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No Traçando Livros de hoje

Minha coluna na Gazeta do Sul traz hoje um texto reescrito, já conhecido por alguns leitores do blog. Como muitos aqui não o leram e muitos leitores meus no jornal não o são no blog, vale a pena recuperar algumas crônicas como essa: http://www.grupogaz.com.br/gazetadosul/noticia/430614-um_pedaco_de_mim/edicao:2013-11-20.html



Um pedaço de mim

Há alguns anos, havia uma parte de mim que estava distante. Fui visitá-la. Tinha saudades dela. Estava desorganizada, suja. Era triste vê-la naquele estado. Havia muito pó, teias de aranha e pequenos insetos circulavam sobre ela. Sabíamos, no entanto, que era por pouco tempo essa separação.
Ao procurá-la, ela me deu o que precisava. Continuava me satisfazendo, me proporcionando prazer e, mesmo sabendo que a abandonara por um tempo, não era vingativa. Sabia que não fiz por mal. Claro que ainda escondia, por pirraça, alguns livros ou revistas, porém era só revirá-la que lá estava o que procurava, e ela cedia, sem reclamar.
Deixara essa parte de mim quando mudei de endereço. Não havia lugar para ela, por enquanto, na nova morada. Eram muitos autores e personagens ocupando diferentes casas e andares. A superpopulação não cabia ainda no meu pequeno mundo, pelo menos fisicamente.
Tive um dia que buscar alguns moradores importantes, dos quais precisava para o mestrado que estava cursando. Divididos em casas, apartamentos, mansões e barracos, seus moradores, em sua maioria, esperavam ser visitados, enquanto outros batiam a porta na minha cara.
Encontrei uma casa velhinha, reformada em 1946, mas construída no século XIX. Seu aspecto e o cheiro denotavam sua antiguidade. Um dos seus moradores, um marido traído, reencontrou o amante de sua mulher, que morrera anos antes. O construtor dessa casa era um russo que entendia a condição humana como poucos e que também construiu a casa de um jogador inveterado que, dizem as más línguas, era um duplo do próprio russo.
Em outra moradia, na verdade um conjunto de apartamentos, encontrei alguns moradores estranhos, como um que vomitava coelhos e outro que se transformava numa espécie de salamandra. Um dos apartamentos era ocupado por um tigre que circulava em seus cômodos, obrigando os moradores a avisarem uns aos outros sobre a localização do animal, podendo assim se movimentarem com segurança pela residência. Em outro apartamento, dois irmãos tiveram que sair de casa, pois algumas pessoas, não se sabe exatamente quem, começaram a ocupá-la peça por peça. O arquiteto desse condomínio foi um argentino grandão, que tinha o curioso passatempo de jogar amarelinha.
Falando em jogo, outro morador, um menino de 14 anos, se tornou conhecido nas redondezas por ser um craque na sinuca. O dono da casa onde ele morava, infelizmente, foi um dia encontrado morto, já em adiantado estado de decomposição em seu apartamento onde morava sozinho, causando uma comoção geral nos salões de sinuca do subúrbio. Morte natural, consta no atestado de óbito.
Foram esses moradores que fui buscar para morar comigo na casa nova, causando ciúmes nos que ficaram. Avisei, porém, que voltaria para, definitivamente, transportá-los para o novo endereço. Era questão de esperar, com o que esses moradores estavam acostumados.
Hoje estão todos morando comigo e, a cada semana, novas casas são construídas e novos habitantes vão chegando. Que venham mais e mais.
Cassionei Niches Petry é professor, mestre em Letras e escritor. Publicou Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco). Escreve regularmente para o Mix e mantém um blog, cassionei.blogspot.com.

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