Comentário de um leitor sobre meu livro

O meu primeiro livro "Arranhões e outras feridas" está tendo a sorte de encontrar poucos mas ótimos leitores. Seguem as impressões de leitura de Felipe Augusto Kopp:

"Olá, Cassionei. Comprei seu livro "Arranhões e outras feridas" na época do lançamento e nunca dei um retorno. Eu li ele logo na primeira semana, mas queria reler antes de comentar alguma coisa. Fui deixando, outros livros furaram a fila de leituras (tu, como leitor, sabe bem como é isso) e acabei não falando nada. Mas esta semana voltei a ele e achei que poderia dar um feedback. O que eu vou falar é só uma percepção pessoal, de leitor e não de crítico, e não tem muito valor. Vamos lá então.

No geral, achei o livro muito interessante. Alguns contos são ótimos, ótimos mesmos, como o "Vozes" (que eu mais gostei), "Feliz aniversário", "Lá em cima" e "Ônibus". Este último, como já vi outros comentarem, se destaca dos demais, é digno de uma coletânea. Só acho que ele deveria estar mais para o final no volume e não ser o segundo. Ele se torna quase como uma chave para os demais contos. Nele, o narrador/escritor imagina coisa perversas e ruins por trás das aparências de todos os personagens, exceto para si mesmo; enquanto todos têm algo terrível a esconder, ele é quase um romântico que vive em uma perspectiva idílica de si mesmo. O problema é que, para mim, o conto colocou em cheque a verossimilhança das outras histórias: ao invés dos arranhões e feridas dos contos serem dos personagens, eles não seriam só dos narradores? os contos desvelam o lado mais sofrido das personagens ou esse lado sofrido só existe porque os narradores querem ver isso? Assim, em um conto como "Flagrante", fiquei me perguntando se aquela sujeira toda, que ocorreria por detrás das aparências, não é só coisa da cabeça do narrador. Logo, não consegui sentir o asco pela situação como, acredito, fosse a intenção.

Percebi que tu gosta de abusar da técnica que deixa o final em suspenso, em aberto, propício para o leitor completar. Às vezes o resultado é muito bom, como no "Feliz aniversário", em outras achei um pouco forçado, como n"O casarão", que acabou ficando com ares de clichê de suspense. Já no conto "Meu irmão", essa abertura me deixou muito intrigado, porque não sei dizer se gostei ou se odiei; li, reli, treli o conto e montei um quebra-cabeça, mas não faço ideia se ele faz algum sentido. Então, senti um misto de admiração e frustração.

Achei a ideia do "Caixa de Pandora" boa, a la "Fahrenheit 451", só que com o video game ao invés do livro. Só o modo como a história foi narrada não casou muito bem, na minha opinião. O interlocutor do narrador é alguém que desconhece o passado, logo, desconhece a linguagem do passado. A boa ficção científica é aquela que narra um futuro (ou narra o passado por uma perspectiva do futuro) com uma outra linguagem. O que faz do "Brave new world" um livro tão bom é o fato dele contar a realidade como algo nova, como se a gente nunca tivesse visto aquilo. Penso que seu conto deveria causar esta impressão, a de alguém que fala do passado (nosso presente) como algo inédito, não por conceitos e imagens já conhecidas.

Bom, no mais é isso. Assim que puder, quero ler o seu romance."

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