sábado, novembro 30, 2013

Como não se deve iniciar um romance


Início do romance: 18 de maio de 2013

Yo Yo Ma tocando a “Suíte para violoncelo” de Bach. Era o toque do celular dela. Diz-me que toque tens no celular, que te direi quem és. Ledo engano. Depois que ela desligou o telefone, perguntei se gostava de Bach.
Quem?
O compositor dessa música.
Ah, não sabia de quem era. Só achei bonitinha. Até vou trocar, pois o som é tão baixo que às vezes não ouço. Minha mãe fica furiosa se não atendo.
Péssima forma de se aproximar de alguém. Pergunta errada, na hora errada e no lugar errado. Estava chegando minha vez de ser atendido e resolvi ceder meu lugar para ela.
Cavalheiro você, hein?
Que é isso, é só uma gentileza, já que você tem menos compra.
Obrigada, então.
Sorte a minha não haver outra mulher atrás, caso contrário teria que fazer o mesmo para não dar na vista que estava interessado era na moça do celular, mesmo ela não sabendo quem era Bach.
Passou todas as compras, pagou e foi embora, sem olhar para mim. Tentei ser rápido, mas a operadora do caixa não tinha o mesmo objetivo. Jamais a veria novamente, pensei.
Quando cheguei ao estacionamento, a vi dentro de um carro bem próximo ao meu. Estava com dificuldades para manobrar. Com gestos, orientei-a. Me agradeceu mais uma vez e eu não perdi a oportunidade.
Eu poderia lhe mostrar outras obras de Bach, o que acha?
Quem sabe?
Anotei seu número e pedi que não trocasse o toque.
Lógico que não vou. Essa música pode se tornar importante.

Dia 9 de julho de 2013. O romance não vai continuar.

sexta-feira, novembro 29, 2013

Comentário de um leitor sobre meu livro

O meu primeiro livro "Arranhões e outras feridas" está tendo a sorte de encontrar poucos mas ótimos leitores. Seguem as impressões de leitura de Felipe Augusto Kopp:

"Olá, Cassionei. Comprei seu livro "Arranhões e outras feridas" na época do lançamento e nunca dei um retorno. Eu li ele logo na primeira semana, mas queria reler antes de comentar alguma coisa. Fui deixando, outros livros furaram a fila de leituras (tu, como leitor, sabe bem como é isso) e acabei não falando nada. Mas esta semana voltei a ele e achei que poderia dar um feedback. O que eu vou falar é só uma percepção pessoal, de leitor e não de crítico, e não tem muito valor. Vamos lá então.

No geral, achei o livro muito interessante. Alguns contos são ótimos, ótimos mesmos, como o "Vozes" (que eu mais gostei), "Feliz aniversário", "Lá em cima" e "Ônibus". Este último, como já vi outros comentarem, se destaca dos demais, é digno de uma coletânea. Só acho que ele deveria estar mais para o final no volume e não ser o segundo. Ele se torna quase como uma chave para os demais contos. Nele, o narrador/escritor imagina coisa perversas e ruins por trás das aparências de todos os personagens, exceto para si mesmo; enquanto todos têm algo terrível a esconder, ele é quase um romântico que vive em uma perspectiva idílica de si mesmo. O problema é que, para mim, o conto colocou em cheque a verossimilhança das outras histórias: ao invés dos arranhões e feridas dos contos serem dos personagens, eles não seriam só dos narradores? os contos desvelam o lado mais sofrido das personagens ou esse lado sofrido só existe porque os narradores querem ver isso? Assim, em um conto como "Flagrante", fiquei me perguntando se aquela sujeira toda, que ocorreria por detrás das aparências, não é só coisa da cabeça do narrador. Logo, não consegui sentir o asco pela situação como, acredito, fosse a intenção.

Percebi que tu gosta de abusar da técnica que deixa o final em suspenso, em aberto, propício para o leitor completar. Às vezes o resultado é muito bom, como no "Feliz aniversário", em outras achei um pouco forçado, como n"O casarão", que acabou ficando com ares de clichê de suspense. Já no conto "Meu irmão", essa abertura me deixou muito intrigado, porque não sei dizer se gostei ou se odiei; li, reli, treli o conto e montei um quebra-cabeça, mas não faço ideia se ele faz algum sentido. Então, senti um misto de admiração e frustração.

Achei a ideia do "Caixa de Pandora" boa, a la "Fahrenheit 451", só que com o video game ao invés do livro. Só o modo como a história foi narrada não casou muito bem, na minha opinião. O interlocutor do narrador é alguém que desconhece o passado, logo, desconhece a linguagem do passado. A boa ficção científica é aquela que narra um futuro (ou narra o passado por uma perspectiva do futuro) com uma outra linguagem. O que faz do "Brave new world" um livro tão bom é o fato dele contar a realidade como algo nova, como se a gente nunca tivesse visto aquilo. Penso que seu conto deveria causar esta impressão, a de alguém que fala do passado (nosso presente) como algo inédito, não por conceitos e imagens já conhecidas.

