Uma rua, muitas lembranças
As visitas à minha mãe aos domingos por vezes me fazem lembrar da minha rua da infância. O barro, as valetas, as casas de madeira (a do meu avô era uma das poucas de “material”, como chamávamos as de alvenaria), as bolitas ou clicas espalhadas pelo chão ainda sem paralelepípedos. Naqueles finais de tarde na Rua Acre, depois das aulas no Luiz Dourado, o tempo não passava apenas pelos ponteiros do relógio: passava pela luz do sol sumindo atrás das árvores e pelo grito da mãe, ainda com avental cheirando a fumo devido ao trabalho nas fumageiras, chamando para lavar os pés encardidos antes de entrarmos em casa.
Éramos donos daquele vasto território. A Rua Acre, antes de ganhar o calçamento e a pressa dos carros, era o nosso palco. Ali, nos agachávamos para jogar clica. A maior riqueza que um menino podia ostentar cabia nos bolsos do calção: duas bolitas leiteiras e uma “argentina”. Era nosso tesouro. Quando cansávamos do jogo de chão, o mundo se expandia em duas rodas. Empinávamos bicicleta (hoje dizem “dar grau”) usando os desníveis e buracos da rua ou algum objeto. Certa vez, pensei que era um pedaço de madeira no chão, mas era uma cobra! Também descíamos de carrinho de rolimã a rampa da entrada do Hospital Ana Nery, que ficava duas ruas acima da nossa. O barulho do metal contra o concreto quente parecia o ronco de um motor de verdade. A gente não pensava em perigo: a única lei era inclinar o corpo nas curvas e torcer para os eixos de madeira aguentarem a velocidade. Ana Nery, diga-se, hoje nomeia o bairro onde fica a rua, que antes pertencia ao Arroio Grande.
Às vezes, principalmente no final de semana, jogávamos futebol no Campo do Sapo, quando ele deixava. O Sapo era o apelido do dono do posto de gasolina onde enchíamos os pneus das bicicletas. O campo tinha goleiras de verdade! Quando éramos proibidos de jogar lá, jogávamos na rua mesmo, com traves marcadas por chinelos, pedras ou latas de azeite (que também usámos nos jogos de taco!). Quando o calor apertava e o suor misturava-se com a poeira, a salvação vinha nos banhos de arroio. Aí íamos mais longe, no Motocross ou nos Pick. Apanhávamos em casa por causa desses mergulhos proibidos!
Ah, e nos embrenhávamos no mato! Com bodoques, saíamos para caçar passarinhos e perseguir preás entre a vegetação fechada. Hoje entendo que o objetivo nunca foi a caça em si, mas a aventura da descoberta, o silêncio da espera e a sensação de sermos exploradores em uma terra virgem.
O progresso veio, vieram os paralelepípedos, vieram outros atrativos para as crianças. Olho hoje para a rua, fecho os olhos e ainda sinto o cheiro da terra molhada nos dias de chuva ou ouço o estalo de uma clica acertando a outra no meio da poeira da Rua Acre. E viajo em pensamentos.
Cassionei Niches Petry – professor na rede pública e escritor, autor de “Uma biblioteca na cabeça” e “Revisão de provas”. Membro da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul.



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