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Amor e sexo, arte e literatura



No Traçando Livros de hoje, no jornal Gazeta do Sul, caderno Mix:


A cidade de Praga, por vários motivos, é uma cidade mítica. Para quem ama a literatura, ela remete a Franz Kafka, “O” escritor. Prédios kafkianos, com janelas de quartos que se abrem para salas de tribunais e corredores estreitos, só poderiam existir em Praga – um dos quartos em que o autor de A metamorfose viveu tinha como paisagem o interior de uma igreja.

Pois só poderia ser a capital checa o cenário destinado a Sérgio Sant’Anna no projeto “Amores expressos”, que levou 16 escritores a diferentes capitais mundiais para que se inspirassem e escrevessem histórias de amor. De amor?

O livro de Praga: narrativas de amor e arte (Companhia das Letras, 136 páginas), é uma típica obra de Sant’Anna, que desde a primeira coletânea de contos (O sobrevivente) se notabilizou pela experimentação artística, tanto na linguagem quanto na estrutura dos textos. Em princípio, o livro era para ser um romance, mas acabou se transformando em histórias independentes, tendo como narrador e protagonista o escritor Antônio Fernandes, que está em Praga pelos mesmos motivos pelos quais esteve o autor.

Na primeira narrativa, A pianista, Antônio toma contato com o mundo das artes na cidade, começando por uma exposição de um dos ícones da pop art, Andy Warhol. A menção ao artista nos dá a pista para seguir as histórias e algumas das discussões propostas: o que é arte? Ela deve atingir o indivíduo ou às massas? Qual seu o valor? Logo o narrador vai assistir a um concerto particular – e caro – de uma excêntrica pianista, momento em que entra o amor proposto pela obra de Sant’Anna: o êxtase da fruição artística se misturando com o êxtase erótico.

Em A crucificação, Antônio Fernandes se envolve dessa vez com a estátua de uma santa, num misto de alucinação e realidade. Mais uma vez, perde o controle dos seus atos, o que o faz se tornar conhecido, principalmente pela polícia. Em outra narrativa, A boneca, o narrador assiste, encantado como sempre, a uma peça teatral baseada em Alice no país das maravilhas. Numa loja do teatro, vê uma boneca idêntica à personagem que mais lhe chamou a atenção e a compra, mal sabendo os problemas que pode lhe causar.

Kafka não poderia ficar de fora. Um suposto texto inédito dele, tatuado no corpo de uma dançarina, é o mote para outra história. A mulher, nua, recita para Antônio a tradução em francês do original em alemão. O texto, de gosto duvidoso, não pode ser de Kafka, porém mais uma vez leva nosso anti-herói a uma experiência artístico-erótica.

Essas e as outras narrativas de O livro de Praga, de certa forma, cumprem a tarefa de falar sobre o amor, no caso, as diferentes e excitantes formas de amor vividas por Antônio, tão estranhas quanto à cidade onde foram vividas. Igual experiência tem o leitor, principalmente se o leitor está disposto a uma experiência estética com a palavra. “– Aqui é a linguagem que comanda tudo, só a linguagem”, diz a mulher com o corpo tatuado. A linguagem da palavra, a linguagem da arte, a linguagem do corpo.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Como todo mundo, também é comandado pela linguagem, principalmente a literária. Escreve regularmente para o Mix e no seu blog, cassionei.blogspot.com.

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