Sobre "Uma impostora em Harvard", de Jacques Fux
O romance de um impostor
por Cassionei Niches Petry
O romance tem como título Uma impostora em Harvard e é assinado por um escritor chamado Jacques Fux. A narração é em primeira pessoa, dando voz à protagonista, a suposta impostora, com interpolações de “cartas” de uma professora direcionadas à estudante que tenta ingressar na universidade. Na verdade, o impostor é o próprio autor que, ao que aparece, estudou em Harvard, como ele nos leva a crer que também o faz a personagem, chamada simplesmente de K.
Por que K.? Kafka e seu romance O castelo me vêm à mente. Assim como o protagonista kafkiano tenta ingressar em um impenetrável castelo, a protagonista de Fux tenta ingressar na famosa instituição onde estudaram centenas de ganhadores do Prêmio Nobel (vale lembrar que outro romance do autor se intitula Nobel, em que próprio Jacques Fux recebe o Nobel de Literatura. É ou não é um impostor?), não só no intuito de ser aceita como estudante, mas da mesma forma para ser aceita nos herméticos círculos acadêmicos.
K. mesmo é quem se julga impostora: “Com certeza, eu só poderia me sentir uma impostora por lá”. O próprio romance não deixa de ter esse predicado, uma vez que temos um apanhado de cenas permeadas por reflexões ensaísticas sobre escritores, filósofos, historiadores e sociólogos. Falta enredo e o clímax é um anti-clímax. Fux nos engana, trapaceia. E nós, leitores que admitimos gostar desse tipo de romance, nos deixamos ser ludibriados.
A estudante K. se relaciona, intelectualmente e às vezes afetivamente, com os demais personagens, muitos deles reais, professores renomados que lecionaram em Harvard, como Homi Bhabha e Nicolau Sevcenko: “Nicolau era mais que um historiador-literário nada ortodoxo; era um contador de histórias, um mágico, um poeta mítico e místico.” Nada ortodoxa é a narrativa de Fux, vide outra de suas obras, Meshugá, que já resenhei aqui no blog “Uma biblioteca na cabeça” (clique aqui, leitor, se lhe interessar apreciar a outra resenha, também nada ortodoxa).
Bastante citado em Uma impostora em Harvard é o escritor (nada ortodoxo) David Foster Wallace, outro célebre aluno da universidade (seus livros também foram resenhados por este escriba). Mencionando uma entrevista do autor de Graça infinita, a professora Dra. M. K. pergunta em uma das cartas à protagonista: “É isso que suas imposturas pretendem, K? Uma impostora em busca de retratar esse mundo de trevas e iluminar possibilidades?”
O bom artefato literário de Jacques Fux faz justamente isso.



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