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Traçando livros de hoje sobre Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá



No Traçando livros, minha coluna quinzenal no jornal Gazeta do Sul, caderno Mix, escrevo sobre a arte sequencial Daytripper.

A vida em quadrinhos

Meu primeiro contato com a leitura talvez tenha sido com as histórias em quadrinhos. Meus tios eram donos de prateleiras repletas de revistinhas, pelo menos na minha visão de menino. Foi também o primeiro contato com minhas irmãzinhas odiadas, as traças. Lia Pato Donald, O incrível Huck, Tex, Conan, o bárbaro e outras pérolas. Com o tempo, o romance, o conto, a crônica e a poesia foram ocupando o lugar principal nas minhas leituras, mas nunca deixei totalmente de lado os gibis.

Só adulto, porém, fui conhecer certos autores e obras que fazem das HQ’s não apenas entretenimento, mas também obra de arte. Neil Gaiman, com Sandman, comentado já duas vezes neste espaço; Alan Moore, com V de vingança; e Will Eisner, com A força da vida, só para citar alguns, além de Robert Crumb, Milo Manara, Guido Crepax, etc. 

No Brasil há alguns nomes que se destacam, como Laerte, Angeli, Lourenço Mutarelli, Rafael Grampá. Minha grande descoberta pessoal, no entanto, foi a dos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, através de suas tiras no jornal Folha de São Paulo. Os gêmeos são respeitados internacionalmente, sendo que o trabalho mais importante deles, Daytripper, foi editado primeiramente nos Estados Unidos e pelo qual ganharam o Oscar dos quadrinhos, o prêmio Eisner. 

Daytripper é uma graphic novel dividida em 10 partes, publicada em 2010 pelo selo Vertigo da gigante norte-americana DC Comics. Um ano depois chegou ao Brasil pela editora Panini. Traz nas suas 256 páginas a história ou as histórias do jornalista Brás de Oliva Domingos, responsável pelos obituários de um jornal, filho de um grande escritor, mas que sonha em publicar seu próprio romance. “Eu queria escrever sobre a vida, Jorge, e olha pra mim agora... tudo o que eu escrevo agora é sobre a morte”, diz a seu amigo. São dez momentos que representam diferentes fases de sua vida, cujos capítulos correspondem a sua idade, 32, 21, 41, 11 anos, etc. Cada parte tem um final que não cabe, por motivos óbvios, contar aqui. O que posso dizer é que surpreende saber o que acontece no fim de cada capítulo e ler o seguinte.

O nome Brás dá uma pista dos destinos (no plural mesmo) do protagonista, lembrando que é uma clara referência ao personagem de Machado de Assis. É também uma menção ao Brasil, já que a história foi criada para o público estrangeiro, sem que esquecer que oliva é a cor do uniforme do exército brasileiro. Chama a atenção, além disso, a semelhança do Brás com o Chico Buarque, que com certeza serviu de inspiração para os artistas.

Há passagens memoráveis. A que mais me marcou, tendo em vista que fiz a leitura no domingo após a tragédia de Santa Maria, relata o processo de elaboração dos obituários das vítimas do desastre do avião da TAM, que ocorreu em São Paulo, em 2007. Sobre a mesa do protagonista, observamos fotos das dezenas de pessoas que perderam suas vidas e, durante a semana em que os corpos foram reconhecidos, ele entrevista os parentes. Segundo o editor do jornal, a função dos obituários é buscar respostas e fazer as pessoas que ficam a aceitarem a situação e seguirem em frente. “Nada vai trazer seus parentes de volta”, diz a esposa do Brás, “mas toda a informação por menor que seja é reconfortante para eles. Todo novo obituário faz uma dúvida descansar, deixa uma família em paz.”

Daytripper fala de amor, paternidade, amizade, infância, fatalidades. Reflete sobre as escolhas que fazemos e das suas consequências. Assim como as tiras do jornal criadas pelos irmãos, há um tom próximo da autoajuda, problema superado pelos belos desenhos e pelo mágico enredo que mostra, segundo as palavras do grande escritor, pai do protagonista, que a vida parece “muito mais do que só uma aventura que vale a pena”.

Cassionei Niches Petry é mestrando em Letras e escritor, autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco). Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém um blog: cassionei.blogspot.com.


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