Traçando livros de hoje

Traçando livros de hoje, minha coluna quinzenal no caderno Mix do jornal Gazeta do Sul: http://www.gaz.com.br/gazetadosul/noticia/393304-ensaios_para_ler_sozinho/edicao:2013-02-20.html




Ensaios para ler sozinho



Em Como ficar sozinho (Companhia das Letras, tradução de Oscar Pilagallo), temos excelentes exemplos de ensaios literários, um gênero pouco cultivado no Brasil, onde se cultua, ou se cultuava, muito mais a crônica. Seu autor, Jonathan Franzen, um dos principais romancistas americanos, autor de As correções e Liberdade, reúne textos publicados em jornais e revistas, além de um discurso, que abre o volume, direcionado a alunos de uma escola secundária.


 “A dor não nos matará” foi escrito para a cerimônia de formatura do Kenyon College. Franzen critica o “tecnoconsumismo”, relacionado principalmente à aquisição de celulares modernos e às redes sociais: Um fenômeno relacionado a esse é a transformação, graças ao Facebook, do verbo curtir, que deixa de descrever um estado de espírito e passa a designar um ato que desempenhamos com o mouse: deixa de ser um sentimento e vira uma opção de consumo. E curtir é, no geral, o substituto da cultura comercial para amar.


No ensaio seguinte, no entanto, ele afirma: “Não tenho nada contra novidades tecnológicas.” O que pode parecer contraditório tem a ver com o pensamento ensaístico, forma literária não ficcional que exprime as idiossincrasias do escritor, quando ele se expõe perante seu público, pois é a sua opinião que está ali, não mais filtrada pelo narrador ou pelas personagens. 


O melhor ensaio da coletânea, “Mais distante”, ao tratar da viagem que Franzen realizou para jogar parte das cinzas do escritor e amigo David Foster Wallace numa ilha do Oceano Pacífico, discorre brilhantemente sobre o gênero romance e o suicídio. O autor aproveitou para, no caminho, reler Robinson Crusoé, de Faniel Defoe, que se passa numa ilha: “era o primeiro documento importante do individualismo radical, a história da sobrevivência prática e psicológica de uma pessoa comum em perfeito isolamento.” Seu amigo, um dos nomes mais importantes na literatura atual (a Companhia das Letras vai publicar o genial Infinite Jest ainda neste ano), havia se enforcado na garagem onde escrevia suas narrativas. Para Franzen, DFW “talvez tivesse morrido de tédio e desesperança quanto a seus futuros romances”, somados, claro, a problemas psiquiátricos, pois havia deixado de tomar seus medicamentos para escrever melhor.


Outros temas são a doença do pai de Franzen, que sofria do mal de Alzheimer; seu ódio à fumaça do cigarro, depois de durante anos ter sido fumante inveterado; a falta de privacidade no modo de vida americano; a ficção autobiográfica, dele e de outros autores, como Franz Kafka. 


O último ensaio, sobre os contos de Alice Munro, propõe uma pergunta: “Uma ficção pode salvar o mundo?” Como resposta, Franzen diz que não, mas “talvez possa salvar nossa alma.” Sozinhos, lendo ou escrevendo, nos colocamos no lugar do outro e aí percebemos que não há “O Mal” no mundo, mas sim que somos nós “O Mal”.   


Cassionei Niches Petry é professor, mestrando em Letras e escritor,autor de Arranhões e outras feridas (Editora Multifoco). Gosta de ficar sozinho. Escreve quinzenalmente para o Mix e mantém um blog: cassionei.blogspot.com.

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