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Crônica

O tempo

Gosto de escrever para este espaço um tipo de texto literário chamado crônica. É um gênero destinado ao jornal, tratando de questões do nosso cotidiano, algumas vezes com humor, outras vezes de forma poética. A palavra vem de Cronos, que na mitologia grega é o deus do tempo, originando outros vocábulos da nossa língua, como cronômetro, cronologia, cronograma. Na sua origem a crônica era um registro de fatos históricos. Hoje, relata coisas de nosso tempo presente, por isso ela na maioria das vezes tem seu valor só naquele dia. No outro, vai servir para embrulhar o produto da feira ou para forrar o local onde o bichinho de estimação faz suas necessidades.
Se o leitor tiver tempo, quero justamente conversar sobre o tempo. Não o meteorológico, e sim o do relógio.
Voltando ao deus Cronos. Segundo a mitologia, temendo ser destronado por um de seus filhos (assim como fizera, outrora, com o seu pai Urano), ele os engolia assim que nasciam. Quando Réia, sua esposa, concebeu Zeus, enrolou com panos uma pedra no seu lugar e ofereceu ao marido. Como ele devorava tudo, não percebeu a diferença. Zeus (ou Júpiter, na mitologia romana) se tornou, mais tarde, o mais poderoso de todos os deuses do Monte Olimpo.
Se pensarmos no nosso dia-a-dia, estamos sempre olhando para o relógio ou prestando atenção na hora certa dada pelo rádio. Afinal, temos hora para chegar ao trabalho ou à escola, hora do descanso, hora para tomar o remédio, hora para pegar o ônibus, etc. E o tempo sempre nos engana. Se saímos adiantado de casa, não encontramos nenhum obstáculo e chegamos até cedo demais ao local desejado. O trânsito flui e o ônibus pode até sair da parada um pouco depois do seu horário. No entanto, se estamos atrasados, pode estar certo que vamos esquecer alguma coisa em casa, nos obrigando a voltar, ou o trânsito estará lento, ou vamos encontrar um conhecido na rua que puxará conversa ou o desgraçado do ônibus vai sair até um pouco antes da hora. Isto tudo é um complexo aparato que o tempo usa contra nós, como se dissesse “aqui quem manda sou eu”.
Assim é o tempo. Ele nos limita, nos diz o que fazer. Tentamos, imitando Réia, enganá-lo, mas não conseguimos. Ele é implacável. Ele passa e a gente não sabe o que fazer. Somos escravos do relógio. Como disse o filósofo Herbert Spencer, “tempo é aquilo que o homem está sempre tentando matar, mas que no fim acaba matando-o.”
O tempo passa e, como o deus Cronos, ele devora tudo o que vê pela frente, principalmente aquilo que deixamos de fazer agora. Há uma música composta por Cristóvão Bastos e Aldir Blanc que se chama “Resposta ao tempo”, cujos versos dizem que o tempo ri e zomba da gente “porque sabe passar e eu não sei”. Se não soubermos aproveitar o tempo presente, ficaremos cada vez mais perdidos neste mundo do corre-corre e envelheceremos cada vez mais tristes.
O que fazer? Talvez a única coisa capaz de ludibriar o tempo é o amor, que o diga o grande poeta Carlos Drummond de Andrade: “O tempo passa? Não passa/ no abismo do coração./ Lá dentro, perdura a graça/ do amor, florindo em canção./.../ Não há tempo consumido/ nem tempo a economizar./ O tempo é todo vestido/ de amor e tempo de amar.”

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