Avançar para o conteúdo principal

Leitura sobre a leitura


Online

Na minha coluna Traçando Livros de hoje, no jornal Gazeta do Sul.


“Como conseguia transformar meras linhas em realidade viva, eu era todo-poderoso”, escreve Alberto Manguel, sobre o momento em que descobriu que sabia ler. Às vésperas da 24ª Feira do Livro em Santa Cruz do Sul, que começará no final deste mês, as palavras do escritor vêm bem a calhar. Serão milhares de seres todo-poderosos que circularão pela praça Getúlio Vargas – por sinal, outro grande leitor – e aproveitarão a chance de utilizar esses poderes. Também é um pretexto para ler ou reler Uma história da leitura (Companhia das Letras, 405 páginas, tradução de Pedro Maia Soares), escrita pelo autor argentino, naturalizado canadense, e entender o fascínio dessa arte.

Alberto Manguel entende do assunto. Além de escrever várias obras sobre o ato de ler, ele tem no currículo a experiência de ter sido contratado para ser, digamos assim, os olhos de ninguém menos que Jorge Luis Borges, cumprindo, durante anos, o papel de ler para o grande escritor que estava ficando cego. “Jamais tive a sensação de apenas cumprir um dever durante minhas leituras para Borges; ao contrário, era como se fosse uma espécie de cativeiro feliz.”

A viagem histórica da leitura começa com a descoberta, na Síria, de duas placas de argila com entalhes representando animais e um número, datadas de quatro mil anos antes da nossa era, até chegar aos estudos de neurolinguística, que tentam explicar a complexidade da relação cérebro e linguagem. Como a percepção se torna leitura? “Como o ato de apreender letras relaciona-se com um processo que envolve não somente visão e percepção, mas inferência, julgamento, memória, reconhecimento, conhecimento, experiência, prática?”

No meio da viagem, mais precisamente na Idade Média, nos deparamos com o espanto de Agostinho – para quem “a palavra falada era uma parte intrincada do próprio texto” –, ao ver o bispo Ambrósio lendo silenciosamente e não em voz alta, como era de costume. “Olhos perscrutando a página, língua quieta: é exatamente assim que eu descreveria um leitor de hoje”, escreve Manguel. Mesmo com a necessidade que temos de compartilhar nossas leituras, seja através de sarais, contação de histórias ou debates, a melhor forma de ler é no silêncio e na solidão.

Nas demais estações da viagem, Manguel aborda as formas de aprender a ler, os lugares onde podemos apreciar uma leitura, os livros proibidos, a leitura de imagens, o roubo de livros, etc. Ficamos sabendo que Franz Kafka, autor de A metamorfose, era funcionário de um instituto de seguros e roubava “tempo do seu trabalho para se deixar absorver pelo livro que tivesse consigo”; também conhecemos a intimidade de alguns leitores-escritores, como Geoffrey Chaucer, que gostava de ler na cama; e, por fim, somos lembrados que Laurence Sterne e Julio Cortázar, ao escreverem seus romances, deram um enorme poder a quem lê, os “livros deixados abertos para a construção do leitor, como uma caixa de Legos”.

O tema da Feira do Livro desse ano, “Ler é uma arte”, põe o leitor também como criador, um artífice. Se o escritor utiliza a palavra como matéria-prima e a transforma em obra artística, o leitor, da mesma forma, cria, a partir das palavras disponíveis nas páginas dos livros, novos sentidos para o texto, muitas vezes bem diferentes dos sentidos pensados pelo autor. O texto, em princípio, é apenas silêncio e só se transforma em arte “quando rumoreja/o sopro da leitura”, como escreveu Ferreira Gullar. Por isso, leitor, circule pela feira, abra os livros, leia-os e se metamorfoseie num artista da leitura, fazendo companhia a Manguel, Borges, Agostinho, Kafka, Sterne, Cortázar...

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras pela Unisc, com bolsa do CNPq. Assim como Kafka, já roubou tempo do seu trabalho para ler. Escreve regularmente para o Mix e no seu blog, cassionei.blogspot.com.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Um toque

Chuva, café, música clássica e leitura. Daqui a pouco, o cachimbo. Combinação quase perfeita para uma manhã de dezembro, já de férias, final de ano, final de um péssimo ano. Os dedos escorrem pelas teclas com aquela necessidade de escrever algo. Não quero, porém, fazer nenhum balanço de final de ano como costumava fazer. As coisas ruins suplantaram as boas, peso maior para a morte trágica do meu pai, cujo rosto pude tocar pela última vez há pouco mais de dois meses. Os dedos continuam tateando o teclado. Há pouco estava lendo o romance O inverno e depois, de Luiz Antonio de Assis Brasil, editado pela L&PM. O protagonista, Julius, é um violoncelista, que tateia as cordas buscando o som perfeito, que toca no seu instrumento entre as pernas (o violoncelo, que fique claro) como se tocasse as curvas do corpo de uma mulher, que toca os cobertores que o protegem do frio do pampa, que toca o corpo das mulheres (Klarika, Constanza) como se tocasse seu cello. O toque é a preliminar do prazer…