Tem como fugir do Big Brother?


Tem como fugir do Big Brother?


A maneira como o programa Big Brother Brasil toma conta da nossa vida me faz lembrar do relato “Casa tomada”, do escritor argentino Julio Cortázar. Nesse conto, publicado no livro Bestiário, de 1951, dois irmãos escutam barulhos vindos de alguns cômodos da ampla residência onde viviam sozinhos há muitos anos:  “O som vinha impreciso e surdo, como o tombar de uma cadeira sobre tapete ou um abafado murmúrio de conversação.” Desconfiam que cada peça está sendo ocupada, não sabem por que ou por quem. Continuam com suas tarefas diárias (limpeza, leituras, tricô) como se tudo fosse normal. A ocupação vai se espalhando por toda a casa, até que lhes resta ficar na rua.

É o que, de certa forma, sinto quando estou na internet e acesso às redes sociais ou mesmo site de notícias ou ligo a televisão. Aos poucos, tudo que se relaciona ao reality show global vai tomando espaço nos canais de comunicação de tal forma que não se pode escapar. Mesmo não assistindo, ou não querendo me informar sobre o programa, sei que vou ficar sabendo de tudo o que vai acontecer lá dentro, assim como vou ter que ouvir parentes, amigos e colegas de trabalho falando sobre os personagens da casa mais vigiada do Brasil. 

Tento entender, através dos meus textos, o ser humano e suas relações com o mundo. Nesse sentido, não posso fugir daqueles que estão invadindo minha casa. Mesmo odiando o tal do BBB, não posso me furtar de escrever sobre a atração multimídia e relacioná-la, por exemplo, à literatura (como fiz em um texto anterior neste espaço, ao lembrar o romance 1984, de George Orwell, de cujo personagem, chamado o Grande Irmão, surgiu a inspiração para o nome do programa), à mitologia e à psicanálise (neste jornal, há alguns anos, escrevi sobre o narcisismo dos participantes do programa) ou ao teatro, como pretendo fazer numa próxima crônica.

Provocar no leitor a reflexão e o olhar crítico sobre tudo o que nos cerca é uma boa justificativa para escrever e publicar. Enquanto, claro, não apareça um Grande Irmão e nos prive dessa liberdade.

 

Cassionei Niches Petry – professor e escritor, autor de Desvarios entre quatro paredes. É membro da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul.


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