segunda-feira, maio 31, 2010

Uma almofada nada confortável

por Cassionei Niches Petry

Quem lê minhas resenhas nesse espaço sabe que elas não são nem um pouco objetivas. Uso muito o “eu” porque leio realmente os livros e acho um desrespeito com o leitor ficar apenas reproduzindo o release da editora. Da mesma forma, acabo resenhando aquelas obras que me pegam pelo cangote e esfregam minha cara no chão, ou então me jogam de encontro a uma parede, de preferência bem áspera. A boa literatura não serve para nos deixar felizes. Ela deve nos incomodar, nos tirar da posição cômoda que muitas vezes vivemos, da “catatonia integral” como diz uma canção do Gonzaguinha. O romance 2666, de Roberto Bolaño (Companhia das Letras, 856 páginas, tradução de Eduardo Brandão), nos faz justamente isso.

O escritor, nascido no Chile em 1953, viveu também no México e na Espanha. Começou a chamar a atenção em 1998, com um prêmio recebido para Os detetives selvagens. Depois de sua morte em 2003, provocada por uma doença hepática, passou a ser cultuado e suas obras alcançaram ainda mais reconhecimento da crítica, além da boa vendagem, inclusive nos EUA. Alguns já chamam esse fenômeno de “bolañomania”. Foi durante a doença, sabendo que seu fim estava próximo, que Roberto Bolaño dedicou-se a escrever o que seriam cinco romances diferentes, com os quais queria amparar financeiramente a família por um tempo. Devido, porém, à unidade entre eles, o editor, em acordo com os familiares, os publicou num só volume. Essa decisão foi fundamental para a qualidade da obra.

Imagine uma pessoa atraída por teorias conspiratórias – e Bolaño adorava esse tipo de fabulação, segundo seu amigo, o escritor Rodrigo Fresán – se deparando, em uma livraria, com exemplares do livro 2666 expostos nas prateleiras. Seja na capa ou na grossa lombada, a cifra se destaca. O conspiracionista logo fará a ligação com o número da Besta, descrito no Apocalipse bíblico. No caso, é o mal multiplicado por dois. O numeral é um dos enigmas espalhados na obra do chileno Roberto Bolaño e aparece em dois outros romances, em Amuleto e no já citado Os detetives selvagens, num jogo intertextual típico do autor. Nesse último, a personagem Cesárea Tinajero, fala sobre “os tempos que se aproximam” e que a data seria por volta de “dois mil seiscentos e pouco”. Esse paradoxo reforça a ideia apocalíptica de que o fim está próximo e, enquanto não chega, o mal toma conta do mundo.

No romance, esse mal se manifesta de várias formas, mas o autor não nos joga logo nesse inferno. Primeiro nos conquista, na primeira parte, com a história de quatro críticos europeus, três homens e uma mulher, de nacionalidades diferentes, especialistas na obra de um escritor alemão chamado Benno von Archimboldi. A busca pelo seu paradeiro – que é fio de Ariadne na estrutura labiríntica da obra – os leva para a cidade de Santa Tereza, na divisa do México com os EUA. Mas antes, na Inglaterra, dois deles espancam um taxista, por ele ter ofendido a mulher. Esse ato de violência e muitos outros que pontuam a narrativa são indícios das coisas ruins que estão por ser narradas. Tal qual Virgílio, conduzindo Dante na Divina Comédia, Bolaño pega o leitor pela mão e o leva, aos poucos, para o último círculo do inferno.

O mal aparece na última parte através dos relatos da Segunda Guerra, de cujas batalhas o escritor Archimboldi participara. Porém, o centro desse inferno são os assassinatos de centenas de mulheres cometidos na cidade de Santa Tereza, que na vida real corresponde a Ciudad Juárez. O caso verídico já havia sido retratado por Bolaño em uma de suas crônicas reunidas em Entre paréntesis (não publicado no Brasil ainda), onde consta também uma entrevista concedida à revista Playboy. Perguntado sobre como deveria ser o inferno, ele citou Ciudad Juárez, “nossa maldição e nosso espelho, o espelho sem sossego de nossas frustrações”. Nesse pequeno cosmo, portanto, o autor quis mostrar como o ser humano pode destruir o mundo todo, seja agora ou no longínquo ano de 2666.

