domingo, setembro 30, 2012

Autran Dourado (1926-2012)

"Não nos esquecemos da verdade elementar de que quando um escritor começa a escrever, por mais solitário e ignorante que ele seja, nunca está sozinho. Atrás dele estão não só os grandes gênios e inventores da literatura universal (mesmo que ele não os conheça, o que é natural), mas sobretudo e principalmente os pequenos e grandes escritores que escreveram na sua mesma língua antes dele". Poética do romance: matéria de carpitaria.

terça-feira, setembro 25, 2012

O marceneiro das palavras




Trabalhei durante muitos anos com meu pai, auxiliando-o na sua marcenaria. Acompanhava a madeira bruta sendo aplainada, ficando quase lisa. Depois era lixada, cortada, pregada, parafusada, até receber alguns detalhes que transformava tudo em um móvel de cozinha ou de um quarto. Ajudava em algumas partes desse processo, mas era passar selador, lixar e dar a segunda mão do mesmo produto a minha principal função. Às vezes, envernizava. Era o processo final. Trabalho meticuloso e manual, do qual não sou muito bom, mas que me enchia de orgulho quando via pronto. Bastava a aprovação do cliente e elogio pelo trabalho bem feito, ou a crítica por algo que não ficou do seu agrado. Ou simplesmente o pagamento e o silêncio.

O processo da escrita não é diferente. A madeira é a palavra, que nas mãos do escritor é aplainada, lixada, cortada, pregada e parafusada, necessitando muitas vezes de dobradiças para articular suas partes. Depois de tudo quase pronto, a releitura é necessária para dar o brilho, que só vai se completar com uma terceira, quarta, quinta leitura, depois de cuidadosamente polir as palavras. Completado o trabalho, em que mãos e dedos martelaram o teclado, vem o orgulho da realização. Basta o elogio do leitor ou sua crítica. Ou o silêncio.

domingo, setembro 23, 2012

"A arte de recusar um romance"



Muito bom esse livro, elencando diferentes formas de um editor recusar a publicação de um romance. Está em espanhol. Poderia traduzir e oferecer para um editor, mas aí...


Maternal
¡Ay, mi niño! Acabo de terminar de leer el manus­crito que me enviaste. ¿Cómo decírtelo sin lastimarte? Me siento torpe y detesto esta clase de situaciones, pero no tengo elección, debo informarte que no he­mos seleccionado tu manuscrito para publicarlo. Por favor, no lo tomes como una derrota, y aún menos como una reprimenda del ambiente literario. Pero tie­nes que pensar en realizar un trabajo de escritura se­rio. Esta es tu debilidad más grande. La originalidad, la psicología de tus personajes e incluso tu relato, todo eso está muy bien, funciona. Es una historia de amor clásica y los ingredientes están bien dosificados. Lo único que te falta, y se nota mucho, es el trabajo de acabado. Te lo digo con todo el afecto de alguien que desea tu bien. No sé qué edad tienes, pero estoy segu­ro de que aún estás a tiempo de aprender tu oficio. No has perdido nada. Y la literatura, como tú mismo no tardarás en saberlo, puede ser despiadada con una pri­mera novela. Como solía decir mi vieja tía Armande, que era bibliotecaria: no hay malos escritores, sólo li­bros malos.
Ánimo y muéstranos de lo que eres capaz. Ponte a trabajar, tienes talento para triunfar, estoy conven­cido de ello. Un abrazo y te deseo el mejor de los éxitos.
De alguien que desea tu bien.

Gastronómico
Señor:
Acabamos de terminar la degustación del manus­crito que usted nos ha servido. Antes de levantarnos de la mesa en el momento en que la cocción está, por así decir, a punto, deseamos comunicarle nuestras impresiones. Mejor será decírselo ahora mismo: nos hemos quedado con hambre. Hemos de decirle, a ries­go de herirlo, que la consistencia de la prosa que hemos probado no es la que nos gusta. En otras palabras, el texto que usted nos ha preparado no ha quedado del todo bien. No es que su relato sea indigesto, pero la verdad es que adolece de una falta de sabores. Para co­cinar una historia que los lectores vayan a devorar página tras página es preciso conocer el arte de la con­dimentación.
Una buena novela debe contener al menos un per­sonaje maduro, con un físico consistente, y una heroí­na preferentemente un poco verde. Una cascarita de erotismo es un ingrediente indispensable para hacer que a los corazones tiernos se les haga la boca agua. Añada una generosa ración de buenos sentimientos sobre los cuales echará una espesa salsa de imprevis­tos. Cúbralo todo y deje reposar el relato cierto tiem­po. Después, con un poco de distancia, vuelva a leer­lo desde el principio para saber si está bien cocido. Ésta es la receta del éxito.
Buen provecho y hasta la próxima.

