Os ipês nas manhãs de setembro

 

(Gazeta do Sul, 24 de setembro de 2026)

Durante anos, a solidão não foi apenas um hábito, mas uma fortaleza cuidadosamente edificada. Ergui tijolo por tijolo de silêncio ao meu redor, escolhendo a distância como uma forma quase covarde de autoproteção contra o mundo. “Fui eu quem se fechou no muro e se guardou lá fora.” Havia uma espécie de vaidade dolorosa nessa recusa em sentir. Numa tentativa deliberada de amortecer qualquer sobressalto da alma, me resguardei na indiferença, observando o movimento cotidiano sem me deixar tocar por nada.

O cotidiano desfilava sem cores em um ciclo cinzento e repetitivo. Numa recente manhã de final do inverno em Santa Cruz do Sul, com o vento soprando suavemente no topo dos morros e atravessando as ruas do centro, percebi que a melancolia havia fincado raízes profundas no meu ser. “Fui eu que numa tarde se fez tarde de tristezas.” Vivia à sombra das minhas escolhas enclausuradas, alcançando a proeza de estar presente em corpo, mas completamente distante em intenção. Permaneci parado no tempo e, paradoxalmente, me distanciei de tudo e de todos, fiquei e fui embora ao mesmo tempo, aceitando o esquecimento como uma sentença definitiva.

Nas noites geladas, aquele vazio parecia ter uma lógica perversa. Adaptar-se ao abandono parecia mais seguro do que se arriscar nos afetos alheios. “Fui eu que em noite fria se sentia bem, e na solidão sem ter ninguém.” A insensibilidade, porém, tem prazo de validade. Ao me caminhar distraidamente sob as tipuanas do túnel verde, notei o contraste entre a vida que pulsava e a minha apatia. Fui tomado por um súbito lamento por tantas estações perdidas, pois “fui eu que, chegando a primavera, não via as flores.”

Então, como nas reviravoltas poéticas eternizadas na voz inesquecível de Vanusa, o ar começou a transformar-se. Na emblemática canção "Manhãs de setembro", escrita por Vanusa em parceria com Mário Campanha, a transição das trevas para a luz ganha o tom exato da libertação humana. E o sol nas manhãs de setembro finalmente encontrou uma brecha nas frestas da minha blindagem. Em Santa Cruz, a chegada de setembro desdobra um espetáculo próprio: a florada intensa dos ipês colore os canteiros da cidade e contorna a Praça da Bandeira com tons vivos de rosa e amarelo, anunciando que o frio da alma já não pode prevalecer.

O eco dessa melodia rompeu o resto de silêncio que ainda me prendia. A urgência de viver voltou a pulsar forte nas veias, desfazendo a antiga rigidez. “Eu quero sair, eu quero falar, eu quero ensinar o vizinho a cantar”. A casa interna, antes escura e trancada, abriu de par em par as suas janelas para o mundo. As manhãs iluminadas de setembro, entre o aroma das flores e o calor do sol ressurgido, traz um pouco de esperança para este cronista desesperançado.

Cassionei Niches Petry – professor na rede pública e escritor, autor de “Uma biblioteca na cabeça” e “Revisão de provas”. Membro da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul.


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