A monumental obra do escritor chileno, misto de metaliteratura, romance policial e ensaio, já é um dos romances capitais das letras latino-americanas, ao lado de Jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, Cem anos de solidão, de Gabriel García Marquez e Sobre heróis e tumbas, de Ernesto Sábato, só para citar alguns. Usando das palavras de Almafitano, um dos personagens marcantes do romance, 2666 faz parte das “grandes obras, imperfeitas, torrenciais, as que abrem caminho no desconhecido”; e Roberto Bolaño é um dos grandes mestres que “lutam contra aquilo, esse aquilo que atemoriza a todos nós, esse aquilo que acovarda e põe na defensiva, e há sangue e ferimentos mortais e fetidez.” Na sua última entrevista, ele disse que “o livro é a melhor almofada que existe”. Nesse caso, felizmente, é uma almofada nada confortável.


“Leer es como pensar, como rezar, como hablar con un amigo, como exponer tus ideas, como escuchar música (sí, sí), como contemplar un paisaje, como salir a dar un paseo por la playa”.

De um personagem de 2666, romance de Roberto Bolaño


"Yo no sé cómo hay escritores que aún creen en la inmortalidad literaria. Entiendo que haya quienes creen en la inmortalidad del alma, incluso puedo entender a los que creen en el Paraíso y el Infierno, y en esa estación intermedia y sobrecogedora que es el Purgatorio, pero cuando escucho a un escritor hablar de la inmortalidad de determinadas obras literarias me dan ganas de abofetearlo. No estoy hablando de pegarle sino de darle una sola bofetada y después, probablemente, abrazarlo y confortarlo. En esto, yo sé que algunos no estarán de acuerdo conmigo por ser personas básicamente no violentas. Yo también lo soy. Cuando digo darle una bofetada estoy más bien pensando en el carácter lenitivo de ciertas bofetadas, como aquellas que en el cine se les da a los histéricos o a las histéricas para que reaccionen y dejen de gritar y salven su vida."

Roberto Bolaño


"Muchas pueden ser las patrias, se me ocurre ahora, pero uno sólo el pasaporte, y ese pasaporte evidentemente es la calidad de la literatura. Que no significa escribir bien, porque eso lo puede hacer cualquiera. ¿Entonces qué es una escritura de calidad? Pues lo que siempre ha sido: saber meter la cabeza en lo oscuro, saber saltar al vacío, saber que la literatura es básicamente un oficio peligroso."

Roberto Bolaño

domingo, maio 30, 2010

Dois inimigos, duas crônicas

Luis Fernando Verissimo e Juremir Machado da Silva, inimigos públicos juramentados, disputam quem escreve a melhor crônica de hoje. O primeiro escreve sobre a falta de assunto, o segundo se compara a Paul Auster. Boa leitura.

LVF - O mestre

Eu precisava escrever esta crônica. Tinha pouco tempo e nenhuma ideia. Fazer o quê? Fui procurar o Mestre. Expliquei minha situação. Ele sorriu, paternalmente. O velho problema de sempre. A aflição de todo cronista. Pouco tempo e nenhuma ideia.

– Escreva sobre isso – sugeriu ele, agora com um sorriso irônico. – Sobre a aflição. Sobre o que sente um cronista sem tempo e sem ideias, obrigado a cumprir um prazo.

– Mas, Mestre, isso é o que tem feito todos os cronistas desde os tempos bíblicos. Na falta de assunto, escrever sobre a falta de assunto. Não é novidade.

– Ainda bem que você reconhece – disse ele. – Esse truque não funciona mais. Vamos às alternativas. Que tipo de crônica você quer fazer?

– Bem...

– Séria? Humorística? Opiniática? Lirica? Profunda? Frívola?

– Humorística.

– Que tipo de humor?

– Quantos tipos há?

