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O marceneiro das palavras




Trabalhei durante muitos anos com meu pai, auxiliando-o na sua marcenaria. Acompanhava a madeira bruta sendo aplainada, ficando quase lisa. Depois era lixada, cortada, pregada, parafusada, até receber alguns detalhes que transformava tudo em um móvel de cozinha ou de um quarto. Ajudava em algumas partes desse processo, mas era passar selador, lixar e dar a segunda mão do mesmo produto a minha principal função. Às vezes, envernizava. Era o processo final. Trabalho meticuloso e manual, do qual não sou muito bom, mas que me enchia de orgulho quando via pronto. Bastava a aprovação do cliente e elogio pelo trabalho bem feito, ou a crítica por algo que não ficou do seu agrado. Ou simplesmente o pagamento e o silêncio.

O processo da escrita não é diferente. A madeira é a palavra, que nas mãos do escritor é aplainada, lixada, cortada, pregada e parafusada, necessitando muitas vezes de dobradiças para articular suas partes. Depois de tudo quase pronto, a releitura é necessária para dar o brilho, que só vai se completar com uma terceira, quarta, quinta leitura, depois de cuidadosamente polir as palavras. Completado o trabalho, em que mãos e dedos martelaram o teclado, vem o orgulho da realização. Basta o elogio do leitor ou sua crítica. Ou o silêncio.

Comentários

Vincent Goulart disse…
E o que tem de gente que acha que escrever é barbada... Acham que ser escritor é jogar palavras no papel e pronto. QUE DEPRIMENTE. HAHA

Ótimo texto, psor! Não imaginava que chegou a trabalhar em marcenaria. Realmente, é um trabalho BEM meticuloso.
Cassionei Petry disse…
Sinceramente, às vezes penso em voltar a trabalhar nisso.

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