A irmandade da leitura


Crônica de Moacyr Scliar, na ZH deste domingo:

Numa época, era costume, entre alguns grupos de jovens, andar com um livro sob o braço. Era o que se chamava ironicamente de cultura de sovaco, e tinha uma dupla finalidade: ter sempre algo disponível para ler na fila do banco, ou na parada do ônibus, ou na lanchonete. Servia também para identificar o portador do livro como membro de uma irmandade: a irmandade da leitura, formada por aquelas pessoas que veem no texto uma privilegiada porta de acesso ao mundo em que vivemos. E que são ajudadas por esta peculiaridade da anatomia humana, que é a conformação da axila. O sovaco não é bem algo do qual possamos nos orgulhar; jamais alguém dirá de um homem algo como: Que belo sovaco ele tem!. Ao contrário, a axila é a principal fonte do CC, o Cheiro de Corpo, que faz a alegria da poderosa indústria do desodorante. Mas, humilde como é, o sovaco revelou-se, para a literatura, um abrigo ideal. A tarefa de levar o livro fica consideravelmente simplificada, porque as mãos ficam livres. Além disso, o sovaco fica perto da intimidade do corpo, do coração que bate mais forte com as emoções da leitura, dos pulmões, que nos lembram a inspiração, literária, inclusive.
As pessoas que fazem parte da irmandade da leitura reúnem alguns característicos especiais. Em primeiro lugar, têm uma necessidade quase orgânica, quase visceral do texto; seu olhar só encontra tranquilidade e alegria quando pousa na página impressa, em geral de um livro, mas pode ser também um jornal, uma revista, uma bula de remédio – qualquer coisa para ler. Essas pessoas também têm uma atração irresistível por livrarias. Podem estar atrasadas, a caminho de um compromisso urgente, mas se passarem por uma livraria entrarão, e muito provavelmente sairão de lá com um livro (talvez no sovaco). E por último, mas não menos importante, essas pessoas ficam felicíssimas quando alguém, numa roda de conversa, pergunta: “Vocês já leram o último livro do...” Não importa o autor, ou a autora, não importa o título do livro; o que importa é que alguém vai falar em literatura, identificando-se, portanto, como membro da irmandade da leitura.
Muitas vezes a irmandade se institucionaliza sob a forma, por exemplo, de oficinas de leitura ou de grupos de leitura, atualmente muito comuns. Isto não tem impedido que algumas pessoas mostrem-se apreensivas em relação ao futuro do livro. Por causa das novas técnicas eletrônicas que, dizem, vão mudar o objeto chamado livro. A mim, particularmente, isso não preocupa. Há uns meses vi, no aeroporto de Chicago, um rapaz com o Kindle, aquele dispositivo eletrônico que permite baixar textos à distância. Ele carregava-o sob o braço. Nas axilas dos verdadeiros leitores há lugar para todas as aventuras do intelecto humano.

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