– Tem o humor fácil, sem um objetivo maior, e que sempre funciona. Um homem escorregando numa casca de banana, por exemplo. O homem escorrega numa casca de banana e cai. Não é uma crônica, mas é um começo. E engraçado.

– E o que acontece depois?

– Aí depende. O tombo pode significar apenas um tombo. Ou a casca de banana pode simbolizar o destino, o homem que cai pode simbolizar a humanidade diante do seu destino e da fatalidade biológica da morte, e toda a crônica pode ser sobre a condição humana e o nosso desespero sem saída.

– E onde fica o humor?

– No final a gente bota uma piada.

– Sei não. Casca de banana...

– Você quer uma coisa mais refinada? Escreva diálogos sofisticados. Os diálogos têm uma grande vantagem.

– Qual é?

– Qual é o quê?

– Qual é a vantagem de diálogos?

– É que enchem mais espaço. O leitor pode ter dificuldade em identificar quem está falando, mas o cronista sem tempo realiza seu objetivo principal, que é chegar ao fim da crônica o mais rapidamente possível.

– Esses diálogos sofisticados...

– São fáceis de fazer. Ao contrário da casca de banana, não precisam provocar gargalhadas, apenas sorrisos. Experimente. Comece um dialogo sofisticado.

– Hmmm. Deixa ver. Homem chega em casa e pede para a mulher: “Prepara um drinque para mim e um banho quente para nós dois”. Mulher diz: “Acho que você já tomou drinques demais”. Homem: “Por que você diz isso, querida?”. Mulher: “Porque esta não é a sua casa e eu não sou a sua mulher”. Homem: “O banho quente, então, nem pensar?”.

– Acho melhor esquecer o humor.

– Sobre o que eu devo escrever, então?

– Tenta algo profundo. A alma. O pré-sal.

– Não tenho tempo!

– Então escreve qualquer bobagem, mas com uma epígrafe do Shakespeare ou do Nietzsche. Qualquer coisa fica séria com uma boa epígrafe.

– Você acha?

– Vamos fazer o seguinte. Inventa um Mestre a quem você pede ajuda. Ele tenta ajudar, e o diálogo de vocês é a crônica. Pronto.

– Mas isso também é um truque!

– E daí? Funcionou. Chegamos ao fim.

– Você não tem mais nada para dizer?

– Tenho. Tiau.

***

JMS - Paul Auster e eu

Paul Auster viveu em Paris. Eu também. Ele tinha pouco dinheiro. Eu também. Auster traduziu grandes escritores franceses. Eu também. Por exemplo, Charles Baudelaire. Auster é poeta. Eu também (um dia vocês conhecerão meus poemas). Espero que não tomem isso como uma ameaça. Auster tem a sua trilogia de Nova Iorque. Eu tenho a minha trilogia de Palomas: "Cai a Noite Sobre Palomas", "Fronteiras" e "Viagem ao Extremo Sul da Solidão". São três romances esgotados. Tratam da vida de um menino, de um jovem e de um homem. O menino e o jovem viram a ditadura em Palomas. O homem saiu pelo mundo em busca da liberdade. Um vive dentro do outro. Palomas está no mundo. O mundo está em Palomas. A parte está no todo, que está na parte. Paloma é um holograma do imaginário.

O mundo de Auster tem o seu centro em Nova Iorque, no Brooklyn. O meu centro está em Palomas. Brasília não tem esquinas. Palomas não tem bairros. Em "Cai a Noite Sobre Palomas", o menino descobre a violência, o sexo, a beleza e a traição. Em "Fronteiras", o jovem conhece a tortura, a utopia e uma identidade chamada pampa. Em "Viagem ao Extremo Sul da Solidão", o homem, sempre jovem, eterno menino, mergulha na depressão. Sempre sou obrigado a dizer coisas inteligentes sobre meus livros que os resenhistas esqueceram de anotar. "Fronteiras" é um livro cru. Alguns personagens são gaudérios. "Cai a Noite Sobre Palomas" é um livro experimental. O personagem sonha, pensa e deslumbra-se com as palavras. "Viagem ao Extremo Sul da Solidão" é um livro melancólico. O personagem sabe que perdeu. Tenta desesperadamente suportar a derrota.

