terça-feira, julho 12, 2011

Armado e perigoso


















Meu texto "Armado e perigoso" saiu na última sexta no jornal Gazeta do Sul.

Certa vez fui esperar minha esposa na saída do seu trabalho. Eram em torno de 11 horas da noite. Não havia um horário certo para ela sair, dependia do fechamento do caixa. Esperava sentado em uma escadaria à frente do estabelecimento. Trazia comigo alguns livros, pois acabara de vir da biblioteca da universidade. Notei que ela demorava demais, mas, como via pela janela que os funcionários ainda estavam trabalhando, achei que ela estava lá dentro ainda. Aproveitei para ler um pouco.
Nesse meio tempo chegaram dois caminhões. Os motoristas e os ajudantes aproveitariam o estacionamento vazio para passarem mercadorias de um caminhão para o outro. Por algum motivo se incomodaram com minha presença. Ficaram me observando por algum tempo. Não demorou muito e chegou um carro da polícia. Os brigadianos falaram com eles e depois se dirigiram a mim. Perguntaram-me o que eu estava fazendo ali naquela hora. Disse que esperava minha esposa. Para confirmar, fomos juntos até a porta de saída dos funcionários e o vigia me avisou que ela já tinha saído, aproveitando a carona de uma colega.
Liberado da situação constrangedora, fui para casa imaginando o que havia se passado na mente de quem chamou a polícia. Vendo aquela pessoa ali parada, apenas lendo, pensaram que era um possível ladrão? Imaginaram que os grossos livros escondiam uma arma? Ou pensaram que os próprios livros seriam armas? Imagine, caro leitor, aqueles grossos volumes atingindo a cabeça de alguém!
No outro dia, o jornal Gazeta do Sul traria a seguinte manchete: “Armado e perigoso: bandido rende funcionários de um supermercado com livros em punho”.
Não deixa de ser uma metáfora interessante. Os livros de certa forma são armas. A munição são as palavras. Os alvos podem ser a mediocridade humana, as injustiças ou aqueles que detêm o poder. As bibliotecas e livrarias são os locais onde se encontram as quadrilhas, reunidas para uma conspiração visando destruir, entre outras coisas, as bases que sustentam o “festival de besteiras que assolam o país”, para usar das palavras de um antigo membro da quadrilha, um marginal que atendia pela alcunha de Stanislaw Ponte Preta.
Por isso a Igreja Católica tinha (e ainda tem) seu “Índice dos Livros Proibidos” e os governos totalitários queimavam exemplares em praça pública. Essas instituições consideravam que os livros eram perigosos. Elas tinham razão, porque esse objeto retangular e com uma porção de letras impressas nos faz pensar e quem pensa não se deixa ser dominado por outros, tem suas próprias opiniões, critica, reivindica e “quebra o mar gelado dentro de si”, parafraseando uma frase de Franz Kafka, outro marginal dessa quadrilha.
Confesso. Também faço parte do tráfico de livros. Como professor e crítico literário, minha função é dizer ao aluno ou ao leitor: adquira essa arma, aponte na sua própria cabeça e atire.

quarta-feira, julho 06, 2011

Amor e sexo, arte e literatura



No Traçando Livros de hoje, no jornal Gazeta do Sul, caderno Mix:


A cidade de Praga, por vários motivos, é uma cidade mítica. Para quem ama a literatura, ela remete a Franz Kafka, “O” escritor. Prédios kafkianos, com janelas de quartos que se abrem para salas de tribunais e corredores estreitos, só poderiam existir em Praga – um dos quartos em que o autor de A metamorfose viveu tinha como paisagem o interior de uma igreja.

Pois só poderia ser a capital checa o cenário destinado a Sérgio Sant’Anna no projeto “Amores expressos”, que levou 16 escritores a diferentes capitais mundiais para que se inspirassem e escrevessem histórias de amor. De amor?

O livro de Praga: narrativas de amor e arte (Companhia das Letras, 136 páginas), é uma típica obra de Sant’Anna, que desde a primeira coletânea de contos (O sobrevivente) se notabilizou pela experimentação artística, tanto na linguagem quanto na estrutura dos textos. Em princípio, o livro era para ser um romance, mas acabou se transformando em histórias independentes, tendo como narrador e protagonista o escritor Antônio Fernandes, que está em Praga pelos mesmos motivos pelos quais esteve o autor.

Na primeira narrativa, A pianista, Antônio toma contato com o mundo das artes na cidade, começando por uma exposição de um dos ícones da pop art, Andy Warhol. A menção ao artista nos dá a pista para seguir as histórias e algumas das discussões propostas: o que é arte? Ela deve atingir o indivíduo ou às massas? Qual seu o valor? Logo o narrador vai assistir a um concerto particular – e caro – de uma excêntrica pianista, momento em que entra o amor proposto pela obra de Sant’Anna: o êxtase da fruição artística se misturando com o êxtase erótico.

Em A crucificação, Antônio Fernandes se envolve dessa vez com a estátua de uma santa, num misto de alucinação e realidade. Mais uma vez, perde o controle dos seus atos, o que o faz se tornar conhecido, principalmente pela polícia. Em outra narrativa, A boneca, o narrador assiste, encantado como sempre, a uma peça teatral baseada em Alice no país das maravilhas. Numa loja do teatro, vê uma boneca idêntica à personagem que mais lhe chamou a atenção e a compra, mal sabendo os problemas que pode lhe causar.

Kafka não poderia ficar de fora. Um suposto texto inédito dele, tatuado no corpo de uma dançarina, é o mote para outra história. A mulher, nua, recita para Antônio a tradução em francês do original em alemão. O texto, de gosto duvidoso, não pode ser de Kafka, porém mais uma vez leva nosso anti-herói a uma experiência artístico-erótica.

Essas e as outras narrativas de O livro de Praga, de certa forma, cumprem a tarefa de falar sobre o amor, no caso, as diferentes e excitantes formas de amor vividas por Antônio, tão estranhas quanto à cidade onde foram vividas. Igual experiência tem o leitor, principalmente se o leitor está disposto a uma experiência estética com a palavra. “– Aqui é a linguagem que comanda tudo, só a linguagem”, diz a mulher com o corpo tatuado. A linguagem da palavra, a linguagem da arte, a linguagem do corpo.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Como todo mundo, também é comandado pela linguagem, principalmente a literária. Escreve regularmente para o Mix e no seu blog, cassionei.blogspot.com.