sexta-feira, junho 28, 2013

Rayuela, 50 anos



Rayuela, de Julio Cortázar, romance fundamental na literatura latino-americana, completa 50 aninhos, mas com corpinho de 20. Estou escrevendo um texto sobre o livro, por isso o estou relendo com a atenção que merece. Fica por hoje somente a lembrança, para não deixar a data em branco.

terça-feira, junho 25, 2013

Não vou por aí




Jovens e nem tão jovens assim, pacifistas e baderneiros, partidários e apartidários, pobres e ricos, professores e alunos, patrões e empregados, homens e mulheres. Impossível enumerar e descrever todos os que participaram das manifestações que tomaram as ruas do país, num grito uníssono de mudança. Uma massa que seguiu as convocações das redes sociais, num primeiro momento pela redução das passagens de ônibus e, depois, por qualquer outra coisa que preencha uma lacuna após dois pontos. Confesso que não me vi representado nesses protestos e explico por que, apesar de saber que posso ser chamado de reacionário, alienado e ignorante.

Desconfio sempre quando uma multidão vai para um mesmo caminho. Seguir o bando pode dar proteção para o pássaro, mas chega uma hora em que é necessário seguir seu próprio voo. Seguir o rebanho leva o gado aonde há comida, mas somente até ali. Acompanhar a massa é confortável, mas sempre busco o desconforto. Milhares de jovens, alegando estar saindo da frente do computador para “fazer alguma coisa”, estão na verdade deixando de fazer a sua parte na história para apenas fazer parte dela, como coadjuvante. O protagonista é uma massa sem cara, sem cor, representando a pluralidade do nosso povo, o que é positivo e elogiável, porém ao mesmo tempo não representa ninguém, pois há conflitos de interesses. Se boa parte luta pelo passe livre, outra parte pode lutar para não ter de pagar o custo dessa “cortesia”, pois a passagem de ônibus sempre vai ser paga por alguém. 

Prova de que essa massa não tem cara é que ela é simbolizada por uma máscara, relacionada de modo geral a um grupo que ironicamente se chama “Anonymous”. Quem a usa, tanto nas passeatas quanto em seus avatares nas redes sociais, o faz com orgulho. Poucos conhecem, no entanto, o significado dela. Oriunda da história em quadrinhos V de vingança, de Alan Moore e David Lloyd, depois adaptada para o cinema, a máscara é usada por um personagem que, sozinho, luta contra um governo totalitário em uma Londres ficcional pós-guerra nuclear, utilizando-se, para alcançar seus objetivos – um deles a vingança do título –, de meios violentos como explodir bombas em patrimônios públicos e matar inocentes. Além disso, ela é inspirada no rosto de Guy Fawkes, soldado e conspirador inglês que pretendia assassinar o rei Jaime I da Inglaterra e explodir o Parlamento do Reino Unido.

Ora, dizem que as manifestações são pacíficas, mas milhares de jovens buscam como modelo o rosto de dois terroristas, um no plano da ficção, o outro no plano histórico. Isso não pode representar o rosto do povo brasileiro e nenhum personagem violento pode me representar.

Quando ouço os manifestantes gritando para que o povo vá para a rua, lembro-me dos versos do poeta português José Régio, “Só vou por onde/Me levam meus próprios passos/(...)/Por que me repetis: ‘vem por aqui!’?/(...) Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,/Ninguém me peça definições!/Ninguém me diga: ‘vem por aqui’!” Prefiro ser contraditório do meu jeito e fazer meu trabalho de formiguinha para mudar as coisas a ser contraditório dentro de um rebanho que somente faz tudo o que seu mestre mandar.