Não consigo viver bem sabendo que vocês estão privados da leitura dessa trilogia palomense. O mundo não pode viver sem a Macondo de Gabriel García Márquez. Nem sem a minha Palomas. Vou pedir ao Correio do Povo e à Editora Sulina que se unam para fazer uma promoção de relançamento de "Cai a Noite Sobre Palomas", "Fronteiras" e "Viagem ao Extremo Sul da Solidão". Não farei esse pedido por vaidade nem por interesse financeiro. Isso jamais passaria pela minha cabeça. Farei por idealismo e no interesse de vocês. Proporei a edição de mil coleções da Trilogia de Palomas. Vocês terão uma tarde para comprar tudo. Os mil primeiros se darão bem. Tudo o que tiver sobrado ao final dessa tarde, eu mesmo comprarei. E queimarei. Não me digam que não tiveram uma oportunidade. Dependendo do número de coleções que eu tiver de comprar, queimarei junto com meus livros. Deixarei pronto o meu epitáfio para evitar que o principal seja esquecido. Terá um título muito original: "A Fogueira da Vaidade".

Eu penso em tudo. Sou obrigado. Paul Auster morou num "studio" em Paris. Eu também. O meu tinha 18 metros quadrados e era todo roxo, inclusive o teto. Auster escreveu em Paris. Eu também. Uma cigana, em Montmartre, disse que ele seria um grande escritor. Uma cigana me disse, em Saint-Germain-des-Prés, que eu arderia com meus livros. Não explicou se seria na glória ou no fogo do inferno. Tudo vai depender de vocês. E não venham me dizer que estou fazendo chantagem. Isso é o mínimo.

sábado, maio 29, 2010

Dicas de textos para ler nessa tarde de sábado

Paul Auster em seu escritório (1993)

Artigo de Vila-Matas, sobre Paul Auster, no Babelia, do jornal El País: aqui (em espanhol)

Artigo de Rosa Montero, sobre Carmen Laforet, também no Babelia: aqui (em espanhol)

Crônica de Celso Loureiro Chaves, sobre Alfred Schnittke no Cultura de ZH: aqui

Crônica de Nilson Souza, sobre Darwin e Deus, no Segundo Caderno de ZH: aqui

Artigo de Terry Sanderson, no jornal The Guardian: aqui (em inglês)

sexta-feira, maio 28, 2010

Mergulhado no livro desse cara aí. Aguardem as consequências disso na segunda-feira.

quarta-feira, maio 26, 2010

Companhia das Letras

Estou recebendo livros da editora Companhia das Letras a partir desse mês. Mandei links de todos as resenhas que escrevi para diferentes editoras e a Cia. foi a única que me deu retorno, através de trocas de e-mail com uma das responsáveis pela divulgação. Por isso não estranhem se os próximos textos serão mais sobre livros da editora paulista, que, diga-se, inaugurou recentemente um blog: http://www.blogdacia.com.br/.
Aliás, vasculhando a biblioteca da Unisc, vi que foram adquiridos títulos depois que foram por mim resenhados no jornal Gazeta do Sul. Outros já constavam do acervo.

terça-feira, maio 25, 2010

Tive o desprazer de ouvir no rádio por esses dias opiniões de pessoas que não parecem viver no século XXI. Invocar deus, Bíblia e dizer que o demônio está por trás da criação de vida artificial feita recentemente por cientistas? Isso é de uma demência sem tamanho! Antes que me peçam respeito, lembrem que as pessoas que dizem isso também não o têm por outras que se dedicam a buscar curas para nossas doenças, as quais nenhuma oração dessa gente carola consegue curar.

Aforismo por Cassionei

Não seguir religião nenhuma, mesmo ainda acreditando em um deus, é um dos passos para a descrença. É primeira porta da prisão que foi destrancada.


segunda-feira, maio 24, 2010

Olhar para o céu não resolve...

...que o diga o padre Marcelo:

Leitura vertical

Este texto será publicado amanhã (com algumas modificações) na Gazeta do Sul, mais precisamente na coluna “Universo das Letras”, do curso de Letras da Unisc, a convite da professora Dercy Akele.

