sábado, março 30, 2013

Aforismo XXIX



Às vezes penso em parar de ser chato. Imaginem, porém, se todos os chatos tivessem a mesma ideia. Seria a vitória da mediocridade.

sexta-feira, março 29, 2013

Virgínia



Virgínia terminou o conto. As vozes ressurgiram aos poucos, agora que não havia mais o barulho da máquina de escrever. Quem eram eles que diziam coisas ininteligíveis, sussurros vindos não sabia de onde? Continua em: http://robertmarston.blogspot.com.br/

quarta-feira, março 27, 2013

No Traçando Livros de hoje



Traçando livros de hoje, minha coluna no jornal Gazeta do Sul, caderno Mix. http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/398930-o_legado_da_nossa_miseria/edicao:2013-03-27.html 



O legado da nossa miséria


No filme O olho do diabo, de Ingmar Bergman, um pastor de uma igreja revela a um visitante – o famoso Dom Juan que volta do inferno para uma missão imposta pelo Príncipe das Trevas –, que gostaria de ter um demônio no armário, para que lhe contasse tudo o que desejasse saber. Mais tarde, consegue prender um. Isso nos lembra que todos temos monstros guardados nos nossos armários. Muitas vezes, no entanto, eles fogem, pois não podemos escondê-los por muito tempo, tampouco contam coisas que desejamos saber.
Com essa premissa, Flávio Torres escreve seu primeiro livro de contos, Monstros fora do armário (Não Editora, 93 páginas). Aqui eles não estão escondidos, bem pelo contrário. São as questões humanas que fazem questão de se mostrar e revelam nossos problemas mais íntimos.
A obra é dividida em três partes, “Concepção”, “Gestação” e “Legado”. A primeira traz apenas um conto, uma espécie de prólogo, trazendo a história de uma mulher que se encontra com homens em motéis sem saber o nome deles, apenas com o desejo de ficar grávida. Vivendo sozinha, visita o túmulo da família (pai, mãe e irmã) no cemitério e lhes conta que logo ela terá a companhia de uma filha. As marcas no corpo e os vômitos, porém, além do envelopes de diferentes médicos que esperam ser abertos, revelam que seu corpo está gerando algo bem diferente.
“Gestação”, por sua vez, é composta por nove contos, representando, logicamente, os nove meses de gravidez. Eles não recebem títulos, assim como as personagens são anônimas, geralmente chamadas apenas por “guri”. Em “Primeiro”, um menino de rua encontra no chão um papel com nome e endereço de uma prostituta. Vai à procura dela, desejando que fosse sua mãe, e a encontra em um lugar feio e sujo. Ela o acolhe: “há muito tempo não tenho um filho”. O menino pensa: “mesmo estranha e diferente daquela com que sonhava, merecia a palavra mãe”.
O conto “Segundo” traz a figura do pai, no caso um pai bêbado e violento que obriga o filho a fazer coisas indesejáveis, como fazer sexo com uma ovelha na frente dos adultos igualmente alcoolizados. Gesta-se, neste momento, a cultura da barbárie na mente de um inocente guri. Já em “Quarto”, o pai vegetariano, aparentemente compreensivo, faz para seu filho um bife, cuja origem é melhor não mencionar. “O filho merecia a melhor carne da cidade.”
O conjunto de contos se encerra com “Legado”, que, de certa forma, refaz a famosa frase do Brás Cubas, personagem de Machado de Assis, e resume a temática das histórias. Em vez de não termos filhos, os temos para lhes deixar como legado a miséria humana. Transmitimos o vírus da incompreensão, da fraqueza e da dor aos guris que são jogados nesse mundo repleto de monstros. É um bom livro, mas machuca.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco). Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém um blog: cassionei.blogspot.com.

sábado, março 16, 2013

Entrevista ao "Tons e Letras" da FM Cultura de POA


Às 11h deste sábado, vai ao ar a entrevista que concedi ao programa "Tons e Letras", da FM Cultura de Porto Alegre, apresentado pelo escritor Luís Dill. Para ouvir: http://www.via-rs.net/multimidia/fmcultura/montar_radio.php

sábado, março 09, 2013

Quatro notas que não são musicais

Com romance concluído e o aval de três professores doutores de literatura (sendo um deles Sérgio Schaefer, autor do monumental Rosas do Brasil) para publicação, estou refletindo sobre os próximos passos. Lógico que eu tenho as portas abertas na minha editora atual. Por outro lado, sinto a necessidade de chegar a uma casa um pouco maior, que pelo menos distribua a obra nas livrarias e que destine exemplares a críticos e resenhistas. Há uma escritora conhecida que talvez me indique para uma grande editora. Não vou alimentar mais uma falsa esperança. Pés no chão.
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Quinta-feira fui entrevistado pelo Luís Dill para o programa "Tons e Letras" da FM Cultura de Porto Alegre. A entrevista deve ir ao ar no dia 16. Mais um que disse ter gostado muito do conto "Ônibus" do meu primeiro livro.
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Sei que ninguém está sentindo falta, porém espero postar mais regularmente por aqui. Reparem que descrevo o blog apenas como de literatura. No entanto, não vou deixar de lado outros temas, principalmente o ateísmo e a filosofia.
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Ainda sobre o romance, os leitores do blog já leram alguns trechos aqui sem o saber.




quarta-feira, março 06, 2013

No Traçando Livros de hoje


Minha coluna no Traçando livros de hoje, jornal Gazeta do Sul, traz um texto que já havia publicado por aqui. Segue mais uma vez:
http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/395657-por_que_lemos_pouco/edicao:2011-10-04.html



Cena de Persona, de Ingmar Bergman
 

Por que lemos pouco?


