Ritos de final de ano

Repostagem do texto que saiu no ano passado no jornal Gazeta do Sul:

Mais um ano termina e outro se aproxima. Junto vem a necessidade inata do ser humano de comemorar, refletir e também de questionar: por que comemoramos o Natal e realizamos os rituais da virada?

O Natal é lembrado pelo nascimento de Cristo. Muito antes, no entanto, já existiam celebrações nesse período relacionadas a deuses de diferentes culturas e ao solstício de inverno no Hemisfério Norte, quando o sol renasce com força vencendo a noite mais longa. Na Roma antiga, por exemplo, a celebração era em honra a Saturno, deus da agricultura e da justiça. Já para os persas, o deus Mitra, que representava justamente a luz solar, também teria nascido nessa época e é celebrado (aliás, consta que há muitas semelhanças nas histórias relacionadas a esse deus antigo com os relatos que dão conta da vida de Jesus Cristo). Os chineses, por sua vez, chamavam esse período de dong zhi, que significa “a chegada do Inverno”. A Igreja Católica, séculos depois, adaptou ao cristianismo essas antigas celebrações, que passaram a ser consideradas pagãs.

É um momento, portanto, que pode ser celebrado independente de qualquer crença, por isso não se deve condenar quem não pensa apenas no nascimento de Cristo. Aliás, a figura simbólica do Papai Noel, distribuindo presentes e ensinando as crianças a obedecerem a seus pais, representa de forma mais neutra o Natal (apesar de sua origem cristã). Natal significa nascimento, não somente de um homem filho de um deus, mas da esperança de homens e mulheres que passaram por dificuldades durante o ano e querem buscar novas forças para o que está por vir. É o sol que renasce vencendo a noite mais longa e fria.

O Ano-Novo, por sua vez, já tem um caráter mais universal. Nenhuma religião quis ser dona dessa data. Há um ecumenismo significativo, que origina vários rituais e superstições interessantes, como o uso de roupas com determinadas cores para simbolizar as mudanças desejadas, comer lentilha e guardar as sementes na carteira para melhorar a vida financeira e não comer aves, para não deixar a felicidade voar para longe. Essa linguagem simbólica, realizada por diferentes pessoas com crenças diferentes, tem como objetivo atrair boas energias ou bons fluidos, de acordo com a nomenclatura dos místicos. Se funciona ou não, é crença de cada um. Acredito, porém, que não tem nada a ver com nenhuma força superior, mas sim a força interior que temos. Se estamos dispostos a construir um ano melhor do que o anterior, faremos com os ritos de passagem ou sem eles.

Esse período também é conhecido por réveillon, que em português significa "despertar". Mais uma vez a metáfora do nascimento aparece, sendo que um novo ano nasce e temos que nos renovar. É bom lembrar que o primeiro mês do ano é janeiro, cujo nome é uma homenagem ao deus romano Jano, porteiro dos céus, sempre representado com duas faces, uma olhando para frente, o futuro, outra olhando para trás, o passado. Assim como Jano, não podemos esquecer o ano que passou. Temos que avaliar tanto os acertos, para repeti-los ou melhor, aprimorá-los , quanto os erros, para não voltar a cometê-los. Como escreveu o filósofo alemão Nietzsche em seu livro Aurora título que remete à claridade no horizonte anunciando o nascer do sol , devemos ir além do caminho já percorrido, pois “outros pássaros voarão mais longe!”.

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