Sarcástico
Señor:
Nos sentimos muy felices de que haya pensado en nosotros para publicar. Nos cuesta reprimir la necesi­dad de comunicarle nuestras impresiones. Si la calidad de su manuscrito sólo tiene parangón con la estima que usted profesa a nuestra casa, no puedo ni imagi­narme la suerte que reserva a los que desprecia. De verdad, no hay que ser tímido. En cuanto tenga algo terminado, envíenoslo. Nuestro comité de lectura se muere de impaciencia por volver a sumergirse en otra de sus «obras maestras». Esperemos que la próxima vez nos proponga una saga interminable. O, mejor, escriba la continuación de En busca del tiempo perdido. Haga que el placer dure, nuestro equipo se sentirá dichoso. Los mantendrá ocupados durante meses. Ahora que lo pienso, no se preocupe por las correc­ciones. Las faltas de ortografía, los errores gramati­cales, la sintaxis que deja mucho que desear: no se preocupe, haremos lo necesario. ¿Por qué no? Nues­tra correctora estará encantada de quemarse las pesta­ñas descifrando su dialecto, le servirá de práctica.
Ahora, escúcheme bien. Si puede tomarse unos segundos de su precioso tiempo y consultar nuestro catálogo, comprenderá quizá que no tenemos un mi­nuto para perder con su novela edulcorada. Háganos el favor de no volver a enviarnos nunca nada más. Usted es un caradura, pero todo tiene su límite.
¡Es increíble que a alguien se le ocurra molestar a las personas serias con un manuscrito que no vale nada!

Necrología
Señor:
Con honda tristeza deseamos anunciarle la desa­parición de toda esperanza de ver publicado el manus­crito que usted nos había sometido para su evalua­ción. Tras un largo y valeroso combate con nuestro comité de selección, su texto, agotado, ha sucumbido lentamente y con gran serenidad. Deseamos expresarle nuestras más sinceras condolencias. Su manuscrito deja enlutada una carrera sin terminar, un futuro improba­ble y un éxito más que modesto. Fue precedido por la muerte de una obra de teatro, un poemario, seis cuen­tos eróticos y tres textos que jamás serán publicados.
Le reiteramos nuestras condolencias y le deseamos la dignidad necesaria para atravesar esta difícil prueba.
Puede expresar su pésame realizando un donativo a una biblioteca pública de su elección.

sexta-feira, setembro 21, 2012

Arnaldo Campos (1932-2012)

Morreu ontem o escritor Arnaldo Campos, de acordo com nota do IEL. Notável contista, seu livro O degrau foi uma de minhas leituras marcantes. Volume com menos de 70 páginas, me influenciou a lançar um livro igualmente curto, mas que procura ser denso e artisiticamente elaborado. Publicou ainda O justiceiro e outras histórias, Réquien para um burocrata, A boa guerra e A ceia do diabo. Na foto, os exemplares que tenho de sua obra na minha biblioteca.

quarta-feira, setembro 19, 2012

Pedro Eiras no Traçando Livros

Com algumas modificações e acréscimos, o texto "Lendo para morrer", que publiquei esses dia por aqui, foi o escolhido para a minha coluna quinzenal "Traçando Livros", no jornal Gazeta do Sul. Na sexta-feira, com a disponibilidade da versão em PDF, posto uma imagem melhor da página.

Lendo para morrer
Cassionei Niches Petry

O título não cabe nos 140 caracteres do twitter: Pequeno divertimento sobre literatura em cem lições, também conhecido sob o título Substâncias Perigosas em que se explica por que meios os livros matam os seus leitores & onde se dão variados e mui instrutivos exemplos ao alcance do comum dos mortais. Seu autor, o português Pedro Eiras, é poeta, dramaturgo e professor de Literatura. Ainda não li todo o livro (Ensaio? Romance? Crônica? Manual? Impossível classificá-lo), publicado no Brasil pela editora Casa da Palavra, e não pretendo terminá-lo tão cedo. Estou degustando-o aos poucos, com medo de morrer depois da leitura, pois em suas páginas está escrito: “Alguns livros convidam a matar. Outros, ao suicídio. Outros ainda, mais sutis, limitam-se a relativizar a morte – meio caminho para morrer. Todos são substâncias perigosas, como os medicamentos. Só deveriam poder ser comprados com receita médica ou atestado de robustez intelectual.”

