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Que romance é esse!

Sem sombra de dúvidas ou sem dúvida de sombras: Que você é esse?, de Antonio Risério (Record, 434 páginas) é um dos melhores romances brasileiros da últimas décadas. Foi lançado no ano passado, mas somente agora consegui ler. Em que pese a polêmica provocada antes mesmo de seu lançamento, a obra não recebeu ainda o reconhecimento merecido. Precisamos rever isso aí.

O autor tinha a Editora 34 como a casa que publicava seus livros. Quando apresentou o romance para o editor, porém, recebeu uma negativa. Risério considerou a justificativa como uma censura devido ao teor político da narrativa, que trata, em boa parte, de uma visão crítica da esquerda no país, vinda de um militante decepcionado com os rumos de seus pares, e também dos bastidores do marketing eleitoral, do qual o autor fez parte como redator, somados ao momento político nacional em que a presidente Dilma estava prestes a ser afastada do governo, e ela é citada diretamente, como neste trecho: “... um sindicalista chamado Jaques Wagner, que gostava de fazer pose de culto e cara de conteúdo, embora nesse campo, como a sua amiga Dilma Rousseff, fosse incapaz de distinguir entre uma capivara e uma carambola.”

A Editora 34, no entanto, alegou, em nota oficial, questões de ordem literária, problemas que ao meu ver são, na verdade, alguns dos pontos positivos do romance, como a digressão e a mudança de voz dos narradores. No entanto, também alega que o fato de ele ter trabalhado no marketing das campanhas petistas tenha influenciado na decisão, pois “certas passagens do livro soavam mais como um desabafo pessoal do que uma construção literária de peso”, causando na casa editorial “desconforto com a possível instrumentalização dessas passagens”.

Risério conseguiu depois disso a publicação pela Record, através do faro de Carlos Andreazza, editor que publica todos os polos ideológicos, sem distinção, de Márcia Tiburi a Olavo de Carvalho, por exemplo, e que da mesma forma gosta de abrigar polêmicas. A mais recente, sobre o uso do pseudônimo Eduardo Cunha no romance Diário da cadeia, de Ricardo Lísias.

Mas vamos à narrativa, que é o que realmente importa. O protagonista é Daniel Kertzman, de família judaica, publicitário que sonha em ser escritor e publica alguns contos em pequenas antologias coletivas. Estas histórias são reproduzidas no romance e retratam o passado do Brasil, a partir dos escravos, dos índios, dos portugueses e dos judeus, em que são ilustradas a escravidão, as religiões de matriz africana, a cultura do nativo, a colonização, a exploração das riquezas da Amazônia. No bom conto que abre o livro, “O solar do sertão”, o narrador e protagonista é um escravo fugido, que teve oportunidade de aprender a ler e escrever com o um senhor de engenho, e agora narra sua história, repleta de aventura e muito, muito sexo (aliás, uma tônica de todo o romance), mas também de sofrimento por sua condição: “Em menos de dois meses, o açúcar estava pronto. Num dia de sol, cheio de azuis, era extraído das fôrmas. O branco, no topo do vaso, o mais caro. O pardo, no meio, tinha menor valor. No fundo da fôrma, escuro, o mascavo — o que valia menos. Como em nossas vidas: o branco, o mulato, o preto.”

No plano do presente, a narração é em 3ª pessoa e se volta sobre a trajetória pessoal e política de Daniel, num arco de tempo que vai dos anos 60 até 2014. É retratada a geração da contracultura, dos que foram presos pela ditadura e lutaram pela “Diretas Já” e depois chegaram ao poder. O amor e a sexualidade sem amarras são discutidos e vividos pelas personagens. O avanço dos evangélicos pentecostais e sua guerra contra o candomblé são avaliados, assim como as incoerências da esquerda e a perda da ilusão em relação ao PT, o que talvez seja a explicação para o silêncio em torno do romance: “Entre o marasmo das massas e a embriaguez da multidão, Kertzman, com o passar dos anos, foi ficando cada vez mais crítico. Mais distante. E desiludido. O entusiasmo inicial com as primeiras vitórias do PT foi se transmudando em claras frustrações, pelo abandono do ideário do partido e por sua conversão em antro, altar ou caverna de corruptos.”

Se a editora que rechaçou a obra viu nessas digressões uma falha na narrativa, deve-se apontar o equívoco, porque este recurso é válido para o desenvolvimento do romance, se feito com apuro linguístico, sem tornar o texto algo didático. Risério se saiu muito bem nesse quesito, melhor ainda quando o “desabafo”, para usar de outra expressão condenada pelo selo editorial, vem da boca das personagens:

“— Digo que falsificar a história, seja para legitimar golpes ou para permanecer no poder a qualquer preço, não é prática incomum na política. Os militares que deram o golpe de 1964, derrubando Jango, fizeram isso. Hoje, entre nós, imbatível nesse desempenho é o PT. O partido promove uma leitura absolutamente falsificadora da história recente do país. É uma espertíssima jogada discursivo-marqueteira, que se aproveita da proverbial falta de memória dos brasileiros e aprofunda irresponsavelmente a alienação da consciência popular no país.”


Pode-se considerar, sem parecer exagero, Que você é esse? um exemplo de romance total, daqueles monumentos literários que tentam abarcar vários temas possíveis. Antonio Risério, antes chamado somente de poeta e antropólogo, pode ser lembrado agora como romancista. E dos bons.

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