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Traçando Livros mais uma vez sobre Bolaño


Minha colaboração no jornal Gazeta do Sul, a coluna Traçando Livros, traz texto sobre mais uma obra do Roberto Bolaño: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/411588-do_bau_bolaniano/edicao:2013-06-19.html



Do baú bolañiano

Mais uma vez trago Roberto Bolaño para este espaço. Talvez por identificar-me com a escrita do escritor chileno, mas também porque sempre procuro sugerir aos leitores do Traçando Livros o que há de melhor na literatura. Livro póstumo, As agruras do verdadeiro tira (Companhia das Letras, 315 páginas, tradução de Eduardo Brandão) é composto por capítulos encontrados em pastas, arquivos de computador, folhas datilografadas e cadernos deixados pelo autor com algumas indicações de como poderia ser publicado. Ao contrário de Franz Kafka, que mandou o amigo Max Brod queimar sua obra inédita, Bolaño, sabendo que estava muito doente e esperando pela doação de um fígado, fez questão de deixar um legado, principalmente pensando no futuro financeiro dos dois filhos. Depois de dez anos de sua morte, é cada vez mais cultuado e transformou-se num mito literário.
A ordenação do material que conformou o romance (na verdade um projeto de romance, segundo Ignácio Echevarría, especialista em Bolaño) lembra um pouco o que acontece, no plano da ficção, com as anotações do personagem Morelli, em O jogo da amarelinha, de Julio Cortázar, organizadas pelos membros do Clube da Serpente, que corresponderiam aos chamados “Capítulos prescindíveis”da obra. A organização de As agruras do verdadeiro tira ficou a cargo do crítico literário Juan Antonio Masoliver Ródenas, conforme relatado no prólogo. Se o romance de Cortázar necessita de um leitor ativo, que construa a história a partir das pedras jogadas nas casas desenhadas no chão, a narrativa de Bolaño requer um leitor policial (prefiro essa expressão, pois “tira” lembra os filmes americanos dublados que passam na TV), que siga as pistas deixadas durante a história. Como afirmou o próprio autor, citado no prólogo: “O tira é o leitor, que tenta em vão ordenar este romance endemoniado.”
O livro é divido em cinco partes: na primeira, Óscar Almafitano, personagem que aparece no aclamado romance 2666, já comentado por aqui, dá aulas de Literatura em Barcelona, onde vive com sua filha Rosa. Acaba descobrindo sua homossexualidade aos 50 anos, quando se envolve com um aluno, Padilla, um poeta. Por este motivo, é expulso da Universidade e vai lecionar em Santa Teresa, no México. Na segunda parte, Almafitano se relaciona com um jovem falsificador de quadros e troca correspondências com seu ex-amante, que diz estar escrevendo um romance chamado O deus dos homossexuais. A terceira parte é dedicada a Rosa, que reflete sobre o namorado que deixou na Espanha, lembra sua mãe morta e se depara com a nova condição sexual do pai.
Na quarta parte, somos apresentados ao escritor francês J. M. G. Arcimboldi – de cuja obra Almafitano é tradutor –, através de anotações soltas contendo resumos dos seus romances e menções a sua vida pessoal, ao estilo de outra obra de Bolaño, A literatura nazi na América. A derradeira seção menciona os assassinatos de mulheres em Santa Teresa, no México, um dos temas de 2666. São narrados também episódios da vida de policiais, incumbidos pelo reitor da universidade de Santa Teresa a investigar sobre a vida de Almafitano. Um deles, Pacho Monje, é de uma família oriunda de uma geração de mulheres chamadas de María Expósito, cada uma delas com o destino traçado: ser abusada sexualmente e gerar uma menina que receberá o mesmo nome e sofrerá do mesmo fado. Seria uma crítica ao realismo mágico de García Márquez?
Vários textos e ideias que formam As agruras do verdadeiro tira foram utilizados em outras obras do autor, como no já citado 2666, bem como em Os detetives selvagens (a classificação dos poetas em bichonas, bichas, bicharocas, bichas-loucas, bonecas, borboletas, ninfos e bâmbis), Chamadas telefônicas (um dos contos dessa coletânea aparece na íntegra em um dos capítulos) e Estrela distante (onde também é descrita a seita dos escritores bárbaros). Prova de que o projeto de romance acabou abortado e o material foi reutilizado. Nada que prejudique, no entanto, a publicação, bem pelo contrário, pois serve como um jogo de referências que atrai os admiradores de Bolaño.
Havia postado há algumas semanas no meu blog que não recomendava a leitura de As agruras do verdadeiro tira. Continuo com a mesma opinião, no entanto direcionada àquele que não é um leitor ativo cortazariano, ou melhor, um leitor detetive bolañiano. Só o verdadeiro tira tem condições de apreciar a obra.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

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