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Traçando livros de hoje: "Um best-seller do ateísmo"



Frequentemente me perguntam: “como você se tornou ateu?” Respondo que não me tornei. Eu nasci ateu, mas a família e a sociedade me fizeram ser cristão. Voltei (esse é o verbo correto) a ser ateu na época da universidade, mas não por causa dela. Foram as leituras de literatura e filosofia que me fizeram questionar as verdades que carregava comigo e me fizeram ver o que não via, mas já desconfiava. Ler toda a Bíblia também me pôs a semente da dúvida, pois aqueles textos ditos sagrados, repletos de contradições e fantasias, não poderiam ser considerados a verdade para guiar a vida de ninguém. Com algumas recaídas (na minha monografia de conclusão do curso de Letras agradeci a esse ser imaginário chamado “Deus”), assumi minha posição de ateu há mais de dez anos. Nesse tempo, tive contato com a obra de autores que serviram para reforçar meus argumentos. Entre eles, está Daniel C. Dennett.
O filósofo faz parte de um grupo de intelectuais chamado “4 cavaleiros do ateísmo”. Ele, Richard Dawkins, Sam Harris e Cristopher Hitchens, já falecido, escreveram best-sellers contestando a existência de divindades e criticando fortemente as religiões, além de participarem ativamente de debates públicos. São odiados pelos crentes do mundo todo, principalmente pelos criacionistas.
Quebrando o encanto – a religião como fenômeno natural (Globo Livros, tradução de Helena Londres) foi lançado no EUA em 2006 e no mesmo ano no Brasil. Como as idéias são criadas pela mente é o ponto central do livro. Porque deixamos a religião se tornar uma espécie de parasita que nos invade o cérebro? Para chegar a essa resposta, Dennett procura definir o termo religião, sua essência, as crenças (principalmente as monoteístas), tentando aprender o máximo possível sobre elas, para então “quebrar o encanto”: mostrar que as pessoas vivem uma ilusão que consola.
O estilo de Dennett no livro é, em alguns momentos, tedioso, devido a idas e voltas num mesmo argumento ou afirmação, como repetir várias vezes nos primeiros capítulos que devemos estudar cientificamente as religiões e que elas têm seu lado bom e lado ruim. Na verdade, o autor, me parece, ironiza a tática dos religiosos que repetem ad nauseam seus ensinamentos, fazendo com que uma verdade seja incutida na mente do fiel. Dennett vai além, pois seus “volteios” filosóficos e relativizações servem para, nos capítulos seguintes, fazer jus ao título do livro. Se ele não consegue quebrar o encanto, pelo menos consegue uma leve rachadura.
Por que ateus como Dennett se preocupam tanto com as religiões? Pegando o meu caso como exemplo, elas ocuparam boa porção de tempo da minha infância e adolescência. Na idade adulta, continuam invadindo minha privacidade, minha “timeline” nas redes sociais da internet (“quem acredita em Deus compartilha, quem não acredita só olhe”), a porta da minha casa (“tem um minuto para Jesus?”) ou até entram dentro dela (“você aí no sofá, levante-se e ponha um copo de água ao lado de sua televisão”), os lugares onde trabalho, as decisões governamentais, etc. Sinto-me, portanto, no direito de opinar sobre elas, afinal, se não as sigo, se digo que não acredito em um ser superior, sou considerado uma pessoa insensível, sem coração e culpada pelos males do mundo. Não posso ignorá-las porque as pessoas fazem questão que não as ignore. Então, se sou questionado, por que não posso questionar? Daniel C. Dennett, no papel de filósofo, faz isso, questionar.

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