Avançar para o conteúdo principal

Agosto, mês do bom gosto


Meu texto que saiu hoje no jornal Gazeta do Sul, na página de opinião. Publiquei no ano passado aqui no blog, mas fiz uma pequena revisão, inclusive no título.

Chamar agosto de mês do desgosto me causa, justamente, desgosto. Elenca-se uma porção de fatos negativos para justificar esse epíteto, mas se esquece de que outros tantos acontecem nos demais meses. Esse tipo de superstição serve para difundir um pensamento místico tolo, alargando preconceitos e crenças irracionais.

Coincidentemente, alguns acontecimentos negativos aconteceram em agosto: o início das duas grandes guerras mundiais, o lançamento das bombas de Hiroshima e Nagazaki, o suicídio de Getúlio Vargas, a morte de Juscelino Kubitscheck, só para citar eventos bastante conhecidos. Tudo isso contribuiu para a difusão da lenda. Por outro lado, a história também registra fatos ruins em outros meses: o ataque às Torres Gêmeas em Nova Iorque foi em setembro, a Guerra Civil espanhola teve início em julho e Tancredo Neves morreu em abril. Ou seja, uma simples pesquisa sem muita metodologia científica comprova que desgosto não é exclusividade do oitavo mês do calendário.

Em agosto também aconteceram fatos positivos. Foi o mês do meu nascimento, por exemplo, e talvez por isso minha ojeriza a essa lenda. Além disso, se pensarmos na origem da palavra, veremos que nada tem de negativa. O mês ganhou esse nome por decreto do imperador César Augusto, pois ele não queria ficar para trás do imperador anterior, Júlio César, homenageado com o mês de julho. Por isso ambos os meses têm 31dias. O nome Augusto vem do latim augustos, e significa venerável, que merece respeito, magnífico, majestoso, sublime.

Agosto também é conhecido como o mês do cachorro louco, mas aí há uma explicação científica: ocorre um grande número de cadelas no cio devido a condições climáticas. Logo, os machos se atiçam, há mais promiscuidade entre os animais e vírus como o da raiva se propagam com facilidade. Por isso campanhas de vacinação de cães acontecem em agosto. Nada tem relação com espíritos à solta como muitos alegam.

Criticar superstições bobas é tentar secar o chão molhado com toalha de papel. É muito mais fácil acreditar em histórias fabulosas do que em fatos racionalmente comprovados. Astrologia, búzios, numerologia, homeopatia, cartomancia, quiromancia, oniromancia, assombrações, sessões de descarrego, curas espirituais e outras crendices afastam as pessoas do pensamento crítico, pois elas acabam aceitando facilmente a palavra da autoridade no assunto, seja o guru, o xamã, o vidente, o padre, o pastor, o médium. Logo, sei que minha defesa do mês de agosto surtirá pouco efeito, afinal de contas, o misticismo deve ser mantido, para o bem do bolso dos “comerciantes da superstição”.

Comentários

Rejane Martins disse…
Parabéns pelo texto e pelo aniversário! Texto brilhante, Cassionei.

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Um toque

Chuva, café, música clássica e leitura. Daqui a pouco, o cachimbo. Combinação quase perfeita para uma manhã de dezembro, já de férias, final de ano, final de um péssimo ano. Os dedos escorrem pelas teclas com aquela necessidade de escrever algo. Não quero, porém, fazer nenhum balanço de final de ano como costumava fazer. As coisas ruins suplantaram as boas, peso maior para a morte trágica do meu pai, cujo rosto pude tocar pela última vez há pouco mais de dois meses. Os dedos continuam tateando o teclado. Há pouco estava lendo o romance O inverno e depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil, editado pela L&PM. O protagonista, Julius, é um violoncelista, que tateia as cordas buscando o som perfeito, que toca no seu instrumento entre as pernas (o violoncelo, que fique claro) como se tocasse as curvas do corpo de uma mulher, que toca os cobertores que o protegem do frio do pampa, que toca o corpo das mulheres (Klarika, Constanza) como se tocasse seu cello. O toque é a preliminar do prazer…