domingo, maio 31, 2009

Borges e Poe



L. F. Verissimo, sempre se superando. Publicado na ZH de hoje.

Num livro fascinante chamado The Mistery to a Solution (O Mistério de uma Solução), o americano John T. Irwin trata da ligação de Jorge Luis Borges com Edgar Alan Poe. Ligação, no caso, direta, pois Borges fez questão de escrever cada uma das suas três histórias policiais baseadas em Poe exatamente cem anos depois da publicação de cada uma das três histórias do Poe que deram início ao gênero. Os dois autores tinham em comum o gosto por enigmas e sentidos cifrados, e tamanho era o prazer do Borges com jogos literários que ele deve ter planejado esta simetria para poder reivindicar uma espécie de coautoria nos mistérios do Poe. A simetria faria parte do significado das obras conjuntas.
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Mas Irwin chama atenção para diferenças na vida dos dois que determinaram diferenças importantes nas suas histórias. Mesmo arriscando cair num psicologismo superficial, lembra que Poe perdeu a mãe quando ainda era criança enquanto Borges teve a mãe ao seu lado até quase a velhice. Borges propôs suas histórias como o avesso das histórias de Poe e a principal distorção das suas versões é que suas vítimas nunca são mulheres, enquanto as vítimas do Poe sempre são mulheres. Borges não conseguia imaginar sua mãe, tão presente em sua vida, vitimada. Poe passou a vida castigando a sua pela ausência.

O precursor dos dois foi Édipo – o verdadeiro primeiro detetive da literatura - mas, separados por cem anos, Poe e Borges divergiram na escolha dos mitos básicos dos seus respectivos mistérios. Poe chegou a escrever sobre sua dívida literária a Édipo. Borges, reescrevendo Poe, preferiu a figura de Teseu, o matador do Minotauro, no centro do seu labirinto de significados. Teseu não casa com a própria mãe nem a leva ao suicídio.
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Uma vez imaginei a cena da mãe do Borges lendo para o filho cego.

Lendo os clássicos, e os velhos favoritos de Borges, mas exercendo seu direito de revisar o texto de acordo com sua sensibilidade de mãe. Assim, no Hamlet lido pela Sra. Borges o angustiado herói reconcilia-se com a mãe Gertrude, ouve seus conselhos, abandona seus planos de vingança, casa-se com Ofélia, e os dois vivem felizes para sempre. Todos os personagens de Dostoievski, orientados pela mãe, escapam do seu destino trágico e encontram a felicidade.

– Madre, não é assim que eu me lembro dessas histórias...

– Assim elas ficam melhores, hijo.

– Eu deveria ter desconfiado da senhora desde o tempo em que tentava me convencer que a colher com a comida era uma aviãozinho...

– O que vamos ler agora, hijo?

– Kafka.

– Ótimo, adoro comédia.

Na versão revisada de Édipo, depois de ouvir insinuações ele manda investigar sua própria vida, descobre que o rei que matou era o seu pai e que está vivendo incestuosamente com a viúva do rei, sua mãe. Depois de receber o relatório da investigação, decide que precisa escolher: ou renunciar ao trono, arrancar os olhos e levar sua mãe ao suicídio, ou pagar pelo relatório, incinerá-lo e continuar rei, depois de declarar que todas as conjeturas a seu respeito não passam de um mito. Aconselhado pela mulher, que também é, convenientemente, sua mãe, escolhe a segunda opção.

sábado, maio 30, 2009

E começa hoje a Feira do Livro de Santa Cruz, cujo patrono é Charles Kiefer. Parando esta chuva, vou lá fuçar nos balaios e comprar livros em espanhol na Calle Corrientes.

“O maior pavor humano é o da expansão da consciência. Toda a parte assustadora, hedionda da mitologia deriva desse medo. “Vivamos em paz e harmonia!, suplica o medíocre. Mas a lei do universo determina que a paz e a harmonia só podem ser conquistadas pela luta íntima. O medíocre não quer pagar o preço desse tipo de paz e harmonia: quer encontrá-lo já pronto, feito terno confeccionado em série na fábrica.”
Trecho de "A hora do assassino", de Henry Miller, citado na coluna do Romar Belling, no caderno Magazine da Gazeta do Sul de hoje.

quinta-feira, maio 28, 2009

Texto de L. F. Verissimo na ZH de hoje

A coruja do Hegel

Já me recomendaram que começar um texto citando Hegel (Georg Wilhelm Friedrich, século 19, alemão, muito alemão) serve a dois propósitos: criar no leitor uma expectativa de profundidade ou espantá-lo logo nas primeiras linhas, pois quem tem tempo para o Hegel hoje em dia? A você que continua a ler devo avisar que a tal profundidade não virá. Recorro a Hegel, ou à coruja do Hegel, para fins estritamente superficiais.
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Hegel certa vez comparou a filosofia com a coruja da deusa Minerva, que carrega toda a sabedoria do mundo mas só voa ao anoitecer, quando não há mais luz para aproveitá-la. O que Hegel quis dizer (eu acho) é que qualquer período histórico só pode ser compreendido quando está no fim, e que a filosofia sempre chega tarde para explicá-lo. No fundo, estava denegrindo o seu ofício. Ninguém tratou de interpretar a História com mais densidade do que Hegel, mas no fim todas as suas teses e todo o seu palavrório não passavam do voo tardio de uma coruja inútil, no seu próprio conceito.
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Quando aquele outro alemão denso, o Marx, escreveu que os filósofos não podiam mais se contentar em interpretar o mundo e deveriam tentar mudá-lo, estava, sem citá-la, reivindicando um voo mais consequente da coruja e um aproveitamento mais prático da sua sabedoria. O que Marx propunha era que a coruja, voando mais cedo, vencesse o vasto abismo que separava a filosofia da política. Um abismo que não começara com Hegel, mas existia desde que Platão, desgostoso com a execução de Sócrates, renunciara à atividade política. Marx recrutava a coruja para a sua revolução. Se todo o marxismo pode ser visto, algo simplistamente, como uma crítica de Marx a Hegel, o que mais diferenciava os dois era sua opinião sobre os usos da filosofia, ou sobre a relevância da coruja e suas explicações.
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No fim, o que Hegel diz com sua metáfora é o óbvio, que a gente vive para frente mas compreende para trás, e que nenhuma filosofia ajuda a percorrer o caminho já percorrido. Na sua crítica, Marx sustenta que o caminho percorrido nos mostra para onde ir e que a filosofia é que diz isso para a História. Por mais atrasada que chegue a coruja.

sábado, maio 23, 2009

Vitória contra o racismo


Deu na Zero Hora de hoje
EUA
Vitória contra o racismo
Cidade americana famosa por ter sido palco de crimes raciais na década de 60 elege o seu primeiro prefeito negro

Para o americano James Young, sua vitória pode ser comparada a uma “bomba atômica da mudança”. Famosa por ser uma das cidades mais racistas dos EUA e por ter sido o palco de um triplo homicídio de ativistas dos direitos civis na década de 60 – crime que inspirou o filme Mississippi em Chamas –, Philadelphia, no Mississippi, sul dos EUA, elegeu esta semana o primeiro prefeito negro de sua história.

Possivelmente beneficiado por um “efeito Barack Obama”, Young, 53 anos, derrotou o atual prefeito, Rayburn Waddell, por uma diferença de apenas 46 votos. Aproximadamente 55% dos 8 mil habitantes da cidade são brancos, como Waddell.

– Eu não poderia imaginar isso nem em um conto de fadas. Quem poderia prever que um garoto do campo como eu se tornaria prefeito de Philadelphia? Principalmente levando em conta a forma como fomos tratados – disse Young à rede de TV CNN, derramando-se em lágrimas.

O prefeito eleito ainda recorda a época, durante sua infância, em que o grupo racista Ku Klux Klan atormentava seu bairro. Lembra também a imagem do pai segurando uma arma na sala, preparado para atirar contra qualquer um que ameaçasse a família.

Philadelphia – que não deve ser confundida com a cidade homônima mais famosa, no Estado da Pensilvânia – entrou para a história dos EUA em 21 de junho de 1964. Nesse dia, três ativistas dos direitos civis – James Chaney, 21 anos, negro, Andrew Goodman, 20, e Michael Schwerner, 24, ambos brancos – foram mortos a tiros pela Ku Klux Klan na entrada da localidade.

Young afirma que, hoje, passados quase 45 anos, alguns moradores ainda não votariam nele pelo simples fato de ser negro, mas acredita que esse número vem encolhendo cada vez mais à medida que o tempo passa.

– Temos alguns que jamais mudarão. É preciso conviver com isso – diz.

O prefeito eleito atribui a vitória à campanha corpo-a-corpo. Um dos primeiros alunos negros a estudar em um colégio branco em Philadelphia, ele foi paramédico e também é um líder religioso pentecostal.

segunda-feira, maio 18, 2009


CERRAR LOS OJOS, por Mario Benedetti, Montevideo 2008

Cerremos estos ojos para entrar al misterio

el que acude con gozos y desdichas

así / en esta noche provocada

crearemos por fin nuestras propias estrellas

y nuestra hermosa colección de sueños

el pobre mundo seguirá rodando

lejos de nuestros párpados caídos

habrá hurtos abusos fechorías

o sea el espantoso ritmo de las cosas

allá en la calle seguirán los mismos

escaparates de las tentaciones

ah pero nuestros ojos tapados piensan sienten

lo que no pensaron ni sintieron antes

si pasado mañana los abrimos

el corazón acaso de encabrite

así hasta que los párpados

se nos caigan de nuevo

y volvamos al pacto de lo oscuro

Benedetti (1920 - 2009)

Perdemos um dos maiores escritores da América Latina, Mário Benedetti.

domingo, maio 17, 2009

Falou e disse...


"Um escritor é alguém congenitamente incapaz de dizer a verdade. Por isso, o que ele escreve chama-se ficção." Willian Faulkner.

Neste ano estou programando uma releitura de sua obra, sobre a qual escreverei aqui.

sábado, maio 16, 2009

ZH de domingo

Texto de uma professora que está na Zero Hora deste domingo:

ARTIGOS

Aula... ou espaço do nada?, por Janeta Pires*


Mais um dia de aula. E mais um dia em que a gritaria, o deboche, o desprezo e o desrespeito comandam o espetáculo denominado sala de aula. É a festa liderada por dois ou três alunos os soberanos das façanhas ousadas, os heróis corajosos que enfrentam as professoras com arrogância destemida, no cotidiano das aulas. Aos poucos, outros seguem o exemplo, entram no embalo e a confusão aumenta. A aula, aos poucos, confunde-se com um vazio sem nexo. Não é uma aula. Não é uma festa. Não é nada! É o desmando.


A professora decide iniciar a aula, interfere – um bom-dia é dirigido aos alunos. Poucos ouvem e muitos ignoram. A seguir, a proposta da aula é comunicada. A maioria, entretanto, nem ouve. A professora se impõe e fala mais alto – para alguns é grito, desrespeito... É neste momento que os “líderes” agem com mais vibração. De forma descontraída, aos risos e gritos, circulam pela sala a pedir material emprestado, a segredar assuntos e a reclamar da professora, pois ela “grita com eles”...

Na tentativa de amenizar a confusão, a professora providencia o material que os alunos dizem ter esquecido – o lápis, a borracha, o caderno ou o livro-texto. Poucos momentos após – “achei meu lápis, meu caderno...”. O descaso invade o momento do saber – o desrespeito, o deboche e a farsa fazem da aula um mundo sem perspectivas.

Na verdade, a aula é comandada pelas artimanhas da “patrulha do faz de conta”. Então, através de alusões infundadas, de ameaças à professora, eles ignoram os conteúdos e as normas de convivência social – são os donos da situação. O restante da turma, refém da bagunça doentia, fica inerte, petrificado. A professora? Ah! Esta é mera figura decorativa.

Mas... e a aula, os conteúdos, o saber, onde é que ficam?

A ausência de ideais, de sonhos, de conquistas, anestesiam a vontade de muitos alunos e, desta forma, a violência mostra-se cada vez mais arrogante, ameaçadora e incontrolável, o que entrava o desenvolvimento cultural e assegura um rendimento escolar medíocre.

A sala de aula, hoje, é um espaço doentio, no qual o professor é torturado das mais diversas formas – verbal, gráfica e mímica, através de palavras, de gestos e desenhos obscenos e até sinistros. O aluno que não segue o “comando”, coitado, mesmo quieto, não passa ileso. É vítima desta turma – além da perturbação sonora, pouco ou nada aproveita da aula. Se é que este momento pode ser chamado de aula!

Este descontrole cultural e social terá alguma conotação com os resultados das avaliações em que o Brasil só tem atingido os últimos lugares? No teste do Pisa, de 2006, o Brasil conquistou o 52º lugar dos 57 países avaliados.

*Professora


quinta-feira, maio 14, 2009

Eu estou me lixando para você, leitor

Texto do antropólogo Roberto DaMatta, no Estadão de ontem, sobre "o deputado que se lixa para a opinião pública" Sérgio Moraes:

Roberto DaMatta

Eu estou me lixando para você, leitor

"Se eu digo isso, o jornal me despede; se um comerciante tem essa atitude, ele vai à falência; se um pai de santo, ministro, rabino ou sacerdote repete o mote, ele faz suas orações sozinho e não salva ninguém; se um professor adota esse credo, ele não merece dar cursos; do mesmo modo que um médico, um juiz, um policial, um engenheiro e um advogado deixariam morrer os doentes, perderiam o senso de justiça, do limite e da eficiência. Seria o fim deste nosso mundo chamado de moderno, e olha que eu estou apenas mencionando as profissões mais estabelecidas.

Quando um membro do Parlamento, um servidor público importantíssimo e privilegiado, porque representa uma massa de desejos e esperanças de uma região do País, diz que está ‘se lixando para a opinião pública’, como fez o deputado federal Sérgio Moraes, do PTB do Rio Grande do Sul, ele não fala apenas uma triste verdade; ele revela a nossa ignorância do que é viver numa sociedade democrática e liberal. O credo do ‘estou me lixando’ não é privilégio do deputado gaúcho, mas da hierarquia existente entre os que têm poder e nós, as pessoas comuns. Ela foi dita por Sérgio Moraes, mas está implantada no imenso vazio existente entre as formalidades - as tais instituições e leis, que vão resolver tudo e são feitas por ideologias, governos e decretos - e as crenças e práticas antigas que ainda comandam com força o nosso sistema. A questão não é a de denunciar a clara arrogância do parlamentar, o problema é tomá-la como um claro sintoma da total separação entre o lado de lá e o de cá do balcão. Pois quando parlamentares se lixam para a opinião pública, eles perdem a consciência de que foram por ela eleitos!

Como um médico pode se lixar para um doente, um professor para um aluno, um vendedor para seu cliente e um deputado para a opinião pública se, em todos os casos, são papéis sociais complementares que existem em total interdependência, já que ser médico implica enfermos, ensinar supõe um aprender, e não há venda sem compra; tal como ser um representante do povo aciona automaticamente a ideia de um representado: o próprio povo. Esse representado cujo espírito ou índole (ou ‘vontade geral’, como disse Rousseau) forma o que nós, democratas e modernos, chamamos entre outras coisas de ‘opinião pública’, esse quarto ou quinto poder em qualquer democracia liberal; esse sistema nebuloso que tem todos os defeitos, mas quando opera com liberdade, caracteriza-se pela constante renovação de seus valores. Esses valores inatingíveis como liberdade, igualdade e fraternidade. Essas causas perdidas em perpétua busca de encarnação institucional e política.

Não se precisa ir a Locke, Rousseau ou a Weber para descobrir que a legitimidade se faz justamente na relação que o sistema representativo moderno esconde e revela. Revela-se no processo eleitoral quando os candidatos se dizem pais, protetores ou representantes do povo, o qual, num mercado dos candidatos, escolhe os de sua preferência. E esconde-se nas rotinas parlamentares, nas quais esse laço dever ser renovado e honrado na busca de leis, causas e projetos que façam avançar a vida dos representados. A menos que se reinterprete, como sempre fazemos no Brasil, o liberalismo pelo viés aristocrático mal resolvido, vigente na sociedade, e se admita que a investidura num cargo público conceda ao investido a propriedade deste cargo como ocorre nas aristocracias. Nelas, a legitimidade está apenas do lado da nobreza que, por direito divino, é definida como superior à plebe, mas cuja obrigação seria dela ‘cuidar’, como tem redescoberto o nosso o populismo. A nobreza, porém, perde legitimidade quando o laço de honra, de obrigação e de honestidade que deve marcar os seus laços com a plebe, não é levado a sério. Ou seja, quando ela faz como o deputado e se lixa para a opinião pública. Maria Antonieta e os Luizes não se lixavam, mas davam pão e circo para o povo. Sabiam que entre governantes e a opinião pública deveria haver algo mais do que descaso, insulamento político e arrogância aristocrática.

Nas democracias, se o laço entre representantes e representados torna-se tênue, instala-se um processo de ilegitimidade. Ora, esse lixar-se para a opinião pública revela o tamanho da crise de legitimidade que decorre da aristocratização dos governantes, ao lado de uma sociedade redemocratizada pela livre iniciativa, por um mercado cheio de energia e por uma moeda estável: um único dinheiro que vale a mesma coisa para todos. Num Brasil onde todos pagam uma enormidade de impostos e, com eles, os salários de todos os governantes, vai ficando cada mais intolerável ter Câmara, Parlamentos, Ministérios e executivos aristocratizados com o meu, o seu, o nosso dinheiro. Mais: vai ficando impossível verificar que é a sociedade que trabalha para o Estado e não justamente o oposto.

É duro observar uma súcia majoritariamente incompetente (com alguns criminosos em seu meio) viver como nobres e milionários, tendo, além de tudo, o desplante de declarar que nós, a opinião pública, nada temos com eles."

segunda-feira, maio 11, 2009

Entendendo o cinema (Griffith parte 1)

Fonte: Wikipédia

David Llewelyn Wark Griffith, geralmente conhecido por D.W. Griffith (20 de Janeiro de 1875–23 de Julho de 1948) era um diretor de cinema estadunidense. É mais conhecido pelo seu controverso filme O Nascimento de uma Nação.

Biografia

Griffith nasceu em La Grange, Oldham County, Kentucky, filho de Jacob "Roaring Jake" Griffith, um colono do Confederate Army e herói da Guerra Civil Americana. Começou sua carreira como um próspero dramaturgo mas não conseguiu sucesso. Depois se tornou ator. Encontrando seu caminho no cinema, em pouco tempo dirigia um grande corpo de trabalho.

Entre 1908 e 1913 (os anos que dirigiu para a American Mutoscope and Biograph Company), Griffith produziu 450 curtas, um número enorme mesmo para a época. Esse trabalho o possibilitou experimentar com montagem paralela, movimentos de câmera, planos detalhe, e outros métodos de manipulação espacial e temporal.

Na primeira viagem de Griffith para a Califórnia, ele e sua empresa descobriram uma pequena vila para filmar. Esse lugar era conhecido como Hollywood. Com isso, American Mutoscope and Biograph Company foi a primeira empresa a filmar em Hollywood: In Old California (1910).

Influenciado pelo longa italiano Cabiria, Griffith se convenceu de que longas poderiam ser viáveis financeiramente. Produziu e dirigiu o longa Judith of Bethulia da Biograph. Esse foi um dos, senão "O" primeiro longa produzido nos Estados Unidos. A Biograph achava que os longas não eram viáveis, e como atriz, Lillian Gish disse: "Eles (Biograph) acharam que um filme tão longo iria machucar os olhos deles (audiência)". Por causa disso, e do aumento no orçamento pelo filme que custou 30.000 dólares na produção, Griffith e a Biograph se separaram, sendo que Griffith levou todos os seus atores consigo. Sua nova empresa se tornou um parceiro autônomo de produção na Triangle Pictures Corporation com os Keystone Studios e Thomas Ince. Através da David W. Griffith Corp. ele produziu O Nascimento de Uma Nação (1915).

O Nascimento de Uma Nação foi extremamente popular mas expressava a visão racista da época. Há uma cena no filme na qual a Ku Klux Klan galopa para salvar uma heroína. A parceria terminou em 1917, então Griffith foi para a ArtCraft (parte da Paramount Pictures), depois para a First National (1919-1920). Ao mesmo tempo fundou a United Artists, junto com Charles Chaplin, Mary Pickford e Douglas Fairbanks.

Apesar da United Artists ter sobrevivido como empresa, a ligação de Griffith com ela foi curta, e apesar de alguns de seus filmes posteriores serem bons, ele nunca mais conseguiu sucesso comercial. Entre os longas dessa época estão Broken Blossoms or The Yellow Man and the Girl (1919), Way Down East (1920), Orphans of the Storm (1921) e America (1924). Griffith fez apenas dois filmes com som, Abraham Lincoln (1930) e The Struggle (1931). Nenhum foi bem sucedido e ele nunca mais fez filmes.

