Crença na não-existência?


Estive acompanhando um debate entre ateus em alguns blogues. Causa-me certa surpresa – nem tanta, é verdade – uma tentativa reiterada de lideranças importantes do meio em estabelecer o que é e o que não é ateísmo. Para esses, o termo se refere a uma crença na não-existência de deuses. Há lógica, argumentos e citação de autoridades que defendem o conceito. No entanto, vejo que usar a palavra crença soa religioso. E, o pior, os defensores alegam que é um erro definir ateísmo pela sua etimologia.

Acompanhei o debate mais precisamente no blog do Paulo Lopes, a partir da reprodução de um texto de Daniel Sottomaior, presidente da ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos), que foi alvo de críticas de Eli Vieira, presidente da LiHS (Liga Humanista Secular), acusando Daniel de praticar uma “falácia etimológica” ao definir ateísmo como ausência de crença. Parece haver uma disputa de egos ou é simplesmente a tentativa de estabelecer uma verdade única para os ateus, criando, assim, uma espécie de nova religião ou seita, o que tornaria a ironia do bule voador proposta por Bertrand Russell num dogma.

A discussão também acabou me esclarecendo um fato que me ficou nebuloso nos últimos meses, uma sensação de que havia censura sistemática no Bule Voador, blog pertencente à LiHS. Tive comentários cortados e fui ridicularizado por editores do blog, principalmente em um post sobre o “livro do MEC”. Por isso parei de comentar no blog e de abordar o ateísmo, inclusive aqui no meu blog. Pois Marcelo Esteves, fundador do Bule original, que publicou um texto meu há uns 2, 3 anos, expôs, numa crítica ao Eli, fatos esclarecedores sobre os bastidores de lá. Fiquei, pelo menos, aliviado em saber que eu não estava ficando paranoico.

Nunca me associei nem na ATEA, nem na UNA, muitos menos na LiHS por não gostar de fazer parte de nenhuma associação. Posso ser influenciado pelas pessoas que divulgam suas ideias nessas organizações, mas procuro manter uma postura mais própria. Não quero entrar em nada que estabeleça regras, principalmente regras que não podem ser contestadas. Dizer que o ateísmo é uma crença ou ausência de crença é transformá-lo em uma religião e disso estou fora. Sou descrente, não crente.

Estou voltando a escrever sobre o ateísmo porque será um dos temas do meu romance e, consequentemente, da minha dissertação de mestrado sobre a criação literária. No meu “Diário de um fracasso anunciado” escreverei mais sobre os personagens que se veem enroscados nessa questão.

Comentários

Não creio haver perigo em simplesmente definir ateísmo como ausência de crença. É assim que me defino a partir de agora, meramente um "descrente" (ou seja, alguém que abandonou suas antigas crenças).

Espero que não tenha ficado impressionado com minhas intervenções, eu tento me controlar, mas às vezes eu fico um tanto excessivamente empolgando...
Anónimo disse…
Crença na inexistência me lembra o argumento crente "vc não pode provar que não existe". Não faz sentido ter isso como bandeira.
Cassionei Petry disse…
Conhecia só o teu lado literário... Foram ótimos teus comentários, os mais sensatos.
Cassionei Petry disse…
Obrigado pelo comentário, seja lá quem for...
Sandra disse…
Seu blog é excelente. Acho ótimo encontrar pessoas tão lúcidas como você.
Gelso Job disse…
Cassionei, saiu a retratação do Bule Voador, bem como, do Eli (nos comentários). Espero que tenha sido um episódio passageiro este desentendimento porque uma questão pontual não pode colocar todo o resto a perder.

Abração
Cassionei Petry disse…
Eu li, mas não me convenceu. Há muito ego por trás de tudo isso.
Marcos Rosa disse…
Cassionei,

Não vejo problema em defender a definição do ateísmo como: 1. ausência de crença em divindades OU 2. crença na inexistência de divindades(entendendo crença como conjunto de valores construídos com base no conhecimento e revistos pela lógica e ração, que é diferente de fé).

Reforço o "OU", pois as duas definições podem ser usadas, defendidas e fundamentadas.

Pessoalmente, além de não acreditar em nenhuma divindade, eu também acredito que eles não existam. Acredito nisso pois existem fatores sociais, históricos, psicológicos, etc. que explicam a origem das crenças. Acredito nisso pois todos os deuses já inventados pelas sociedades humanas possuem elementos ilógicos, contraditórios ou são baseados em "revelações" infundadas.

O que me preocupa na definição de ateísmo como uma "crença" na inexistência é a dificuldade de ser necessário definir o conceito de crença como "conhecimento fundamentado". O entendimento mais comum associa crença como sinônimo de fé, e isso gera mais confusão do que esclarecimento.

Gostei bastante das intervenções do José Geraldo e, com a retratação publicada pelo Bule, espero continuar contando aquele espaço para discussões esclarecidas.

Abraços,

Marcos Rosa
Cassionei Petry disse…
Exatamente, Marcos, o problema está na palavra minada que se transformou a crença.
Calabria disse…
Acho um exagero falar que está discussão está dividindo os ateus ou criando seitas.
Está apenas se discutindo o conceito da palavra crença, como conclusão, ou conjunto de argumentos.
Ateu continua sendo o que é, está apenas se classificando o conjunto de idéias que defendem essa negação.
Minha humilde opinião.
Cassionei Petry disse…
É que a discussão vai muito além disso, não é apenas o conceito.

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