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Na Gazeta do Sul de hoje


Minha resenha sobre o romance Indignação, de Philip Roth foi publicada no jornal Gazeta do Sul de hoje.
http://www.gazetadosul.com.br/default.php?arquivo=_noticia.php&intIdConteudo=123328&intIdEdicao=1940

O romance do indívíduo

Philip Roth, leitor de Machado de Assis? Confesso que me fiz essa pergunta ao começar a ler o seu novo romance, Indignação (Companhia das Letras, 170 páginas, tradução de Jorio Dauster), pois logo me veio à mente o personagem Brás Cubas, relatando, depois de morto, fatos de sua vida. O personagem do escritor norte-americano, porém, pensa que morreu, mas está na verdade sob efeito da morfina, como indica o título da primeira parte do livro.
Marcus Messner, jovem americano, vai estudar na universidade de Winesburg, longe de sua casa em Newark, para se livrar do seu pai, açougueiro kosher (uma espécie de açougueiro oficial dos judeus, pois sabe preparar a carne de acordo com os preceitos da religião) cuja marcação cerrada na sua vida o deixava indignado. Mas essa ainda não é a indignação que dá título ao livro.
Outro motivo para estar estudando é se livrar da Guerra da Coréia, iniciada em 1950. Esse episódio mostra mais uma vez a veia histórica dos textos de Roth, ao realizar uma análise da sociedade americana. Nesse caso, uma sociedade conservadora e controladora, anticomunista e religiosa ao extremo. Aliás, a questão religiosa é fundamental para o enredo e, estranhamente (ou não), esse fato não apareceu nas resenhas sobre a obra nos jornais e sites literários. E é aqui que está a indignação do título.
Messner era um ateu convicto, o que era praticamente um suicídio social. Em uma das passagens mais brilhantes da narrativa, o rapaz debate com o diretor da universidade, doutor Caudwell, sobre religião. Marcus se vale da leitura de uma conferência do filósofo Bertrand Russell, intitulada “Porque não sou cristão” e publicada em um livro com o mesmo nome. Um dos argumentos de Russell se refere à causa primeira de Tomás de Aquino. Diz o filósofo e matemático britânico: “Se tudo precisa ter uma causa, então Deus precisa ter uma causa. Se é possível existir alguma coisa sem uma causa, tanto pode ser o mundo quanto Deus.” E prossegue o jovem relatando o que decorou do livro. Caudwell responde dizendo que não se poderiam levar a sério os argumentos de um imoral como o britânico, considerado subversivo pelo governo americano. Mesmo com a possibilidade de ser expulso, Marcus não abre mão de seu pensamento, mantendo sua postura independente, o que para o diretor é uma fuga aos problemas. E é justamente essa sua postura religiosa a causa de sua morte, por se negar a assistir aos encontros religiosos obrigatórios. Philip Roth volta ao tema trabalhado no conto “O defensor da fé”, do seu livro de estréia Adeus, Columbus. O motivo de a crítica, principalmente a brasileira, não destacar esse fato também seria por medo de pressão dos religiosos?

Roth também volta a retratar um personagem jovem, como fez em O complexo de Portnoy, depois de vários romances que abordavam a velhice, principalmente de seus personagens mais recorrentes: Kepesh e Zuckerman. As memórias de Messner são de um rapaz procurando apenas viver sua vida sozinho, cuidar de si mesmo, estudar, não se envolver com nenhum grupo de pessoas. Porém, se vê arrastado pela ditadura do coletivo, do que os outros querem que você faça: seja o diretor que o quer fazendo amizades com os outros colegas e que acredite em Deus, ou seus colegas que o convidam para entrar em uma das irmandades da instituição, ou sua mãe a qual não o quer se envolvendo com uma mulher como Olivia, cujo os pulsos tinham cicatrizes, ou o país que o quer numa guerra, para morrer junto com outros jovens por uma causa que não é sua.

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