Avançar para o conteúdo principal

Resenha sobre "O último minuto", de Marcelo Backes

Texto que escrevi sobre a obra de Marcelo Backes, publicado originalmente no site Posfácio. Um trecho foi destacado no site do autor:



A literatura entra em campo

Logo ao ler as primeiras páginas de O último minuto (Companhia das Letras, 221 páginas), de Marcelo Backes, cheguei a uma conclusão: não fiquei impressionado. Essa afirmação não significa que não gostei do romance, bem pelo contrário. Acontece que já conhecia a obra do autor, tanto na tradução quanto na crítica, sem falar nos seus próprios livros, sendo o meu preferido Estilhaços: minigâncias, digressões e batocaços, publicado em 2006, livro de aforismos e epigramas cortantes, como esse: “Minha arte não corteja, ela estupra.” Por conseguinte, já sabia de antemão que estaria diante de um grande livro. E não errei.
Marcelo Backes tornou-se conhecido do público gaúcho pelas suas críticas literárias na imprensa e em publicações especializadas. De opinião forte e muitas vezes negativa com relação a trabalhos de escritores de renome, escreveu uma espécie de defesa de sua forma de avaliar os livros, o ensaio “Viva a crítica que mete o pau!”, publicado na extinta revista Blau e depois como posfácio do seu primeiro livro, A arte do combate, de 2003, em que afirma: “Difícil é criticar, é ser severo, não seguindo a perniciosa sugestão que ensina a viver em paz com o mundo e prega o lema de ser gentil com o próximo.”
O autor também se destacou no meio acadêmico, sendo doutor em Germanística e Romanística pela Universidade de Freiburg, na Alemanha. Foi como tradutor, porém, que seu trabalho se consolidou. Kafka, Goethe, Nietzsche e tantos outros autores de língua alemã foram vertidos para o português por ele, sempre em edições enriquecidas com introduções e notas de rodapé. Organizou também a coleção de clássicos “Fanfarrões, libertinas & outros heróis”.
Estreou no romance em 2007, com maisquemória, um misto de relatos de viagem e memórias de um professor que passa seis anos viajando e estudando doutorado na Alemanha. Ficção ou verdade? “Nem [vou pedir] perdão porque o ‘eu’ aqui e acolá enfuna as velas por demais ao contar suas aventuras de baixo.” O subtítulo do livro é elucidativo, se repararem na parte que está em destaque: “caderno europeu de viagens”. A segunda narrativa longa, Três traidores e uns outros, de 2010, também tem muito de autobiográfico. Eu tinha sido um tradutor famoso, escritor frustrado ainda por cima, chamado até de filósofo, e metido a ensaísta.
Antes de partir para a obra tema deste artigo, aponto um problema no que estou escrevendo: ele vai de encontro ao que expôs Backes no ensaio citado anteriormente. Mas, ora, não sou crítico literário, sou um simples leitor que escreve sobre os livros que lê. Então, vamos adiante.
Em O último minuto, um ex-treinador de futebol, chamado João, o Vermelho, conta dentro da prisão a sua história a um seminarista. Ficamos sabendo que cometeu um crime grave, que será revelado apenas no final. A conversa com o futuro padre, narrador que tão-somente transcreve o relato, é uma espécie de catarse para o preso, um descendente de pai russo e mãe alemã, que foi criado em uma pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul. “Eu ouvia tudo e ficava pensando quando ele contaria sua versão dos fatos que de fato interessavam, como fora mesmo que todo aquele sangue jorrara, enquanto ele se perdia em prolegômenos e minutos de silêncio, alegando que eu precisava ouvir pra entender, tentar entender, entender aquilo que ele mesmo não entendia.”
Nessas digressões, relata sua atrapalhada fase de guri do interior gaúcho vivendo na capital para estudar Educação Física na universidade, o relacionamento conturbado com o filho, a experiência como treinador na Suécia e depois no Rio, a traição da sua mulher com o centroavante do time do qual é técnico e, ainda sem revelar a tragédia, salta para a fuga que empreendeu por diversos lugares do Brasil durante mais de nove anos.
O futebol (tema também abordado em um capítulo de Estilhaços) serve como metáfora da vida, numa comparação já esgotada, como o próprio João chega a sugerir ao lembrar as frases futebolísticas do ex-presidente Lula. Porém, o jogo entra aqui porque é o que faz despertar as mais diversas emoções no homem (“o futebol era o único lugar em que ao mais macho dos homens era permitido se mostrar histérico”), deixando-o exposto, caso do protagonista, que revela tudo ao missionário.
O último minuto, além da alusão aos momentos finais de uma partida, refere-se também às revelações importantes sobre o enredo que temos apenas no instante derradeiro, depois de muita cera do protagonista.  A história chega ao seu fim, no entanto fica ecoando na mente do leitor por algum tempo, como se fora a prorrogação de um jogo. Um jogaço, senhoras e senhores. Um jogaço.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco).




Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …