Avançar para o conteúdo principal

Artigos publicados em 2008


Buracos, Gazeta do Sul, página de Opinião, 30 de janeiro de 2008.
BURACOS

Há um ano, uma enorme cratera, provocada por uma construção de túneis para o metrô na cidade de São Paulo, engoliu caminhões, carros, casas e pessoas. Esse fato me fez lembrar das voçorocas do romance Ópera dos mortos, do escritor mineiro Autran Dourado. Voçoroca é um desmoronamento devido à erosão produzida por águas subterrâneas. Na história, uma cidadezinha chamada Duas Pontes está sendo aos poucos engolida por esse fenômeno da natureza. Mas essa destruição não é apenas física, mas também, metaforicamente, representa a degradação moral dos seus habitantes. Qualquer semelhança com a capital paulista não é mera coincidência.

Aliás, não precisamos ir muito longe. É só circularmos por Santa Cruz do Sul para vermos os buracos que enfeitam várias de nossas ruas e calçadas. Quantos automóveis já tiveram suas suspensões avariadas ou quantas pessoas, como eu, torceram o pé por causa da má conservação de nossas vias públicas. São crateras que não engolem carros, casas, pessoas, mas fazem desaparecer nosso orgulho de dizer que somos cidadãos e escolhemos nossos representantes. Por que os escolhemos, se não para atender, ao menos, as nossas necessidades mais básicas? Aqui da janela da minha casa tenho uma visão privilegiada do Lago Dourado. Um buraco sempre cheio de água. Mas para que serve, se no exato momento em que estou olhando para ele, a torneira aqui de casa está cheia de ar? Nossos representantes acham que todos têm um buraco na memória e esquecem as promessas feitas...

Buracos podem simbolizar a falta de alguma coisa. Falta inteligência, por exemplo, para quem gasta seu tempo na frente da TV vendo gente menos inteligente ainda fazendo nada. Aliás, a expressão Big Brother, que dá nome a esse edificante programa televisivo, foi criada pelo escritor George Orwell no romance 1984, também adaptado para o cinema. Na história, as pessoas sofrem uma espécie de lavagem cerebral para aceitarem tudo que é imposto pelo governo totalitário e são vigiadas 24 horas por dia. Por isso o nome tem tudo a ver com o programa da Rede Globo, não pelo fato de as pessoas serem observadas pelas câmeras, mas sim pela lavagem cerebral que provoca no povo brasileiro.

Se alguém não gostou do que escrevi, faça de conta que há um buraco nesta página...

Cassionei N. Petry, professor de Língua Portuguesa e Literatura

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …