Aos professores que fazem a diferença



O prédio de alvenaria da sala onde estudei na 1ª série ainda é o mesmo. Hoje, quando caminho pelos corredores do Colégio Luiz Dourado, agora como professor e vice-diretor, as lembranças de uma época mágica da minha vida vêm à tona.

Eu tinha de seis para sete anos e me sentava numa classe bem em frente ao quadro-negro. A professora se chamava Maria Geci. Naquele tempo, o mundo cabia inteiro nos traços que fazia nas linhas do caderno antes de se tornarem letras. O problema era que eu terminava as tarefas antes dos meus colegas e ficava importunando-os. E eu queria saber escrever! Eu tinha aprendido a ler sozinho, decodificando os sons das letras dos gibis dos meus tios, nas embalagens de balas que adoçavam o chimarrão dos meus avós e até nas legendas com os nomes dos candidatos na propaganda eleitoral. Faltava o outro passo.

A professora percebeu minha precocidade logo nos primeiros dias. Lembro bem do olhar dela, por cima dos óculos de grau, quando nos perguntou o que víamos numa ilustração que colou no quadro. Enquanto os colegas diziam que viam o cachorrinho, outros disseram que viam o menino e outros responderam que havia um adulto sentado numa poltrona com o jornal na mão. Eu disse que havia na imagem os dizeres: “Feliz Dia dos Pais”. No rosto da “profe”, vi uma mistura de espanto com um alívio maternal. 

Depois disso, para resolver o problema daquele aluno que, com a tarefa pronta, ia “cutucar” o colega do lado, rabiscar a borracha do vizinho ou fazer batuques na carteira, a professora, em vez de castigo, me deu um prêmio. Sem erguer a voz, ela pegava na minha mão e me guiava para fora do prédio principal, atravessando o pátio até as antigas salas do prédio de madeira onde ficava a pequena biblioteca escolar. A porta rangia devagar, revelando prateleiras que pareciam infinitas para a minha altura.

"Fica aqui, querido. Escolhe um livro e viaja", ela dizia, com aquele sorriso paciente de quem sabia exatamente o que estava fazendo.

Naquela sala silenciosa, com a luz da tarde perfurando as frestas da madeira, passei tardes inteiras escarafunchando livros ilustrados do Monteiro Lobato, enciclopédias e clássicos adaptados. A biblioteca era meu canto particular, o lugar onde minha travessura virava descoberta.

Hoje, quando vejo um aluno irrequieto no corredor, vejo o guri de quarenta anos atrás. Sorrio, me lembro da professora Maria Geci e de tantos outros mestres que transformam vidas. E quando passo pelo saguão onde os estudantes hoje correm, lembro que ali ficava aquela sala de madeira, que guardava os primeiros livros que formaram o professor que hoje sou.

Cassionei Niches Petry – professor e vice-diretor na rede pública.

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