As sombras e os muros de José J. Veiga

Texto publicado na minha coluna no site Digestivo Cultural.

“Que são eles, quem eles pensam que são”, versos que pertencem à música “3ª do plural”, dos Engenheiros do Hawaii, seriam uma ótima epígrafe para boa parte das narrativas do escritor José J. Veiga. Há em muitos dos enredos de seus contos e romances uma localidade que recebe alguns forasteiros, cujas identidades nunca são reveladas, que instalam máquinas ou fábricas que interferem de certa forma na vida dos habitantes. Muda o cotidiano, as relações familiares são abaladas, amizades desfeitas e um clima de desconfiança entre os moradores fica evidente. Penso, só para exemplificar, no romance A hora das ruminantes e no conto “A usina atrás do morro”.

Sombras de reis barbudos, obra de 1972 reeditada recentemente pela Companhia das Letras, segue o mesmo caminho. O protagonista Lucas narra a história, a pedido de sua mãe, já alguns anos depois do ocorrido: “Sei que esse pedido insistente”, diz o rapaz, “é um truque para me prender em casa, a senhora acha perigoso eu ficar andando por aí mesmo hoje, quando os fiscais já não fiscalizam com tanto vigor.” O ambiente, porém, parece ainda tenso: “Preciso ter muito cuidado para não deixar o caderno esquecido por aí (...).” Seu ponto de vista não é do jovem quase adulto, mas sim do menino de 11 anos, cuja inocência começa a dar lugar a certo ceticismo em relação aos fatos.

Tudo teve início com a chegada da Companhia Melhoramentos Taitara, chamada apenas de Companhia durante todo o relato, fundada pelo tio de Lucas, Baltazar, que, entretanto, logo foi afastado do cargo através de um golpe, o que o deixou doente. Depois disso, uma onda de repressão foi instaurada, tendo como ponto de partida a construção de enormes muros nas ruas: “Da noite para o dia eles brotaram assim retos, curvos, quebrados, descendo, subindo, dividindo as ruas ao meio conforme o traçado, separando amigos, tapando vistas, escurecendo, abafando.” Símbolo da separação e da divisão, a relação entre as pessoas jamais seria a mesma.

Logo após, o pai de Lucas, Horácio, que já trabalhava na Companhia, obteve um novo cargo, de fiscal, e passou a vestir uma farda que impunha respeito. “Você precisa ver como a cambada me trata. Só faltam se mijar”, dizia ao filho. A alusão à ditadura militar que vivia o Brasil nos anos 70 torna-se mais evidente.

Outros fatos aparentemente insólitos passariam a acontecer. Não bastassem os muros, começaram a aparecer na cidade uma enorme quantidade urubus. Num lugar sem grandes atrativos, crianças e adultos miravam o céu ou a parte de cima dos muros para ver as aves, utilizando-se às vezes de lunetas e binóculos, logo proibidos pela Companhia, que também passou a baixar “novas proibições bobocas, só pelo prazer de proibir (ninguém podia mais cuspir para cima, nem carregar água em jacá, nem tapar o sol com a peneira, como se todo mundo estivesse abusando dessas esquisitices); mas outras bem irritantes, como a de pular muro para cortar caminho”. Quem descumpria as normas, sofria mutilações, como ter os dedos da mão costurados.

Quando Horácio decidiu deixar a Companhia, as dificuldades da família foram se acumulando até ele ser preso, acusado de contrabandear madeira. Nunca mais voltaria para casa. O relato de Lucas prossegue com outros fatos insólitos, como a moda dos meninos de passarem o tempo olhando para o horizonte nos campos, escondidos dos fiscais, lógico. Depois disso, homens surgiam voando sobre a cidade, e a Companhia, não podendo evitar mais esse insólito fato, proibiu que as pessoas levantassem a cabeça para olhá-los: “com penas tão severas, era evidente que a Companhia tinha se aparelhado de todos os sentidos, e nós compreendemos que ela não estava brincando. O jeito era obedecer, e andar de cabeça baixa para evitar mal-entendidos”.

Conformar-se, aceitar, baixar a cerviz. 
Sombras de reis barbudos pode ser a alegoria da ditadura militar no Brasil, mas não só dela, de outro modo seria uma obra datada, como bem lembrava o próprio José J. Veiga quando falava sobre seus livros. Hoje, nos conformamos com os muros das redes sociais, aceitamos proibições de fumar um cigarro porque faz mal, como se outras coisas não o fizessem também, baixamos a cabeça para olhar apenas a tela de um celular, deixamos de mirar e alcançar o horizonte para ir adiante e transpor os muros que nos cercam. Sombras severas nos observam e não querem que fiquemos nem mesmo em cima do muro. O romance de José J. Veiga é, pois, bastante atual.


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