Discutir a questão da leitura é perda de tempo, apesar de necessário. Todos pensam que só pelo fato de serem leitores já podem sair por aí opinando. Claro que todos temos esse direito. Porém, não significa que possuímos os conhecimentos necessários para tanto. Ninguém o tem, nem mesmo este escriba.
“Como assim?”, pergunta Seu Cláudio, advogado que neste momento deve estar lendo esta crônica no seu escritório repleto de livros; ou Dona Maria, professora aposentada que trabalhou a vida toda como professora de Língua Portuguesa e conhece muito bem o assunto. Explico. 
Cada indivíduo tem uma experiência sobre o mundo dos livros distinta. O editor e o escritor profissional analisam os números de livros vendidos e afirma que o brasileiro lê muito pouco. O professor decepciona-se com seus alunos que não retiram livros na biblioteca e, por conseguinte, afirma que não gostam de ler. O jornalista pesquisa sobre o assunto e, a partir das estatísticas de vendas e depoimentos de especialistas, diz que o preço do livro e a escola são os responsáveis por lermos tão pouco. O leitor comum então pergunta: “mas como o __________ (preencha o espaço com o nome de algum escritor mais vendido) é tão rico?”, “como explicar que o Padre ___________ (complete com o padre popstar de sua preferência) vende milhões de exemplares?” e “como tem tanta gente na lista de espera da biblioteca municipal para retirar o único exemplar disponível de __________ (preencha com o best-seller do momento)?”
Sim, meus caros. Há leitores e há leitores. Há livros e há livros. Há escritores e há escritores. Ora, não podemos dizer que o brasileiro não lê. Mas podemos dizer que ele não lê a literatura propriamente dita, que consiste em livros em que há um trabalho artístico com as palavras e uma reflexão mais elaborada, sendo por isso considerados chatos pelo leitor comum, aquele que busca apenas entretenimento ou ensinamentos empacotados. Também não são os números de vendas que vão mensurar isso, até porque um exemplar de um livro pode ter milhares de leitores que o retiram de uma biblioteca, sem contar em outros milhares que são compartilhados pela internet. Ou seja, não há tão poucos leitores como se pensa.
O preço também não pode ser uma justificativa para a falta de leitura. Ele apenas impede a possibilidade de termos uma biblioteca particular, no que somos salvos pelos sebos. Além disso, o livro tem o mesmo valor do que um CD. É um fator, portanto, que interessa só a quem lucra com isso.
O que me incomoda, porém, é colocar a escola como culpada pelo suposto fracasso da leitura no país (ok, admito que há esse fracasso, afinal vejo poucas pessoas lendo em um ônibus ou mencionando livros nas redes sociais). Dizem que o professor, ao obrigar o aluno a ler, está afastando-o dos livros, pior ainda quando se trata daquelas “coisas chatas” do século XVIII e XIX que são solicitadas no vestibular. 
A escola, em muitos lugares, é onde há a única biblioteca disponível para a população. Só aí poderíamos isentá-la de culpa. Além disso, a criança aprende a ter prazer com a leitura com as professoras do currículo e contadoras de histórias que visitam os educandários. No entanto, quando entram na adolescência, os alunos passam a ter outros interesses que o deixam distante da leitura. O professor pode até dar a liberdade para retirarem o que quiserem na biblioteca escolar, mas eles não a aproveitam (preciso dizer que há exceções?). Então, o mestre se vê obrigado a obrigar a leitura. Como toda a proposta vinda do professor é de antemão rechaçada pelo aluno, ele vai achar chato e não vai querer ler.
Qual a função do professor de literatura, afinal? Acredito que ele deve ensinar que muitos livros, mesmo sendo “chatos”, fazem parte de um período histórico e cultural e são importantes. A escola não deve esconder o que a humanidade produziu só porque não teria mais nada a dizer ao jovem de hoje. É um erro pensar dessa forma.  Se isto afasta o indivíduo, é porque ele não tem nenhuma tendência para gostar de ler.
 A leitura é uma aptidão individual, que se desenvolve em quem tem acesso a uma variedade de obras e a um ambiente cultural dentro da própria casa. Se o brasileiro não lê, não é porque a leitura é chata, é porque a sociedade, os amigos e inclusive formadores de opinião acham a Literatura (com L maiúsculo) maçante. Isso só contribui para aumentar nossa pobreza intelectual.

Cassionei Niches Petry é professor e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco) e recentemente concluiu o Mestrado em Letras pela Unisc. Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém um blog: cassionei.blogspot.com.