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Aceita um café, caro leitor?

Hoje é o Dia Internacional do Café. Daqui a algumas semanas teremos o dia nacional, depois o universal... Essa mania de dia para tudo se popularizou com as redes sociais, tornando-se um motivo para postar coisas e fazer a roda girar. Às vezes é um saco, outras vezes até eu entro na brincadeira.
Mas voltemos ao café. Enquanto escrevo estas mal traçadas linhas, de acordo com o ritual descrito na crônica anterior, já tomei minha primeira xícara de café e estou partindo para a segunda. Na revisão do texto, já estarei com certeza na terceira. Não começo o meu dia sem o café, assim como não durmo sem ele. Verdade, se não tomo café aí é que tenho dificuldade para dormir, diferentemente das demais pessoas. Sou anormal?
Não considero, no entanto, que tenho um vício (já viu algum viciado dizer que é viciado?), porque não entro em desespero se faltar. Porém sinto a todo o momento uma necessidade enorme degustar o líquido negro mais valioso do mundo (o petróleo fica em segundo lugar) todos os dias, todas as horas, em todo o lugar.
Não sou, no entanto, um expert em café. Não tenho a mania de escolher os melhores grãos, a melhor marca. Não me importo em tomá-lo requentado, tão pouco arranco os cabelos ou enforco o meu colega de trabalho se o café estiver fraco ou forte demais. Aqui em casa, cai bem um Caboclo, um Melitta, um Três Corações, um Pilão, um Bom Jesus ou outra marca qualquer, ou melhor, nem todas, pois há alguns pós de café horríveis. Nunca tomei um Haiti, mas gostava quando os debatedores do programa “Sala de Redação” da Rádio Gaúcha cantavam o jingle “Haiti, Haiti, Haiti, tá fazendo na cozinha, tá cheirando aqui”. E também não desprezo, de vez em quando, um café solúvel, de preferência bem batido.
Odeio “cafezinho”, xícara pequena ou copinho de plástico minúsculo. Sou adepto do cafezão, xícaras grandes ou canecas. E doce. Não gosto de café sem açúcar, o que prova que não sou especialista no assunto.
O café, acima de tudo, é companhia perfeita para a leitura e escrita. Café e livros combinam muito bem, tanto que há muitas livrarias que são também cafeterias. Os dois se dão tão bem que é comum o café se derramar sobre as páginas de um livro, na tentativa desesperada de se perpetuar entre as letras. Um livro com manchas de café é um livro que tem vida, que foi lido, não simplesmente comprado para ficar parado na estante. Sem contar que ele fica com o cheiro da café entranhado por um bom tempo, conduzindo o leitor a lê-lo novamente.
Por falar em cheiro, estou sendo atraído pelo cheiro de café lá da cozinha, por isso paro por aqui. Aceita um, caro leitor?


Comentários

Tiago Moura disse…
Compartilhamos quase os mesmos gostos e opiniões quanto ao café, gosto de xícaras grandes e canecas também. Tem que ter todo dia, mas não sou viciado! Jamais. E claro, tem que tê-lo no momento da leitura, e acontecer de, após o primeiro gole ele seja esquecido, ali, pertinho, sem se dar conta do tempo passado, você o pega e o sente já bem frio. Mas, tem que estar lá.
Cassionei Petry disse…
Sim, verdade. Grato pela leitura.

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