A fé dos outros e o meu jornal de domingo

 

Morar em Santa Cruz do Sul tem dessas ironias. A cidade te abraça sob o túnel verde das tipuanas, com o cheiro de cuca assando no forno das padarias e a Catedral São João Batista fincando suas torres pontiagudas no céu. É um monumento belíssimo, não tem como não admitir. O problema é que, para quem traz o ceticismo cravado no peito, viver sob a sombra de uma catedral numa terra batizada de Santa Cruz do Sul é uma piada pronta do destino.

Fui buscar o jornal na Banca, costume que andei perdendo devido à internet. Com o exemplar dobrado debaixo do braço, decidi sentar em um dos bancos da praça bem em frente à catedral, apesar do frio desta manhã de agosto. É a hora em que os sinos dobram. As famílias desfilam em direção às escadarias da igreja, ostentando a serenidade dos que têm certeza do amanhã. Eu, por outro lado, me acomodo no banco de concreto e madeira com o papel impresso e três fantasmas (de um morto e de dois ainda bem vivos) me fazendo companhia.

Um é Christopher Hitchens. “Deus não é grande”, ele diria, enquanto observava a procissão atravessar a praça. Hitchens veria nessa devoção comunitária aquela típica necessidade humana de criar um vigia celestial, um soberano invisível para nos consolar do terror do nada. Hitchens, cujo primeiro nome também é uma ironia do destino, morreu de câncer em 2011. Os “bons cristãos” disseram que foi um castigo de Deus por suas blasfêmias.

Ao meu lado, Richard Dawkins provavelmente sacaria a lupa da biologia evolutiva para explicar o fenômeno: a religião como um "meme" persistente, um vírus da mente que se espalha pela cultura local com mais eficiência do que a receita de uma deliciosa cuca. “Deus é um delírio”, diria.

O que me pega de jeito enquanto folheio as notícias não é a biologia, mas sim a existência cotidiana. É aí que Michel Onfray senta comigo no banco, sob o olhar do busto do presidente que nomeia a praça. O francês fala de um ateísmo hedonista, da urgência de encontrar o sagrado na matéria, no agora, no prazer simples de ler as manchetes enquanto a luz do sol vaza entre as tipuanas. Para Onfray, a vida sem Deus não é um deserto moral, mas o único jardim real que nos resta cuidar.

As pessoas me olham da entrada da igreja. Não com ódio, mas com uma leve e arrogante pena, como se soubessem que eu não tenho o vírus da fé. Para eles, o ateu lendo jornal na praça é alguém a quem falta algo. O coitado que vaga no escuro sem a luz da "Cruz".

Eles não entendem que a minha finitude é a minha maior benção. Enquanto eles vivem esta vida como um ensaio geral para a eternidade, eu vivo como se cada folha de jornal virada, cada brisa do frio do Sul e cada linha que leio fossem irrepetíveis. Se Hitchens nos libertou do medo do céu, Dawkins nos deu a maravilha do mundo natural e Onfray nos deu o prazer do presente.

Os sinos silenciam. As portas da catedral se fecham. Fico só no banco da praça, sem santos para me proteger, sem orações para fazer, porém profundamente grato por este único e miraculoso instante de matéria consciente numa cidade que insiste em se chamar Santa.

Cassionei Niches Petry – professor na rede pública e escritor, autor de Uma biblioteca na cabeça

(Kotter Editorial). Membro da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul.

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