Cassionei Niches Petry*

Um navio, que de tão monumental é batizado com um nome que lembra seres gigantes da mitologia grega. Um casal na proa, de braços abertos e os cabelos ao vento, tendo como fundo musical o som pegajoso de uma cantora com voz estridente. Na superfície do mar, um pedaço de gelo inofensivo. Mal sabem eles o que os aguarda sob as águas.

Se o leitor sabe do que estou falando, é porque fez uma leitura nas chamadas entrelinhas, ou seja, procurou dados para interpretar o texto nos elementos disponibilizados pelo autor e no conhecimento que já possui. Aprofundou-se um pouco mais na leitura, não lendo só o que está na superfície. Já o capitão do navio, justamente por ver apenas o que estava sobre as águas, talvez por estar despreparado para uma situação como esta, acabou se dando mal, levando com ele dezenas de pessoas. Se tivesse mais conhecimentos ou tivesse mergulhado no mar para ver o tamanho real do perigo, a tragédia não teria acontecido.

Ernest Hemingway, autor de Adeus às armas, entre outras obras-primas da literatura, afirmou em uma entrevista que escreve a partir de um princípio que ficou conhecido mais tarde como a Teoria do Iceberg: “Sempre existem sete oitavos dele sob a água, para cada parte que aparece. O que quer que se saiba, pode ser eliminado (...). É a parte que não aparece.” (COWLEY, 1968). Assim como ele, vários escritores deixam subtendidos os significados dos seus textos. O leitor, portanto, não deve realizar uma leitura superficial, mas sim uma leitura profunda, mergulhar realmente no texto. Em outras palavras, o olhar de quem aprecia uma obra literária dever ser vertical e não horizontal.

Outros mestres da literatura também abordaram o tema em entrevistas ou trabalhos teóricos. O escritor peruano Mario Vargas Llosa, por exemplo, ao comentar os procedimentos de Hemingway, chama aos silêncios significativos de um escritor de “dado escondido”. São as informações que o autor suprime para despertar a imaginação do leitor, a fim de que ele “preencha aqueles brancos da história” com suas interpretações (Vargas Llosa, 2006). De onde se conclui que há necessidade de um leitor mais participativo, mais ativo, sabedor de que não vai receber nada pronto, mastigado.

Claro que estou me referindo à literatura e não aos textos jornalísticos. As notícias têm como premissa informar, muitas vezes de forma rápida, pois o leitor sai de casa apressado para seu dia a dia, não sem antes dar uma lida também apressada no jornal preferido. Mesmo nesses textos, porém, podem aparecer dados escondidos, afinal quem os escreve, mesmo sem intenção, acaba deixando transparecer seus pontos de vista. Se um jornalista ao noticiar um conflito entrevista só um dos lados envolvidos, acabará revelando sua ideologia para um leitor mais atento.

As palavras também não devem ser desprezadas. Elas escondem em si vários significados, que devem ser considerados em uma leitura mais profunda. Se o escritor descreve uma casa onde há uma cruz na parede, ela pode não estar ali apenas como elemento decorativo. Há no simbolismo dessa palavra uma infinidade de interpretações que podem nos remeter à possível religiosidade da família, ao sofrimento de uma personagem, quem sabe um sentimento de culpa de outra ou pode até representar os caminhos cruzados. O leitor experimentado não deixa passar nada em branco e o escritor, esperto, sabe disso.

Os bons textos, portanto, não nos deixam passivos. Eles fazem com que nos debrucemos sobre as palavras, sugando o veneno ou o mel que elas podem oferecer, nos tirando da calmaria das ideias prontas e nos jogando nas águas turbulentas da reflexão. Pensando bem, é bom dar de cara com um iceberg de vez em quando.

*Licenciado em Letras Português/Espanhol e respectivas Literaturas pela Unisc.


COWLEY, Malcolm (coord.). Escritores em ação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968.