Bom, no mais é isso. Assim que puder, quero ler o seu romance."

quarta-feira, novembro 20, 2013

No Traçando Livros de hoje

Minha coluna na Gazeta do Sul traz hoje um texto reescrito, já conhecido por alguns leitores do blog. Como muitos aqui não o leram e muitos leitores meus no jornal não o são no blog, vale a pena recuperar algumas crônicas como essa: http://www.grupogaz.com.br/gazetadosul/noticia/430614-um_pedaco_de_mim/edicao:2013-11-20.html



Um pedaço de mim

Há alguns anos, havia uma parte de mim que estava distante. Fui visitá-la. Tinha saudades dela. Estava desorganizada, suja. Era triste vê-la naquele estado. Havia muito pó, teias de aranha e pequenos insetos circulavam sobre ela. Sabíamos, no entanto, que era por pouco tempo essa separação.
Ao procurá-la, ela me deu o que precisava. Continuava me satisfazendo, me proporcionando prazer e, mesmo sabendo que a abandonara por um tempo, não era vingativa. Sabia que não fiz por mal. Claro que ainda escondia, por pirraça, alguns livros ou revistas, porém era só revirá-la que lá estava o que procurava, e ela cedia, sem reclamar.
Deixara essa parte de mim quando mudei de endereço. Não havia lugar para ela, por enquanto, na nova morada. Eram muitos autores e personagens ocupando diferentes casas e andares. A superpopulação não cabia ainda no meu pequeno mundo, pelo menos fisicamente.
Tive um dia que buscar alguns moradores importantes, dos quais precisava para o mestrado que estava cursando. Divididos em casas, apartamentos, mansões e barracos, seus moradores, em sua maioria, esperavam ser visitados, enquanto outros batiam a porta na minha cara.
Encontrei uma casa velhinha, reformada em 1946, mas construída no século XIX. Seu aspecto e o cheiro denotavam sua antiguidade. Um dos seus moradores, um marido traído, reencontrou o amante de sua mulher, que morrera anos antes. O construtor dessa casa era um russo que entendia a condição humana como poucos e que também construiu a casa de um jogador inveterado que, dizem as más línguas, era um duplo do próprio russo.
Em outra moradia, na verdade um conjunto de apartamentos, encontrei alguns moradores estranhos, como um que vomitava coelhos e outro que se transformava numa espécie de salamandra. Um dos apartamentos era ocupado por um tigre que circulava em seus cômodos, obrigando os moradores a avisarem uns aos outros sobre a localização do animal, podendo assim se movimentarem com segurança pela residência. Em outro apartamento, dois irmãos tiveram que sair de casa, pois algumas pessoas, não se sabe exatamente quem, começaram a ocupá-la peça por peça. O arquiteto desse condomínio foi um argentino grandão, que tinha o curioso passatempo de jogar amarelinha.
Falando em jogo, outro morador, um menino de 14 anos, se tornou conhecido nas redondezas por ser um craque na sinuca. O dono da casa onde ele morava, infelizmente, foi um dia encontrado morto, já em adiantado estado de decomposição em seu apartamento onde morava sozinho, causando uma comoção geral nos salões de sinuca do subúrbio. Morte natural, consta no atestado de óbito.
Foram esses moradores que fui buscar para morar comigo na casa nova, causando ciúmes nos que ficaram. Avisei, porém, que voltaria para, definitivamente, transportá-los para o novo endereço. Era questão de esperar, com o que esses moradores estavam acostumados.
Hoje estão todos morando comigo e, a cada semana, novas casas são construídas e novos habitantes vão chegando. Que venham mais e mais.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

sábado, novembro 16, 2013

Lançamento da antologia "Nem te conto 2", com Antonio Skármeta


Matéria no Riovale Jornal, de Santa Cruz do Sul, sobre o lançamento da antologia "Nem te conto 2". Participo com o conto "Eles querem te levar", que os leitores do blog já conhecem. Destaque é a presença do escritor chileno Antonio Skármeta, autor de "O carteiro e poeta", que escreveu um conto especialmente para o livro.
 http://www.riovalejornal.com.br/materias/8887-nem_te_conto_mais_uma_vez