Realizações

Griffith foi considerado o pai da gramática cinematográfica. Alguns estudiosos ainda sustentam que suas "inovações" realmente começaram com ele, mas Griffith foi uma figura chave no estabelecimento de um conjunto de códigos que se tornou a coluna dorsal da linguagem cinematográfica. Ele foi particularmente influente ao popularizar a montagem paralela—o uso da montagem para alternar diferentes eventos que ocorrem simultaneamente&emdash;para construir o suspense. Dito isso, ele ainda usava muitos elementos da maneira "primitiva" de fazer cinema, que existiu antes do sistema clássico de hollywood de continuidade, como atuação frontal, gestos exagerados, movimentos de câmera mínimos, e a ausência de câmera subjetiva. Alguns dizem, inclusive, que ele "inventou" o plano detalhe.

Os créditos das inovações cinematográficas de Griffith devem ser compartilhados com seu operador de câmera por muitos anos, Billy Bitzer. Além disso, ele mesmo creditava a lendária atriz do cinema mudo Lillian Gish, que participou em vários de seus filmes, por ter inventado uma nova forma de atuação para o cinema.

Griffith era uma figura muito controversa. Imensamente popular na época de sua estréia, o filme O Nascimento de Uma Nação (1915), baseado na novela The Clansman foi considerado por alguns como uma visão da história a partir da supermacia branca, e a NAACP tentou banir o filme. Como não conseguiram, eles tentaram posteriormente censurar algumas cenas do filme.

Legado

A lenda do cinema Charles Chaplin chamou o Griffith de "O professor de todos nós". Esse sentimento foi amplamente compartilhado. Cineastas diversos como John Ford e Orson Welles já falaram de seu respeito pelo diretor de Intolerância. Embora ele não tenha inventado novas técnicas para a gramática do cinema, ele parece ter sido o primeiro a entender como essas técnicas poderiam ser usadas para criar uma linguagem expressiva. Nos curtas iniciais, como o The Musketeers of Pig Alley (1912), que foi o primeiro filme de mafiosos, podemos ver como o posicionamento de câmeras e a iluminação aumentam o clima e a tensão. Ao fazer Intolerância, o diretor abriu novas possibilidades para a mídia, criando uma forma que deve mais à música do que à narrativa tradicional.

Griffith foi homenageado num selo de 10 centavos pelos Estados Unidos em 5 de Maio de 1975.

Em 1953 o Directors Guild of America instituiu D. W. Griffith como o prêmio mais alto. Entre os ganhadores estão Stanley Kubrick, David Lean, John Huston, Woody Allen, Akira Kurosawa, John Ford, Ingmar Bergman, Alfred Hitchcock e o amigo do Griffith Cecil B. DeMille. Entretanto em 15 de Dezembro de 1999, o presidente da DGA Jack Shea e o conselho nacional do DGA—sem consultar os membros (o que não é legalmente necessário)—anunciou que o nome do prêmio seria modificado para o DGA Lifetime Achievement Award, porque o filme do Griffith O Nascimento de Uma Nação teria "cultivado esteriótipos raciais intoleráveis". Os seguintes ganhadores concordaram com a decisão da corporação: Francis Ford Coppola, Robert Altman, Sidney Lumet e Robert Wise.

sábado, maio 09, 2009

Entendendo o cinema (Edwin S. Porter)

Edwin Stanton Porter (Connellsville, Pennsylvania, 21 de abril de 1870 – 30 de abril de 1941) foi um cineasta norte-americano.

Fundindo o estilo documentalista dos Irmãos Lumiére e as fantasias teatrais de Méliès, Edwin Porter desenvolve, em 1902, os princípios da narrativa e da montagem com o filme ”A Vida do Bombeiro Americano”, e consolidados um ano mais tarde com “O Grande Roubo do Comboio”, um filme de 12 minutos, com inovações como a montagem de planos realizados em diferentes momentos e lugares para compor uma narrativa, que foram decisivas para o desenvolvimento do cinema. Foi o primeiro grande clássico do cinema americano que inaugura o gênero western e marca o início da Indústria Cinematográfica.

Fonte: Wikipédia



O Grande roubo do trem
(Great Train Robbery, The, 1903)

Direção:
Edwin S. Porter
Roteiro:
Scott Marble (história)
Gênero:
Ação/Faroeste
Origem:
Estados Unidos
Duração:
12 minutos
Tipo:
Curta

Sinopse:
Um grupo de bandidos executa um ousado assalto a um trem e a seus passageiros, para depois fugir pela mata. Considerado por muitos o primeiro faroeste, contendo cenas que grandes filmes do gênero apresentariam décadas depois.
Fonte: Cine Players


Sobre o filme "O Grande roubo do trem", vale a pena ler este texto de Weliton Vicente no site Cine Players