Cassionei Niches Petry – professor e escritor

segunda-feira, junho 24, 2013

Resenha minha em livro didático

"Todos os textos - 7º ano", de William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães, da Atual Editora é um livro didático focado na leitura e produção textual. Traz no capítulo dedicado à resenha crítica um texto que escrevi sobre o romance "As viagens de Gulliver"que pode ser lido aqui no blog e na coluna Traçando Livros do jornal Gazeta do Sul. São seis páginas com o texto e as questões (doze ao todo) que abordam as características da crítica, sendo que a minha serve de modelo.
 

quinta-feira, junho 20, 2013

quarta-feira, junho 19, 2013

Traçando Livros mais uma vez sobre Bolaño


Minha colaboração no jornal Gazeta do Sul, a coluna Traçando Livros, traz texto sobre mais uma obra do Roberto Bolaño: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/411588-do_bau_bolaniano/edicao:2013-06-19.html



Do baú bolañiano

Mais uma vez trago Roberto Bolaño para este espaço. Talvez por identificar-me com a escrita do escritor chileno, mas também porque sempre procuro sugerir aos leitores do Traçando Livros o que há de melhor na literatura. Livro póstumo, As agruras do verdadeiro tira (Companhia das Letras, 315 páginas, tradução de Eduardo Brandão) é composto por capítulos encontrados em pastas, arquivos de computador, folhas datilografadas e cadernos deixados pelo autor com algumas indicações de como poderia ser publicado. Ao contrário de Franz Kafka, que mandou o amigo Max Brod queimar sua obra inédita, Bolaño, sabendo que estava muito doente e esperando pela doação de um fígado, fez questão de deixar um legado, principalmente pensando no futuro financeiro dos dois filhos. Depois de dez anos de sua morte, é cada vez mais cultuado e transformou-se num mito literário.
A ordenação do material que conformou o romance (na verdade um projeto de romance, segundo Ignácio Echevarría, especialista em Bolaño) lembra um pouco o que acontece, no plano da ficção, com as anotações do personagem Morelli, em O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, organizadas pelos membros do Clube da Serpente, que corresponderiam aos chamados “Capítulos prescindíveis”da obra. A organização de As agruras do verdadeiro tira ficou a cargo do crítico literário Juan Antonio Masoliver Ródenas, conforme relatado no prólogo. Se o romance de Cortázar necessita de um leitor ativo, que construa a história a partir das pedras jogadas nas casas desenhadas no chão, a narrativa de Bolaño requer um leitor policial (prefiro essa expressão, pois “tira” lembra os filmes americanos dublados que passam na TV), que siga as pistas deixadas durante a história. Como afirmou o próprio autor, citado no prólogo: “O tira é o leitor, que tenta em vão ordenar este romance endemoniado.”
O livro é divido em cinco partes: na primeira, Óscar Almafitano, personagem que aparece no aclamado romance 2666, já comentado por aqui, dá aulas de Literatura em Barcelona, onde vive com sua filha Rosa. Acaba descobrindo sua homossexualidade aos 50 anos, quando se envolve com um aluno, Padilla, um poeta. Por este motivo, é expulso da Universidade e vai lecionar em Santa Teresa, no México. Na segunda parte, Almafitano se relaciona com um jovem falsificador de quadros e troca correspondências com seu ex-amante, que diz estar escrevendo um romance chamado O deus dos homossexuais. A terceira parte é dedicada a Rosa, que reflete sobre o namorado que deixou na Espanha, lembra sua mãe morta e se depara com a nova condição sexual do pai.
Na quarta parte, somos apresentados ao escritor francês J. M. G. Arcimboldi – de cuja obra Almafitano é tradutor –, através de anotações soltas contendo resumos dos seus romances e menções a sua vida pessoal, ao estilo de outra obra de Bolaño, A literatura nazi na América. A derradeira seção menciona os assassinatos de mulheres em Santa Teresa, no México, um dos temas de 2666. São narrados também episódios da vida de policiais, incumbidos pelo reitor da universidade de Santa Teresa a investigar sobre a vida de Almafitano. Um deles, Pacho Monje, é de uma família oriunda de uma geração de mulheres chamadas de María Expósito, cada uma delas com o destino traçado: ser abusada sexualmente e gerar uma menina que receberá o mesmo nome e sofrerá do mesmo fado. Seria uma crítica ao realismo mágico de García Márquez?
Vários textos e ideias que formam As agruras do verdadeiro tira foram utilizados em outras obras do autor, como no já citado 2666, bem como em Os detetives selvagens (a classificação dos poetas em bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bâmbis), Chamadas telefônicas (um dos contos dessa coletânea aparece na íntegra em um dos capítulos) e Estrela distante (onde também é descrita a seita dos escritores bárbaros). Prova de que o projeto de romance acabou abortado e o material foi reutilizado. Nada que prejudique, no entanto, a publicação, bem pelo contrário, pois serve como um jogo de referências que atrai os admiradores de Bolaño.
Havia postado há algumas semanas no meu blog que não recomendava a leitura de As agruras do verdadeiro tira. Continuo com a mesma opinião, no entanto direcionada àquele que não é um leitor ativo cortazariano, ou melhor, um leitor detetive bolañiano. Só o verdadeiro tira tem condições de apreciar a obra.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

