Armado e perigoso


















Meu texto "Armado e perigoso" saiu na última sexta no jornal Gazeta do Sul.

Certa vez fui esperar minha esposa na saída do seu trabalho. Eram em torno de 11 horas da noite. Não havia um horário certo para ela sair, dependia do fechamento do caixa. Esperava sentado em uma escadaria à frente do estabelecimento. Trazia comigo alguns livros, pois acabara de vir da biblioteca da universidade. Notei que ela demorava demais, mas, como via pela janela que os funcionários ainda estavam trabalhando, achei que ela estava lá dentro ainda. Aproveitei para ler um pouco.
Nesse meio tempo chegaram dois caminhões. Os motoristas e os ajudantes aproveitariam o estacionamento vazio para passarem mercadorias de um caminhão para o outro. Por algum motivo se incomodaram com minha presença. Ficaram me observando por algum tempo. Não demorou muito e chegou um carro da polícia. Os brigadianos falaram com eles e depois se dirigiram a mim. Perguntaram-me o que eu estava fazendo ali naquela hora. Disse que esperava minha esposa. Para confirmar, fomos juntos até a porta de saída dos funcionários e o vigia me avisou que ela já tinha saído, aproveitando a carona de uma colega.
Liberado da situação constrangedora, fui para casa imaginando o que havia se passado na mente de quem chamou a polícia. Vendo aquela pessoa ali parada, apenas lendo, pensaram que era um possível ladrão? Imaginaram que os grossos livros escondiam uma arma? Ou pensaram que os próprios livros seriam armas? Imagine, caro leitor, aqueles grossos volumes atingindo a cabeça de alguém!
No outro dia, o jornal Gazeta do Sul traria a seguinte manchete: “Armado e perigoso: bandido rende funcionários de um supermercado com livros em punho”.
Não deixa de ser uma metáfora interessante. Os livros de certa forma são armas. A munição são as palavras. Os alvos podem ser a mediocridade humana, as injustiças ou aqueles que detêm o poder. As bibliotecas e livrarias são os locais onde se encontram as quadrilhas, reunidas para uma conspiração visando destruir, entre outras coisas, as bases que sustentam o “festival de besteiras que assolam o país”, para usar das palavras de um antigo membro da quadrilha, um marginal que atendia pela alcunha de Stanislaw Ponte Preta.
Por isso a Igreja Católica tinha (e ainda tem) seu “Índice dos Livros Proibidos” e os governos totalitários queimavam exemplares em praça pública. Essas instituições consideravam que os livros eram perigosos. Elas tinham razão, porque esse objeto retangular e com uma porção de letras impressas nos faz pensar e quem pensa não se deixa ser dominado por outros, tem suas próprias opiniões, critica, reivindica e “quebra o mar gelado dentro de si”, parafraseando uma frase de Franz Kafka, outro marginal dessa quadrilha.
Confesso. Também faço parte do tráfico de livros. Como professor e crítico literário, minha função é dizer ao aluno ou ao leitor: adquira essa arma, aponte na sua própria cabeça e atire.

Comentários

Tonzete Canivete disse…
Mas ah, eu me lembro desse texto! Muito bom.
FmcDLKZ disse…
parabéns!! li aqui antes!!

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