VARGAS LLOSA, Mario. Cartas a um jovem escritor. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.


domingo, maio 23, 2010

XENÓFANES DE COLÓFON

Fragmentos:
11 - Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que para os homens e opróbrio e vergonha: roubo, adultério e fraudes reciprocas.
14 - Mas os mortais imaginam que os deuses são engendrados, tem vestimentas, voz e forma semelhantes a eles.
15 - Tivessem os bois, os cavalos e os leões mãos, e pudessem, com elas, pintar e produzir obras como os homens, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, e os bois semelhantes a bois, cada (espécie animal) reproduzindo a sua própria forma.
16 - Os etíopes dizem que os seus deuses são negros e de nariz chato, os trácios dizem que têm olhos azuis e cabelos vermelhos.
34 - Pois homem algum viu e não haverá quem possa ver a verdade acerca dos deuses e de todas as coisas das quais eu falo; pois mesmo se alguém conseguisse expressar-se com toda exatidão possível, ele próprio não se aperceberia disto. A opinião reina em tudo.
35 - Considerai todas estas coisas como meras opiniões, tendo aparência de verdade.

sábado, maio 22, 2010


"Outros povos nos deram santos, os gregos nos deram sábios." Nietzsche

Registrando sincronicidades

Agora há pouco, na página do site da Gazeta do Sul, vi uma foto do estande da loja Móveis Luciane em uma feira no parque da Oktoberfest. Ao mesmo tempo, o Mr. Pi, na reprise do Pretinho Básico da rádio Atlântida, lia um e-mail de uma ouvinte e disse o nome dela: Luciane.

sexta-feira, maio 21, 2010

Adaptação de "A metamorfose"

No ano passado sugeri aqui no blog esse filme, uma adaptação de "A metamorfose", do Kafka. Hoje achei o trailer no Youtube. Reparem na interpretação de Gregor Samsa feita pelo ator Yevgeni Mironov. O filme foi reallizado em 2002 com direção e roteiro do russo Valeri Fokin.

quarta-feira, maio 19, 2010

Poesia dos outros


VERDADE

A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível antigir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
(Carlos Drummond de Andrade)


MOMENTO NUM CAFÉ

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
(Manuel Bandeira)

"Laranja mecânica" no jornal de hoje


http://www.gazetadosul.com.br/default.php?arquivo=_pdf.php&intIdEdicao=2093&NrPagina=22

segunda-feira, maio 17, 2010

Aceita uma laranja?