Sim, os livros são perigosos. Cuidado com eles. Melhor dizendo, os bons são perigosos. Aqueles que nos incomodam, nos dizem verdades que não queremos ler. “Todos os livros, de algum modo, são errados”, escreve Eiras. “Porque nos desencaminham, isto é, fazem com que erremos o caminho, com que caiamos nos atalhos perigosos.” Os ruins dizem as verdades que queremos que sejam verdades, mas que não passam de mentiras que nos confortam. “O universo conspira a nosso favor”, disse um desses escrevinhadores. Ora, sabemos que não é assim. Tudo conspira contra nós. Só os mais afortunados podem dizer o contrário. Os demais precisam se mexer muito para obter algo a seu favor e mesmo assim não alcançam os objetivos.

A boa literatura, não custa repetir, é a que nos deixa com mais dúvidas, não a que nos dá respostas. Mostra quem somos, não quem desejaríamos ser. Expõe nossa mediocridade, nossas feridas, nossas angústias, nossas decepções e nos fazem pensar. Literatura ruim não nos faz pensar porque não dá espaço para isso. As respostas vêm prontas, embaladas e bonitas, tudo ao gosto do freguês. Por isso vende mais. Quantidade não é sinônimo de qualidade. Nem tudo que é muito lido, ouvido ou assistido é bom. “E os livros que não nos desencaminham, que não são errados – bem, para que perdemos tempo a lê-los?”

“TODO O LIVRO PROCURA A SUA VÍTIMA”, escreve Pedro Eiras, assim mesmo, em letras garrafais. No momento, Substâncias Perigosas me encontrou. Posso ser sua vítima. Mas vou adiar o máximo possível que ele provoque a minha morte ou que me incite ao suicídio. “Há mais glória em avançar e recuar casas do que em terminar o jogo”, afirma o autor, se referindo a uma atividade lúdica surgida na Idade Média e que é uma metáfora para a morte e à leitura. Enquanto jogo/leio, vou me desviando do caminho que me levará à indesejada das gentes.

Cassionei Niches Petry é escritor e mestrando em Letras, com bolsa do CNPq. Autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco), livro que também pode matar o leitor . Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

sábado, setembro 15, 2012

Texto antigo: "As eleições estão chegando"

Clique na imagem para ampliar

Texto que publiquei na Gazeta antes das eleições municipais de 2008, fazendo trocadilhos (hoje os acho fracos) com nomes de alguns políticos da época, que aparecem em itálico. Alguns nem concorrem neste ano.

quarta-feira, setembro 12, 2012

Lendo para morrer (I)




O título não cabe nos 140 caracteres do twitter: Pequeno divertimento sobre literatura em cem lições também conhecido sob o título Substâncias Perigosas em que se explica por que meios os livros matam os seus leitores & onde se dão variados e mui instrutivos exemplos ao alcance do comum dos mortais. Seu autor, o português Pedro Eiras, é poeta, dramaturgo e professor de Literatura. Ainda não li todo o livro, publicado no Brasil pela editora Casa da Palavra. Estou degustando-o aos poucos, com medo de morrer depois da leitura, pois ali está escrito: “Alguns livros convidam a matar. Outros, ao suicídio. Outros ainda, mais sutis, limitam-se a relativizar a morte – meio caminho para morrer. Todos são substâncias perigosas, como os medicamentos. Só deveriam poder ser comprados com receita médica ou atestado de robustez intelectual.”

Sim, os livros são perigosos. Cuidado com eles. Melhor dizendo, os bons são perigosos. Aqueles que nos incomodam, nos dizem verdades que não queremos ler. Os ruins dizem as verdades que queremos que sejam verdades, mas que não passam de mentiras que nos confortam. “O universo conspira a nosso favor”, diz um desses escrevinhadores. Ora, sabemos que não é assim. Tudo conspira contra nós. Só os mais afortunados podem dizer isso. Os demais precisam se mexer muito para obter algo a seu favor e mesmo assim não alcançam os objetivos.

A boa literatura, não custa repetir, é a que nos deixa com mais dúvidas, não a que nos dá repostas. Mostra quem somos, não quem desejaríamos ser. Expõe nossa mediocridade, nossas feridas, nossas angústias, nossas decepções e nos fazem pensar. Literatura ruim não nos faz pensar porque não dá espaço para isso. As respostas vêm prontas, embaladas e bonitas, tudo ao gosto do freguês. Por isso vende mais. Quantidade não é sinônimo de qualidade. Nem tudo que é muito lido, ouvido ou assistido é bom. 

“TODO O LIVRO PROCURA A SUA VÍTIMA”, escreve Pedro Eiras, assim mesmo, em letras garrafais. No momento, Substâncias Perigosas me encontrou. Posso ser sua vítima. Mas vou adiar o máximo possível que ele provoque a minha morte ou que me incite ao suicídio. Enquanto isso, vou relatando os passos que me levarão à indesejada das gentes.