Semana Kafka

Inicio a semana Kafka postando o meu conto preferido do autor. Nos próximos dias, contos, resenhas, fotos e links dos filmes baseados na sua obra servirão como homenagem aos 85 anos de sua morte e como preparativo para o encontro do grupo Sobre Livros & Leituras na casa da Jorcenita.

Fotomontagem de Kenneth Rougeau

A ponte – Franz Kafka

Eu era rígido e frio, eu era uma ponte; estendido sobre um precipício eu estava. Aquém estavam as pontas dos pés, além, as mãos, encravadas; no lodo quebradiço mordi, firmando-me. As pontas da minha casaca ondeavam aos meus lados. No fundo rumorejava o gelado arroio das trutas. Nenhum turista se extraviava até estas alturas intransitáveis, a ponte não figurava ainda nos mapas. Assim jazia eu e esperava; devia esperar. Nenhuma ponte que tenha sido construída alguma vez pode deixar de ser ponte sem destruir-me. Foi certa vez, para o entardecer - se foi o primeiro, se foi o milésimo, não o sei - meus pensamentos andavam sempre confusos, giravam, sempre em círculo. Para o entardecer, no verão, obscuramente murmurava o arroio, quando ouvi o passo de um homem.
A mim, a mim. Estira-te, ponte, coloca-te em posição, viga órfã de balaústres, sustém aquele que te foi confiado. Nivela imperceptivelmente a incerteza de seu passo, mas se cambaleia, dá-te a conhecer e, como um deus da montanha, atira-o à terra firme. Veio, golpeou-me com a ponta férrea de seu bastão, depois ergueu com ela as pontas de minha casaca e arrumou-as sobre mim. Com a ponta andou entre meu cabelo emaranhado e a deixou longo tempo ali dentro, olhando provavelmente com olhos selvagens ao seu redor. Mas então - quando eu sonhava atrás dele sobre montanhas e vales - saltou, caindo com ambos os pés na metade de meu corpo. Estremeci-me em meio da dor selvagem, ignorante de tudo o mais.
Quem era? Uma criança? Um sonho? Um assaltante de estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E voltei-me para vê-lo. A ponta de volta! Não me voltara ainda, e já me precipitava, precipitava-me e já estava dilacerado e varado nos pontiagudos calhaus que sempre me tinham olhado tão aprazilvelmente da água veloz.

Comentários

Jorcenita disse…
Antes de ler tua postagem, comento que estou muito emocionada ao ler "A metamorfose". Embora eu esteja mais adulta e menos boba, não consegui me controlar e estou aos prantos. Veja este parágrafo: "O grave ferimento de Gregor, que o fez sofrer mais de um mês - a maçã ficou alojada na carne como uma recordação visível, já que ninguém ousou removê-la - parecia ter lembrado ao pai que Gregor, a despeito de sua atual figura triste e repulsiva, era um membro da família que não podia ser tratado como um inimigo, mas diante do qual o mandamento do dever familiar impunha engolir a repugnância e suportar, suportar e nada mais."
Este livro de Kafka, despertou em mim vários sentimentos: medo, repugnância, repulsa, ansiedade, expectativa e compaixão!
Já imaginaram estar no lugar de Gregor!!!!???
Cassionei Petry disse…
Eu tenho uma versão cinematográfica desse filme. Vou passar outra hora pra ti.
Jorcenita disse…
Leva Sábado no Sarau. Podemos assistir algumas partes p/ discutir depois. Obrigada.
InarA disse…
adorei o conto. buscarei ele em papel agora, porque a minha leitura virtual é terrível.

Mensagens populares deste blogue

"Eu te amo" ou sinal do Diabo?

Sobre “Amortalha”, de Matheus Arcaro