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Abraão e Isaque

Deus mandou Abraão imolar seu único filho, Isaque, e oferecê-lo em holocausto a Ele sobre uma das montanhas de Moriá. E tomou Abraão a lenha do holocausto e um cutelo e levou seu filho ao lugar que Deus lhe dissera. E edificou Abraão ali um altar e amarrou a Isaque e deitou-o em cima da lenha. E estendeu Abraão sua mão com o cutelo para imolar seu único filho. Mas um anjo do Senhor lhe bradou desde os céus Abraão, Abraão, não estenda tua mão sobre Isaque e não lhe faça mal. Agora sei que temes a Deus, pois não lhe negaste teu único filho em holocausto. E Abraão levantou os olhos e viu um cordeiro que Deus provera para oferecer em holocausto em lugar do seu filho, e assim fez. E o anjo do Senhor bradou que a semente de Abraão se multiplicaria como as estrelas do céu, e subiria à porta dos seus inimigos, e abençoaria todas as nações da Terra, porque Abraão obedecera a voz de Deus.

***

Muitos anos depois:

– Eu ainda sonho com aquele dia e acordo tremendo.

– Você era um menino...

– Vejo o cutelo na sua mão, vejo o seu rosto contorcido pela dor, vejo os seus olhos cheios d’água...

– Você era um menino...

– Lembro de tudo. Lembro dos trovões.

– Era a voz do anjo, me falando dos céus.

– Não ouvi a voz do anjo. Ouvi trovões. Só você ouviu a voz do anjo.

– Meu filho...

– Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Mas não consigo esquecer. Sonho com aquele dia todas as noites, e acordo tremendo.

– Você era um menino.

***

– Me lembro das nuvens escuras. De uma revoada de pássaros negros. Pássaros atônitos, chocando-se no ar. O céu parecendo recuar com o horror da cena. Um pai imolando um filho!

– Um sacrifício. Um ritual necessário de sangue. A cerimônia inaugural da nossa tribo, com os favores do céu.

– Um horror.

– Uma história muito maior do que a nossa. Muito maior do que a de um filho imolado. Hoje sou o pai de nações, o patriarca do mundo, porque obedeci ao Senhor e minha semente foi abençoada.

– Você ficou com o poder, eu fiquei com os pesadelos.

– Nossa tribo foi abençoada. Da minha semente nasceu a nossa glória.

– Você ficou com a glória, eu fiquei com as marcas das cordas.

***


– Você viu o meu rosto contorcido de dor, filho. Viu meus olhos cheios d’água. Viu que eu estava sofrendo por ter que matá-lo.

– Mas o fio do cutelo encostou na minha garganta.

– Eu não o matei!

– Porque Deus não deixou. Porque Deus mudou de ideia.

– Meu filho...

– Eu sei. Faz muito tempo. É melhor esquecer. Vou conseguir sobreviver às minhas memórias e aos meus pesadelos. Como você sobreviveu ao que sabe.

– O que eu sei?

– Que deve tudo que tem, seu poder e sua glória, a um Deus volúvel. A um Deus que volta atrás. A um Deus inconfiável.

– Ele estava me testando.

– Então é pior. Um Deus frívolo e cruel.

– Você era apenas um menino...

***

– Me lembro das nuvens escuras e dos pássaros atônitos. E do céu recuando diante daquela abominação: um pai matando um filho. E me lembro dos trovões.

– Era o anjo do Senhor falando comigo.

– Eram trovões.

– Obedeci à voz dos céus porque temo a Deus.

– Mais razão para temê-lo tenho eu, meu pai, que senti o fio do cutelo na garganta.

– Na origem de todos os povos tem uma cerimônia de sangue.

– Então na origem de todos os povos tem uma abominação.

– Esta conversa se repete, filho. Por quanto tempo ainda a teremos?

– Por todos os tempos, pai.

Comentários

Lara disse…
"Na mão de certos homens a Bíblia pode ser pior que uma garrafa de uísque(eu diria pior do que uma arma).Mas não estava falando mal de seu pai.Quis dizer apenas que ,mesmo que Atticus Finch bebesse até se embriagar ,nunca seria tão impiedoso quanto outros homens em seu juízo perfeito.Existem homens que se preocupam tanto com o outro mundo que nunca aprendem a viver nesse "diálogo entre Mrs.Maudie e Scout em O Sol é para Todos de Harper Lee.

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