Feliz ano novo, mas não esqueça o velho
Um novo ano se
aproxima e, com ele, o desejo consciente ou inconsciente de mudança. A rigor, o
tempo é contínuo e por isso nada acontece de diferente na passagem do 31 de
dezembro para o 1º de janeiro. No entanto, levados que somos pela massa,
festejamos, planejamos, prometemos modificar o comportamento ou melhorar nossas
relações, desejamos tudo de bom ao parente, ao amigo ou até ao estranho que
estiver ao nosso lado. Não por acaso o primeiro dia do ano é marcado no
calendário como “Confraternização universal”.
Nessa passagem, até
o mais cético participa de certos rituais supersticiosos (estou falando por
mim, claro): usar roupas com determinadas cores simbolizando os desejos (uso
quase sempre roupa branca, com leves variações), comer lentilha e guardar as
sementes para melhorar a vida financeira (saudade da querida vizinha Dona
França que enchia minha carteira com as sementes) e não comer aves, para não
deixar a felicidade voar e fugir de nossas vistas, sem contar que elas ciscam
para trás, o que representa o atraso. Essa linguagem simbólica, cultivada por
diferentes pessoas que possuem crenças distintas, tem como objetivo atrair boas
energias ou bons fluidos, de acordo com a nomenclatura dos místicos. Se
funciona ou não, é crença de cada um. Acredito que não, mas faz parte da festa.
Diga-se que tudo isso não tem nada a ver com nenhuma força superior, como
muitos pensam, mas sim é um motivador interior. Se estamos dispostos a
construir um ano melhor, faremos com esses ritos de passagem ou sem eles.
Esse período é chamado
de réveillon, que em português significa "despertar". Temos aí
a metáfora do nascimento: um novo ano nasce e temos que nos renovar, sem
esquecer, no entanto, o que passou. O primeiro mês do ano é janeiro, cujo nome
é uma homenagem ao deus romano Jano, porteiro dos céus, cujas imagens
representativas o trazem com duas faces, uma olhando para frente, o futuro,
outra olhando para trás, o passado. Assim como Jano, não podemos esquecer o que
fizemos. Temos que avaliar tanto os acertos, para repeti-los – ou
melhor, aprimorá-los –, quanto os erros, para não voltar a cometê-los. Nietzsche,
o bigodudo filósofo alemão escreveu em seu livro Aurora – título que
remete à claridade no horizonte anunciando o nascer do sol –
que devemos ir além do caminho já percorrido, pois “outros pássaros voarão mais
longe!”.
Outras culturas
possuem calendários diferentes e, por conseguinte, celebram o Ano-Novo em datas
distintas. O calendário cristão, entretanto, é predominante e mobiliza o mundo
todo. Celebramos, então, e não esqueçamos de não apenas desejar um ano feliz
para o próximo, mas agir para que isso aconteça.
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