Alguém já disse: se torcêssemos um jornal como se faz com uma toalha, pingaria muito sangue. Claro, isso serve para a TV, nesse caso não apenas nos noticiários, como também nos filmes, séries e novelas, que estão se especializando na “estética do tiro”. Muitos afirmam que é a sociedade que está cada vez mais violenta. Isso é uma verdade em partes, pois a violência cresce proporcionalmente ao aumento da população. O homem sempre foi um animal violento. A diferença é que uns controlam esses instintos, enquanto outros não seguram a fera dentro de si.
O que acontecerá no futuro? Os otimistas acreditam que tudo pode melhorar, sonham com um mundo de paz para seus filhos, são utópicos. Os pessimistas, por seu turno, pintam um mundo sombrio, onde cada vez mais as casas terão cercas eletrificadas e proliferarão os condomínios fechados. Quem não tiver dinheiro (a “tia pecúnia”) estará à mercê de gangues, com delinquentes cada vez mais jovens, que praticarão a “ultraviolência”. Esse cenário distópico aparece em muitos livros de ficção científica. Entre eles, Laranja mecânica, de Anthony Burgess (editora Aleph, 224 páginas).
Utopia é um termo que designa, literalmente, um lugar que não existe (do grego, “ou”, negação e “topos”, lugar”). A palavra foi usada pela primeira vez no livro homônimo de Thomas More para nomear uma ilha onde tudo era perfeito, do sistema de governo às atitudes dos cidadãos. Por extensão, passou a significar o sonho de um mundo ideal, o qual muitas vezes seguimos, mesmo sabendo que ele pode nunca acontecer. Miramos o horizonte e nos guiamos por ele, apesar de nunca o alcançarmos. Já a distopia é o contrário. Seriam distópicas as sociedades do futuro em que prevalecessem os regimes totalitários que controlassem os passos e o pensamento do indivíduo (como no livro 1984, de George Orwell, onde surgiu a expressão Big Brother), que manipulassem geneticamente os embriões dos seres humanos para condicioná-los a agirem conforme o sistema (Admirável mundo novo, de Aldous Huxley) ou destruíssem obras intelectuais para que as pessoas não aprendessem a questionar a realidade (Fahreinheit 451, de Ray Bradbury).
No livro de Burgess, publicado em 1962, vemos uma Inglaterra, num futuro não muito distante, tomada por gangues juvenis que praticam a ultraviolência. Quem nos narra a história é um membro de uma dessas gangues, Alex, com uma algaravia de gírias chamada de linguagem “nadsat” (há um glossário no final do livro para compreender as expressões). Seus companheiros são “druguis”, que moram em “flatblocos”, adoram beber “moloko” para depois “itiar” pelas ruas, espancar “vekios”, estuprar “devotchka”, roubar “tia pecúnia, fazer muitas coisas “horrorshow” e depois fugir dos “miliquinhas”. Burgess, estudioso da obra de James Joyce, criou as gírias baseado em línguas do leste europeu. Causa estranhamento em um primeiro momento, mas com o decorrer da leitura acabamos nos acostumando com ela, sem contar que, nessa nova edição no Brasil, a tradução de Fábio Fernandes faz fluir bem mais fácil o texto do que a antiga, feita nos anos 70.
Após todas as atrocidades cometidas, Alex acaba preso e passa por um processo de reabilitação inovador chamado processo Ludovico. Amarrado a uma cadeira e com grampos prendendo suas pálpebras, ele assiste a filmes que mostram as ações cruéis de que o ser humano é capaz de fazer contra seu semelhante, com destaque para o Holocausto. Ao ser obrigado a assistir as cenas que seguem numa sucessão frenética, sem poder fechar os seus olhos, Alex é condicionado a ter repulsa por qualquer situação de violência e, consequentemente, é considerado curado. Na terceira parte, ocorre a tentativa de voltar a conviver pacificamente dentro da sociedade e com sua família, mas percebe a dificuldade de aceitação de um ex-delinquente, ainda mais por reencontrar aqueles que antes foram suas vítimas.
Laranja mecânica se tornou mais conhecido depois da adaptação cinematográfica feita por Stanley Kubrick, com cenas que entraram para o inconsciente coletivo dos amantes da sétima arte. No filme, porém, os “druguis” são adultos, ao contrário do romance, em que são adolescentes. Recentemente, a adaptação de Alice no país da maravilhas também opta por uma personagem adulta em vez da criança da obra de Lewis Carroll. Será tudo culpa do “politicamente correto”? De qualquer forma, o romance nos instiga a refletir sobre o caráter do ser humano que se forma já na infância e sobre como estamos cada vez mais perdendo o controle dos nossos filhos. Mas também faz uma crítica ao Estado, que faz muito pouco para curar esse mal da sociedade e, quando tenta, utiliza métodos errados ao manipular a mente das pessoas. Como escreveu uma das vítimas dos “druguis”, um escritor, em seu livro que foi rasgado por Alex, e cujo título é o mesmo do romance de Burgess: “A tentativa de impor ao homem (...) leis e condições que são apropriadas a uma criação mecânica, contra isto eu levanto minha caneta-espada”.
***
Ouvindo a trilha sonora do filme de Stanley Kubrick:

Mais sincronicidades


Estou escrendo uma resenha que vai sair ainda hoje aqui no blog e quarta-feira na Gazeta do Sul sobre o romance Laranja mecânica. Pois chega da escola a minha família com um sacola de... de... laranjas, me perguntando se não quero uma. E o título da resenha vai ser justamente "Aceita uma laranja?"

domingo, maio 16, 2010

Fala, mestre!

