O CASARÃO


por Cassionei Niches Petry
Se eu não visse a jovem lendo tranquilamente o jornal na varanda, pensaria que a casa estivesse abandonada. Uma tabuleta, meio escondida por alguns arbustos, indicava que a propriedade estava à venda. Gritei com licença! e abri com dificuldade o enorme portão. Chegar até a casa foi também tarefa árdua, visto que a grama alta tomava conta do caminho. Pode vir que não tem perigo, disse a moça. Atravessei correndo o matagal. Ela riu e disse você é medroso!
A jovem era muito bonita, bem vestida, limpa, em contraste com o estado de conservação da varanda e de todo exterior da casa. Perguntei como você consegue ficar no meio de toda esta poeira e teias de aranha? Ela apenas sorriu e me estendeu a mão.
Leu o anúncio no jornal, não é verdade? Pois então entre pra conhecer a casa por dentro. É diferente do que o lado de fora, porque eu não tenho ninguém que limpe o pátio ou cuide da pintura da casa. Vivo sozinha aqui. Meu nome é Carla. E o seu? Pois então, Bruno, vamos entrando. Já digo pra não se preocupar com o preço. Depois acertamos direitinho, está bem?
Logo ao entrar na casa tive a sensação de que eu ficaria ali para sempre. Era uma belíssima construção, digna de figurar nas mais belas páginas da literatura universal. Cada cômodo que ia conhecendo me deixava cada vez mais fascinado. Já nas primeiras salas dava para adivinhar o que seria o resto da casa: os móveis eram feitos de madeira da melhor qualidade, havia tapetes persas e quadros de pintores famosos. Imaginei-me sentado na frente da lareira acesa, lendo um bom livro e com o cachimbo na boca. Era tudo o que eu havia sonhado.
Subindo as escadas, fomos ver os quartos. Eram mais de dez. A primeira coisa que me chamou a atenção foram as cabeceiras das camas. Possuíam desenhos talhados na madeira, feitos pelo melhor artesão da capital. Também era no andar de cima a parte que para mim seria a mais importante e que foi deixada para ser mostrada por último: a biblioteca.
Ninguém mais gosta de casas antigas. Faz tempo que tento vender esta aqui. Vieram mais de dez pessoas que só olharam e depois foram embora dizendo que iriam falar com a família e nunca mais voltaram. Mas você, pelo jeito, é saudosista, acertei? Pois é, tenho absoluta certeza de que você vai ficar na casa.
Antes de chegarmos à biblioteca, ouvi um barulho num dos quartos de onde acabáramos de sair. Perguntei a ela o que poderia ser e me respondeu que não ouvira barulho nenhum. Não passava de imaginação da minha cabeça, sugeriu. Vamos ver a biblioteca?
A possibilidade de comprar uma casa com uma biblioteca montada foi o que me conquistou no anúncio. São mais de 26.000 volumes, ela disse, todos ricamente encadernados. Quase não estava acreditando naquilo, por isso perguntei os livros vão ficar? Ela respondeu tudo será seu pelo resto dos seus dias, menos os bonecos de pano que vou lhe mostrar agora.
Entramos em um quartinho que havia junto à biblioteca. Era mobiliado apenas por uma cama de solteiro bem simples e uma estante com doze bonecos de trapo enfileirados. Carla disse foi minha falecida avó que fez os bonecos. São bonitos, eu disse, apesar de tê-los achado horríveis. Quis observá-los mais de perto, pois eram idênticos a pessoas de verdade. Não toque neles, idiota!, ela gritou. São relíquias e vou levar todos comigo. Tudo bem, eu disse, um pouco assustado com a mudança de humor da jovem. Apalpei o colchão e perguntei posso ficar com esta cama? E ela, mais irritada ainda, respondeu já falei que você pode ficar com tudo, menos com os bonecos, droga!
Logo depois ela saiu do quarto visivelmente alterada. Fiquei me perguntando o que poderia ter havido com a moça. Se fosse por causa dos bonecos ela não precisaria se preocupar. Eles não me interessavam. O que eu estava imaginando era em fazer daquele quartinho escondido o meu escritório, o refúgio onde poderia escrever meus livros e ler.
Distraído, não percebi que havia voltado. Agarrou-me por trás e amarrou minhas mãos com um retalho de tecido. Usando uma agulha de costura, furou meu pescoço. Ainda tive tempo de ver, escorada na porta, uma velhinha que sorria para mim.
http://recantodasletras.uol.com.br/contos/1757001

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