quarta-feira, novembro 13, 2013

sábado, novembro 09, 2013

Carta para a escritora e professora Lélia Almeida

Querida Lélia,
há alguns dias pensei em te escrever em forma de carta, mas sabes como a vida de professor não nos permite o tempo necessário para a reflexão. No máximo arrumamos um espaço para postar bobagens na internet, mas para isso não é preciso pensar muito. Não significa que essa carta vá estabelecer uma análise freudiana sobre a leitura que me arrebatou nesses últimos dias, muito menos uma abordagem a partir da ideia de amor líquido baumaniana, enfim. Acredito, no entanto que essa missiva (coisa antiga, hein?) também não deva ser um simples bilhete ou recado.
Poderia simplesmente dizer “ó, li teu O amante alemão, professora”. Aliás, já disse, como bem sabes. Preciso, porém, relatar algo mais do que isso, e tem a ver com uma coisa sentimental, mais do que racional, pois tenho por ti um carinho muito grande e uma gratidão maior ainda. Por isso não escrevi, nem vou escrever, nenhuma resenha sobre o livro.
Foste minha professora e me ensinaste muita coisa. Até aí, cumpriste com tuas obrigações. Mas além de ensinar língua espanhola e suas literaturas, me mostraste escritores e, principalmente, escritoras diferentes, que estavam um pouco distante dos cânones estabelecidos para os estudos. Talvez eu demorasse para conhecer Griselda Gambaro, Cristina Peri Rossi ou Carmem Martín Gaite, por exemplo. Como se não bastasse, me apresentaste ao cinema do Almodóvar. Aprendi a ler, a ver, a apreciar as culturas de matriz espanhola. Aprendi a ter um olhar feminino para as coisas, mesmo que eu tenha sido durante toda a minha vida rodeado por mulheres (avós, mãe, tias, primas, sogra, esposa, filha e colegas do curso de Letras). Ainda por cima me deste o meu primeiro computador, que pariu alguns contos que hoje formam meu primeiro livro.
Eu queria falar um pouco sobre teu O amante alemão, porém tenho receio de que esta carta seja lida por muitas pessoas e possa estragar as surpresas que poderão ter. Digo apenas que me envolvi com a história, escrita de uma forma que demora para estabelecermos os nexos narrativos, o que demonstra uma grande habilidade técnica, num patamar bem acima das tuas outras obras. O enredo vai sendo entregue aos poucos e, quando mal percebemos, já estamos na centésima página e ainda descobrindo detalhes importantes. Identifiquei também muitos aspectos da cidade de Santaluz relacionados a outra cidade do interior do Rio Grande do Sul (certo jornalista, certo sorvete da praça, certo político racista, certo produto econômico principal). Vi personagens que eu poderia muito bem ter conhecido, mas sei que tudo não passa de ficção, da mais pura e bela ficção. Qualquer semelhança é mera coincidência. Estou certo?
Um dos temas da obra é o suicídio, sobre o qual andei me debruçando nos últimos anos em pesquisas literárias, principalmente no mestrado. Mais um fator que me leva a dizer: O amante alemão foi uma das melhores leituras que fiz em 2013. Sua qualidade foi confirmada agora por ter sido indicado como finalista do importante Prêmio Açorianos de Literatura.
Despeço-me por aqui. Um novo livro me chama. Quero que saibas que estou torcendo por ti, não só pela proximidade que tivemos, mas porque o romance é realmente bom, muito bom. O amante alemão ainda te reserva muitas alegrias, Lélia.
Um abraço do teu sempre aluno
Cassionei

sábado, novembro 02, 2013

Quem afirma...



Quem afirma que “deus” existe está necessariamente afirmando algo que não pode ser comprovado e, consequentemente, também não pode ser convencido do contrário. Quem afirma que “deus” não existe pode ser convencido do contrário, se forem apresentadas evidências.
Quem afirma que “deus” existe não está disposto a questionar sua crença. Quem afirma que “deus” não existe pode não estar disposto a acreditar, mas aceita ser questionado.
Quem afirma que “deus” existe está preso a uma verdade. Quem afirma que “deus” não existe está preso a várias dúvidas.
Quem afirma que “deus” existe deseja de todas as formas que sua crença seja verdade. Quem afirma que “deus” não existe deseja de todas as formas encontrar uma verdade.
Quem afirma que “deus” existe se satisfaz com uma resposta. Quem afirma que “deus” não existe não se sente satisfeito com várias respostas.
Quem afirma que “deus” existe tem o direito de ter certeza. Quem afirma que “deus” não existe tem o direito de duvidar.
Quem afirma que “deus” existe não tem o direito de impor a outros essa certeza. Quem afirma que “deus” não existe não tem o direito de querer que todos tenham dúvida.
Há um limite para o nosso conhecimento. Há um espaço muito grande que está vazio. Acontece que um preenche essa lacuna com um ser que não existe, enquanto o outro preenche essa mesma lacuna com um ponto de interrogação. Logo, toda tentativa de racionalizar debates sobre essa questão cai no vazio, na medida em que ambos não têm uma resposta. Isso não significa que este tipo de discussão deva acabar, só não pode haver o ponto final com uma verdade da fé, pois ela não pode ser comprovada.
Já dizia Poincaré, “duvidar de tudo ou crer em tudo, são duas soluções igualmente cômodas, que nos dispensam, ambas de refletir". Logo, quem duvida deve ter uma abertura para acreditar, mas será quem acredita está disposto a duvidar?