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Ainda sobre as pedras. Gazeta do Sul, página de Opinião, 30 de maio de 2008. Resposta à carta publicada que criticava meu artigo anterior.

Ainda sobre as pedras

Fico pensando, muitas vezes, quando sento à frente da folha em branco para escrever, sobre quem vai ler meus textos. Quando escrevo para o jornal, sei que diferentes leituras vão ser feitas, e sei que posso ser mal interpretado. Na crônica publicada nesta seção no dia 21, procurei fazer um texto leve, mas que ao mesmo tempo servisse para cutucar as pessoas para agirem frente aos desafios da nossa vida. Só não esperava que alguns que fossem ler o texto, não soubessem ler. Se falo em ler, não me refiro a passar os olhos por cima. No entanto, foi o que fez o leitor Leandro D´Ávila, como demonstrou em sua carta publicada neste espaço.
Em primeiro lugar, o texto não fala sobre o jovem apenas (muito menos o jovem santa-cruzense), mas sobre todas as pessoas. Está certo, caro Leandro, você deve ter lido os primeiros parágrafos, não gostou e parou “no meio do caminho”. Não leu os outros quatro parágrafos?
Em segundo lugar, não usei a expressão “todos os jovens”. Mas é só você fazer um mea culpa (como eu fiz, também sou jovem, tenho 28 anos) e ver que a juventude, depois da era Collor, entrou em um marasmo total. Meus alunos, todos adolescentes, que leram com atenção a crônica, concordaram comigo. Creio não ser necessário que a cada texto que alguém vá escrever neste espaço deva sempre acrescentar “mas há exceções”. Tudo nesta vida, meu caro, são exceções. E me mostre: onde escrevi que não existem jovens que prestam em Santa Cruz do Sul?
Terceiro, desqualificar meu próprio texto como eu fiz no início é ter um ego nas alturas e ser presunçoso? Tudo bem, na próxima vez eu escrevo “a crônica que vocês vão ler é a melhor crônica jamais escrita na história deste jornal”.
Quarto, e esse foi um equívoco meu ao pôr a frase no parágrafo errado, não quis dizer que foram jovens que atiraram pedras em uma vitrine no centro da cidade.
Bem, acredito que este episódio poderia servir de mote para a juventude se unir, mas não para atacar um simples cronista de uma cidade do interior. Escrevam para o jornal, saiam às ruas, não desistam de lutar por um mundo melhor e mais justo. E leiam, leiam sempre.

Cassionei Niches Petry – escritor e professor de Língua Portuguesa e Literatura

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