domingo, junho 16, 2013

Bloomsday



Meu exemplar de Ulisses, de James Joyce, tem 550 páginas, mas com letra bem miudinha. Comprei-o em 1998, num sebo da minha cidade. À época, estava tentando me tornar um escritor, o que tento até hoje, sem muito resultado, por isso lia enlouquecidamente. A edição em capa dura, vendida em bancas de revistas, é da coleção “Mestres da literatura contemporânea”, parceria das editoras Record e Altaya. A tradução é a clássica, realizada pelo Antônio Houaiss (sim, o mesmo que dá nome ao dicionário que veio para desbancar o Aurélio). Minha biblioteca ainda estava engatinhando (hoje posso dizer que está entrando na fase adulta) e com o novo exemplar ganhou o direito de pelo menos andar dois passinhos sem ajuda.

Esse é aquele romance que muitos dizem ter lido sem nunca tê-lo realmente. Alguns por esnobismo intelectual, outros por ignorância, caso do escritor mais vendido do mundo, o Paulo Coelho, pois afirmou que Ulisses não diz nada e que seu conteúdo poderia ser resumido nos 140 caracteres do Twitter. Na verdade qualquer obra poderia, mas apenas nas suas linhas gerais, não no que há nas entrelinhas, no não dito, na parte escondida do iceberg. A cada releitura que se faz de clássicos como o de Joyce, novas possibilidades de leitura se abrem. Seu significado nunca se esgota. 

Quando o li pela primeira vez, confesso que, mesmo gostando da história, não a captei por completo, até porque não havia lido (pelo menos na sua versão integral) a Odisseia, de Homero, cujo personagem principal, Odisseus, nome grego, recebe o nome romano Ulisses. A partir daí, na segunda leitura, guiado por textos da extinta revista Entrelivros, que explicavam as referências dos capítulos do romance com episódios da epopeia de Homero, uma nova forma de ler a obra-prima joyceana me foi apresentada, o que a tornou mais bela e instigante do que da primeira vez.

Hoje, os admiradores da obra celebram o Bloomsday, pois é o dia em que acontece a odisseia de Leopold Bloom pelas ruas de Dublin, na Irlanda, mais precisamente em 16 de junho de 1904. Na vida pessoal de James Joyce, foi a data em que ele e Nora Barnacle, que viria a se tornar sua esposa, se conheceram, segundo alguns, no sentido bíblico do termo.

O ganhador do Nobel de Literatura (prêmio que Joyce não recebeu), William Faulkner, disse que “o leitor deve abordar o Ulisses de Joyce como um pregador batista iletrado aborda o Velho Testamento: com fé”. Faço a minha parte hoje, lendo alguns versículos dessa bíblia da literatura moderna. E para quem não o considera um grande livro, rogo: “Perdoai, Joyce, eles não sabem o que falam.”