"Boa parte da formação cultural é um trabalho de desmontagem do que os parentes e professores nos ensinaram. Cultura não é apenas acúmulo de informações e domínio de conceitos; é um processo longo, conflituoso e não-linear, em que lutamos para retirar as cascas com que o senso comum – “a trama ideológica fundamental”, na frase de Jacques Ellul – nos embota desde que nascemos, em osmose contínua. Ao contrário do que se diz, uma biblioteca não é um lugar silencioso, aonde vamos colher saberes como se fossem frutos; é uma arena de combate, onde pensamentos de várias épocas e lugares se digladiam, não raro causando mortes. Não há conhecimento sem conflito; e isso lhe dá vida."

sábado, maio 15, 2010


SIMULTANEIDADE

- Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
- Você é louco?
- Não, sou poeta.

Mário Quintana - A vaca e o hipogrifo

terça-feira, maio 11, 2010

Coletividade X indivíduo

Cartum de Quino

por Cassionei Niches Petry

“Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho/ deixem que eu decida a minha vida”, entoa Belchior em uma música que foi muito lembrada quando do “sumiço” do cantor há alguns meses. Os versos nos fazem pensar sobre o que chamo de ditadura da coletividade. Nela, o indivíduo é obrigado a viver socialmente, para ser aceito pelos seus pares, ou deve se engajar em alguma causa social para não ser tachado de insensível ou reacionário. Ora, porque precisamos seguir o mesmo caminho que outros seguem, fazer o que os outros fazem, pensar como os outros pensam?

Se o indivíduo não bebe com os amigos, por exemplo, é ridicularizado. Recentemente parei de ingerir bebidas alcoólicas (que Baco me perdoe!), o que fez muitos pensarem que eu teria virado “crente”, uma ofensa para um ateu. É nesse passo que muitos acabam entrando nas drogas. A necessidade de pertencer a um grupo leva os jovens a imitar os outros através das gírias, roupas, atitudes e, claro, uso de substâncias que os tornem “rebeldes” diante da sociedade. Mal sabem eles que estão perdendo sua individualidade ao se tornarem marionetes dos amigos e do tráfico. Fogem de um sistema opressor para entrar em outro pior ainda. E são individualistas por não pensarem no sofrimento que causam àqueles que realmente os amam.

Paradoxalmente, há pessoas ditas altruístas que, na verdade, são individualistas. Muitos voluntários desses movimentos de solidariedade criticam as pessoas que não se envolvem nesses assuntos. “Se mais pessoas ajudassem, pensassem na coletividade, o mundo seria muito melhor. Eu estou fazendo a minha parte.” Quem afirma isso quer ajudar os outros ou satisfazer seu ego? Ora, quem não tem vocação de ajudar tem o direito de se abster para não atrapalhar. Muitos escritores e filósofos, na solidão de suas torres de marfim, podem fazer muito mais ao produzir obras que nos fazem refletir do que aqueles que se vangloriam em pensar nos outros para aparecer nas colunas sociais. Como escreveu Oscar Wilde, “o egoísmo não consiste em vivermos conforme os nossos desejos, mas sim em exigirmos que os outros vivam da mesma forma que nós gostaríamos. O altruísmo, por sua vez, consiste em deixarmos todo mundo viver do jeito que bem quiser.”

Não podemos confundir individualismo com individualidade. O individualista só pensa em si mesmo. Para ele o mundo gira ao seu redor e julga severamente os que pensam diferente dele. Parece até odiar seus semelhantes. Já o indivíduo está inserido dentro de uma sociedade, porém quer preservar seus valores próprios, sua singularidade, sem impor seus pontos de vista a outras pessoas, pois não abre mão de conviver com elas. Dito de outro modo, o primeiro acha que é o centro do mundo e quer moldar os outros de acordo com suas ideologias. O segundo prefere ficar à margem e sua filosofia de vida é moldada para si mesmo. No entanto, adora estar em boa companhia e compartilhar, repito, compartilhar o que pensa. Ah, e aceita ser contestado.

***
Escrevi o texto ouvindo, lógico, o disco Era uma vez o homem e seu tempo, de Belchior, que contém a música "Comentário a respeito de John", citada no início da crônica.