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Bonsai, de Alejandro Zambra, no Traçando Livros de hoje

Meu texto sobre Bonsai, do escritor chileno Alejandro Zambra, na minha coluna Traçando Livros, do jornal Gazeta do Sul: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/347566-a_arte_minimalista_de_zambra/edicao:2012-05-23.html.

A arte minimalista de Zambra
Cassionei Niches Petry
                                                                                                                                                                                           

Literatura é uma forma de arte. A matéria-prima são as palavras. Através delas, o artista constrói mundos, sugere imagens e sons, provoca a reflexão. Os instrumentos variam, de acordo com as idiossincrasias do escritor. Alguns são adeptos dos recursos avançados do computador; outros imaginam como música o bater das teclas da máquina de escrever; mas ainda há aqueles que querem sentir na mão o nascimento de sua obra, usando canetas ou lápis para riscar a folha em branco. Para estes, a ponta dos dedos e a frieza dos teclados distanciam o criador da sua criação.

Escrever a lápis denota delicadeza e precisão. Também significa escrever com o mínimo de recursos. “Menos é mais”, disse o arquiteto alemão Ludwig Mies van der Rohe, que também afirmou que “Deus está nos detalhes”. Com essa visão minimalista devermos ler Bonsai, do chileno Alejandro Zambra, editado pela Cosacnaify e traduzido por Josely Vianna Baptista. Com essa visão minimalista o escritor escreveu sua obra. Com essa visão minimalista o protagonista Julio vê mundo.

No início do romance já nos é revelado que o grande amor de Julio morre no final e ele fica sozinho, “ainda que na realidade ele já havia ficado sozinho vários anos antes da morte dela, de Emília”. Os dois namoraram na época em que estudavam Letras e, quando ela morre, cometendo suicídio, os dois já não se viam há anos. A literatura e o sexo os mantiveram unidos no pouco tempo em que se relacionaram. Liam juntos, antes de fazer amor, escritores como George Perec, Juan Carlos Onetti, Ted Hughes e E. M. Cioran. Dizia Emília: “é bonito ler e comentar o que foi lido antes de enlaçar as pernas”. Mas é a leitura de Tantalia, conto de Macedonio Fernández, que os marcará definitivamente. Nessa história, um casal compra uma pequena planta para simbolizar o amor entre os dois. 

Mais tarde, quando já estão separados, Julio escreve um romance. Na verdade, iria transcrever para o computador os manuscritos de um romancista famoso, mas lhe foi negado o trabalho por ter cobrado muito caro. Mesmo assim, escreve, imaginando que está trabalhando para o escritor. Esse romance se chama “Bonsai”, referência à árvore em miniatura cultivada artisticamente pelos japoneses. Depois, compra sementes e instrumentos para fazer ele mesmo um bonsai de verdade.

Criação literária, metaficção, suicídio e vida universitária (mais precisamente na área de Letras) são temas que me atraem e perpassam o romance que estou escrevendo. Tudo isso aparece em Bonsai, mas de uma forma poética e minimalista. A começar pelo número de páginas, 64 na edição brasileira, passando pelas frases e capítulos curtos, além de focar a atenção nas pequenas coisas do cotidiano. O protagonista, ao cuidar de um bonsai, revela o trabalho do escritor em aparar, cortar, deixar apenas o essencial nos textos que escreve. A essência está no mínimo. “Escrever é como cuidar de um bonsai, pensa Julio”, mesma afirmação de Zambra em texto sobre o processo de criação do romance. E acrescenta: “escrever é podar os ramos até tornar visível uma forma que já estava ali, escondida.” 

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras, com bolsa do CNPq. Cultiva um bonsai no seu computador. Escreve regularmente para o Mix e mantém o blog cassionei.blogspot.com.

Comentários

charlles campos disse…
Leu isto?:

"Transcrevo abaixo, na íntegra, a carta do leitor publicado no jornal Correio do Povo do dia 21 de maio de 2012, de autoria de Joice Colbeich, de Farroupilha.
“Gostaria de esclarecer aos milhares de leitores que leram as capas de todos os jornais do dia 18 de maio, nas quais está estampado que 90% dos professores são reprovados no concurso do magistério em 2012, que esse tão fatídico concurso tinha justamente este objetivo, de reprovar os professores em massa para arrastar pela lama o pouco brio que resta a essa classe tão sofrida e mostrar para a população que não são merecedores desse piso pelo qual têm lutado com tanto empenho, pois nem em um concurso conseguem passar."

Íntegra aqui:

http://sul21.com.br/jornal/2012/05/o-concurso-do-magisterio-tinha-o-objetivo-de-reprovar-os-professores-em-massa/
Cassionei Petry disse…
Nao sou tao paranoico assim, mas a maneira como a secretaria de educação do RS apresentou resultados ou comentou sobre eles leva a desconfiar de algo.

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