Até os gênios cochilam

 


Somos no dia a dia obrigados a chegar à perfeição no nosso trabalho. Querem de nós o relatório impecável, o prazo cumprido em sua exatidão, a postura irretocável, a frase sem deslizes, a vida sem rasuras. Exigem de nós uma eficiência robótica, um desempenho de alta performance das sete e meia da manhã às onze da noite. Para tanto, ainda é preciso ter um sono perfeito! No meio desse ritmo frenético, porém, a literatura antiga nos dá um alento. Há mais de dois mil anos, o poeta romano Horácio deixou registrado, em latim, na obra Arte poética: “Quandoque bonus dormitat Homerus”. Em bom português, "às vezes o bom Homero cochila".

Homero não era um sujeito qualquer. Estamos falando do pai da literatura ocidental, o criador da Ilíada e da Odisseia (que está no hype, como dizem), o homem que moldou a imaginação de civilizações inteiras, embora sua existência seja questionada. Pois até ele, no meio de milhares de versos épicos, dava suas escorregadas. De vez em quando, ressuscitava um guerreiro abatido páginas atrás ou esquecia o nome de um personagem secundário. Horácio percebeu esses deslizes e, em vez de apedrejar o poeta (ou seja lá quem escreveu os clássicos), entendeu que a genialidade não exige infalibilidade.

A expressão me fez refletir, depois de relê-la em um artigo de Javier Cercas, na edição dominical do jornal El País, da Espanha. Atravessando os séculos, ela nos lembra que a humanidade é feita de altos e baixos. O cientista renomado erra uma conta básica no seu experimento. O cozinheiro premiado deixa o molho passar do ponto num dia ruim. O jornalista experiente dá uma “barrigada”. O excelente professor de Língua Portuguesa erra uma palavra no quadro e um aluno o corrige. Também os textos deste cronista costumam frequentemente ser salvos pelo revisor do jornal. São os "cochilos de Homero" do cotidiano.

O problema da nossa época não tem a ver com os tropeços, mas sim com a nossa incapacidade de perdoá-los. Transformamos pequenos lapsos em desastres e a falta de desatenção em crime. Esquecemos que o erro pontual não anula a grandeza da obra, assim como uma vírgula fora do lugar não estraga um grande romance.

Admitir que até os melhores falham não é apologia ao desleixo, mas um respiro de empatia. Da próxima vez que você cometer um deslize ou flagrar a falha de alguém que admira, experimente trocar o julgamento pela sabedoria de Horácio, apesar de ele ter escrito, na verdade, que se irritava com as “cochiladas” do Homero. Se o maior dos poetas gregos dava seus deslizes de vez em quando, quem somos nós para tentar passar a vida inteira buscando a perfeição? 

Cassionei Niches Petry – professor na rede pública e escritor, autor de Uma biblioteca na cabeça (Kotter Editorial). Membro da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul.



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