se dessem um Grammy de músico do ano há um poeta que de repente lançasse um disco com seus poemas musicados, mas sua carreira principal ainda seria a de poeta? Qual seria a reação? E o maior prêmio do jornalismo? É o Pulitzer? E se um escritor ganhasse o Pulitzer de Jornalismo com uma ficção sobre os conflitos no Oriente Médio? Os jornalistas, com um corporativismo que lhes é peculiar (podem me atirar de cima de um penhasco, caros jornalistas, que não gostam de quem, como eu, colabora com jornais), assinariam manifestos para retirar o prêmio do intruso. Não à toa, há um Pulitzer pa…

Na Revista Amálgama, escrevo sobre livro de Leyla Perrone-Moisés

Desejar a “indesejada”: uma reflexão

“Ser ou não ser, eis a questão:/ Será mais digno para o espírito suportar/ Os golpes e as feridas de um infame destino/ Ou revoltar-se contra a vaga de males/ E pôr fim a tudo pela recusa de viver?” Muitos conhecem apenas o primeiro desses versos da peça Hamlet, de William Shakespeare. Poucos sabem, porém, que se refere ao suicídio, a atitude de recusar-se a viver. O tema, considerado tabu, é pouco discutido, entendido e compreendido. Não deveria ser escamoteado. No mês passado, a campanha “Setembro amarelo”, que serviria para conscientizar a sociedade sobre o assunto, foi ignorada. O caso do jovem encontrado sem vida no banheiro de sua escola em Santa Cruz demonstra que não podemos esconder o problema. Pode-se analisar o tema sob o prisma filosófico, sociológico, histórico e também literário, que é o meu campo de estudo.  O escritor francês Albert Camus escreveu que “considerar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia”. Os outros que…

Angústia, Graciliano Ramos

“Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente.” O início do romance Angústia, de Graciliano Ramos, nos põe diante de um homem doente, como o narrador de Memórias do subsolo, de Dostoiévski. Ainda não sabemos do que Luís da Silva está se recuperando, mas essa enfermidade o faz ter um olhar amargo sobre os outros, como afirma no segundo parágrafo: “Há criaturas que não suporto”. Deixou de ter prazer com as coisas de que antes gostava, como as livrarias, nesse caso devidos aos escritores “exibindo títulos e preços no rosto, vendendo-se. É uma espécie de prostituição”. Ora, o narrador está justamente escrevendo um livro. Não estaria ele também “oferecendo-se como as mulheres da Rua da Lama”? Por conseguinte, ainda na primeira página, aparece o antagonista, Julião Tavares, com sua “cara balofa”, cuja imagem aparece na sua frente o tempo todo. Os outros são o problema, apesar de muitas vezes se colocar para baixo como fracassado. São as outras pes…

Alçapão, de André Ladeia

Um registro rápido da leitura de Alçapão, de André Ladeia (Editora Oito e Meio, 81 páginas). Já conhecia o autor pelo seu primeiro livro, Suave como a morte, cuja abertura é um belo poema que dialoga com a dedicatória de Brás Cubas em suas memórias. A intertextualidade, quando bem empregada, tende a me conquistar como leitor. O livro recente tem poemas muito bons e outros nem tanto, pelo menos na minha percepção. Não sou, porém, bom crítico de poesia. Leio poucos livros de poemas. Pego aleatoriamente um e outro para ler, principalmente quando leio em voz alta nas aulas de literatura. Sei, no entanto, que o escritor, na maioria das vezes, tem um projeto de livro, e os versos acabam funcionando melhor quando em conjunto. Mal comparando, uma coisa é ouvir uma música do Pink Floyd isoladamente. Outra coisa é a canção no conceito proposto pelo álbum. A apreciação estética é diferente. Pensei em ler Alçapão numa estrutura conceitual a partir do título. Lembro que num encontro de um grupo de …