Arranhões, um conto de Cassionei Niches Petry

 


ARRANHÕES


O calçado arranhando o calcanhar a deixa irritada. Resolve tirá-lo. Não adianta mesmo ficar com os sapatos, pois não vai poder sair para comprar a comida do seu gatinho. 

Vai à sacada se divertir com o balé dos guarda-chuvas na rua. Ela está seca e protegida, e isso a faz se sentir superior. Ri quando um carro passa sobre uma poça d’água, molhando as pessoas na parada de ônibus. Ri quando pedestres, nos seus trajetos, se arranham nas paredes para buscar abrigo. Ri quando uma mulher pisa em uma laje solta da calçada e também fica encharcada. Arranha a garganta de tanto rir, esquecendo-se de que poderia ser ela mesma nessa situação. 

“Guardei até onde eu pude guardar  o cigarro deixado em meu quarto  é a marca que fumas  confesse a verdade não deves negar.”

 Sim, um cigarro cairia bem agora, porém os conselhos do médico estão ainda nítidos na sua memória. Era como se o fumo estivesse arranhando seu pulmão.

“Os meus cabelos brancos me obrigam  a perdoar uma criança.”


 Parece sentir a presença dele na sala. 

– Não se cansa de ouvir o Nélson, com essa voz arranhada? Coloca uma do Cartola.

Até hoje o espera inutilmente. Se tivesse perdoado o que ele fez, um simples arranhão na vida dos dois, não teria ficado sozinha todos esses anos. Foi ele, porém, quem primeiro arranhou a amizade que tinha. Por um ciúme bobo, arranhou um amor de anos brigando com ela e com o amigo, e só depois descobriu que ela fumava escondido, o cigarro não era do outro. Mas aí já era tarde. Na briga, o rosto dele arranhado, o braço dela arranhado, o gatinho arranhando o chão, a reputação do homem arranhada. 

Vai ao toca-discos sem olhar para a poltrona onde ele gostava de sentar e arranhar o copo de uísque. O felino, no vidro da janela, “mia, arranha o céu”. Atende o pedido do marido, coisa que nunca fez. Sabe, no entanto, que é tarde para perder o orgulho.  

“Vai reduzir as ilusões a pó-a pó-a pó-a pó...”

 Ignora o disco arranhado. Ignora que batem na porta. Ignora o gato arranhando a porta e depois suas pernas. Ignora o sangue que escorre das pernas. Ignora o grito do gato que arranha o ar. Ignora sua mente que diz “vai, abra”. Ignora que suas unhas já arranham o próprio rosto. Ignora o sangue que escorre para fora do apartamento. Ignora o sangue que já passa por debaixo da porta e mancha o sapato dele, que arranha a porta, chorando, a garganta arranhando, gritando, implorando para entrar.

(A primeira versão do conto foi publicada no meu primeiro livro, Arranhões e outras feridas. Esta é a segunda versão, publicada em Cacos e outros pedaços, que também foi publicada na antologia Contos medonhos, vários autores.)




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