"Arranhões e outras feridas", de Cassionei Niches Petry, PDF gratuito do livro


 


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A literatura que faz sofrer


Arranhões e outras feridas, de Cassionei Niches Petry, publicado originalmente em 2012, é uma coletânea de contos que mergulha nas marcas profundas e superficiais da experiência humana. O título funciona como uma metáfora central: enquanto os "arranhões" representam os pequenos incidentes e conflitos cotidianos, as "feridas" aludem a traumas permanentes, arrependimentos e violências que não cicatrizam.

A obra destaca-se pela sua complexidade narrativa e metalinguística. No conto "Ônibus", Petry constrói uma narrativa circular na qual um autor observa passageiros e imagina suas vidas, enquanto descobre que as histórias desses indivíduos se entrelaçam com sua própria obra literária, borrando as fronteiras entre criador e criatura.

As temáticas sociais são abordadas com crueza. Racismo e poder, por exemplo, em contos como "Aprendizado", em que o autor expõe o trauma da rejeição infantil baseada no preconceito racial, e em "Serviço especial", no qual as dinâmicas de poder e fetiche são exploradas através de um marceneiro negro que se vê preso em uma relação de submissão e racismo estrutural com seus patrões.

A alienação tecnológica é o tema de "Caixa de Pandora", que apresenta uma visão sombria sobre a dependência das máquinas. Num futuro distópico, depois de um colapso de energia, descreve como a obsessão por jogos eletrônicos pode substituir o afeto e culminar em violência doméstica.

A banalidade da violência aparecem em narrativas como "A espera", que retrata a agressão doméstica assistida passivamente por vizinhos, enquanto "Escoriações" compila tragédias rápidas que evidenciam a indiferença da sociedade moderna perante o sofrimento alheio.

A transição entre o realismo brutal e o fantástico é outra marca forte do livro. No conto "O casarão", o autor utiliza o horror psicológico para descrever o fascínio de um homem por uma biblioteca imensa, apenas para ser capturado em um cenário sinistro envolvendo bonecos de pano idênticos a seres humanos. Em "O dia em que a Terra parou", a alienação é levada ao extremo: o protagonista, sob efeito de drogas, assiste aos ataques de 11 de setembro na TV como se fossem apenas "fumaceira" sem sentido, priorizando sua própria apatia em relação ao evento histórico.

Elementos de mistério e o insólito aparecem em "Lá em cima", sobre criaturas que habitam sótãos e o estranho desaparecimento de uma criança, e em "Vozes", no qual o trauma da repressão sexual e familiar faz com que personagens se comuniquem apenas através de sons imitando animais.

A obra de Cassionei Niches Petry confirma a premissa de que a literatura nasce de uma insatisfação e de um vazio, servindo como uma ferramenta para revelar os perímetros das feridas humanas em um mundo muitas vezes incompreensível. Arranhões e outras feridas desafia o leitor a olhar para as imperfeições da sociedade e da alma humana. É um mosaico de existências reduzidas a pó, revelando que a "boa literatura", como o próprio autor sugere, não deve ser necessariamente alegre, mas sim capaz de fazer sofrer e refletir.


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