Para ler Josué Guimarães

Gostei muito da abordagem dessa notícia dada pela Zero Hora, principalmente por sugerir a leitura do romance Dona Anja, de Josué Guimarães.

23 de julho de 2008 – Zero Hora
Carazinho
Vereador deve entregar moção a casa noturna
Danceteria recebeu felicitação por nove anos de atividade no município

A moção em homenagem aos nove anos de atividade da danceteria Garotas da Gogo, aprovada pela Câmara Municipal de Carazinho, deve ser entregue ao estabelecimento pelo autor da proposta, vereador Gilnei Jarré (PSDB), que está de posse do ofício. A informação foi dada por um colega de Jarré.A Casa costuma encaminhar documentos a homenageados por meio de motorista e pelo correio. Até a noite de ontem, o prostíbulo ainda não havia recebido as felicitações.Localizada a cinco quilômetros do centro de Carazinho, a casa vermelha que abriga as 20 mulheres que trabalham na danceteria se tornou centro das atenções no município. Nos corredores da Câmara, as reações vão do constrangimento ao apoio ao autor da moção. E-mails com cópias do documento se propagaram pelo país. O presidente do Legislativo, Luiz Leite (PDT), passou o dia atendendo telefonemas de todo o Brasil, a maioria com manifestações contrárias ao gesto de Jarré.- Se eu votasse (o presidente só vota em caso de desempate), teria sido contra, para preservar o Legislativo e manter o respeito que devemos à comunidade - disse Leite.Uma funcionária que pediu para não ter o nome divulgado informou que freqüenta o estabelecimento:- Sou a favor. Eu mesma vou lá para tomar umas cervejas.Utilizadas para homenagear pessoas que prestam serviços relevantes à comunidade, as moções são comuns na Câmara de Carazinho. Jarré, que até abril era o titular da Secretaria Municipal de Desenvolvimento, não compareceu ontem ao Legislativo e não quis dar entrevista. Outros vereadores que votaram a favor da moção passaram o dia em reunião, avaliando os prejuízos da atitude, e não atenderam a imprensa. Contrário à proposta, o secretário da Mesa, Cláudio Santos (PSDB), criticou o vereador que propôs a moção:- Há um mês o colega se pronunciou contra a abertura dos mercados no domingo porque provocaria desestruturação da família. Me surpreendi quando tive de ler, no plenário, a proposta de Jarré. Acho que ele pediu a moção sem ter noção da repercussão que teria.A confusão em torno da aprovação do documento não mudou a rotina da danceteria, que passou o dia recebendo clientes da região. Figura popular na cidade, a proprietária da danceteria tem seu nome num piquete de CTG e num bloco de Carnaval. Ela preferiu não se manifestar sobre o caso.Uma das dançarinas, que usa o pseudônimo de Daniele, saiu em defesa do vereador:- Foi legal da parte do vereador Jarré. Vereadores freqüentam a casa, mas só ele deu a cara a tapa. É só procurar na Bíblia a lição de Maria Madalena: quem nunca pecou que atire a primeira pedra. Temos um trabalho como outro qualquer, e é uma pena que a homenagem tenha se voltado contra o vereador.( marielise.ferreira@zerohora.com.br )
MARIELISE FERREIRA Carazinho

Vida pública e vida fácil
- Noite de 3 dezembro de 1977. O Congresso vota a Lei do Divórcio proposta pelo senador Nelson Carneiro, combatida pela Igreja. O país acompanha a votação como se ouvisse uma partida de futebol - com facções pró e contra tão renhidas quanto torcidas rivais. Em uma pequena cidade do interior gaúcho, próceres locais como o prefeito, o delegado e vereadores também se reúnem para ouvir a votação pelo rádio. A diferença é o local escolhido: o cabaré da cidade, do qual são freqüentadores assíduos.
> Com estilo picaresco e uma ironia devastadora que já se deixa perceber pela premissa inicial, é esse o enredo básico do romance Dona Anja, de Josué Guimarães (L&PM Pocket, 214 páginas, R$ 14). Também jornalista e político, Josué leva até o limite a ironia presente na hipocrisia da situação: figurões e respeitáveis pais de família discutindo, aboletados em um bordel, as conseqüências morais da aprovação do divórcio e da hipotética dissolução de costumes que viria em sua esteira.

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