Borges e Poe



L. F. Verissimo, sempre se superando. Publicado na ZH de hoje.

Num livro fascinante chamado The Mistery to a Solution (O Mistério de uma Solução), o americano John T. Irwin trata da ligação de Jorge Luis Borges com Edgar Alan Poe. Ligação, no caso, direta, pois Borges fez questão de escrever cada uma das suas três histórias policiais baseadas em Poe exatamente cem anos depois da publicação de cada uma das três histórias do Poe que deram início ao gênero. Os dois autores tinham em comum o gosto por enigmas e sentidos cifrados, e tamanho era o prazer do Borges com jogos literários que ele deve ter planejado esta simetria para poder reivindicar uma espécie de coautoria nos mistérios do Poe. A simetria faria parte do significado das obras conjuntas.
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Mas Irwin chama atenção para diferenças na vida dos dois que determinaram diferenças importantes nas suas histórias. Mesmo arriscando cair num psicologismo superficial, lembra que Poe perdeu a mãe quando ainda era criança enquanto Borges teve a mãe ao seu lado até quase a velhice. Borges propôs suas histórias como o avesso das histórias de Poe e a principal distorção das suas versões é que suas vítimas nunca são mulheres, enquanto as vítimas do Poe sempre são mulheres. Borges não conseguia imaginar sua mãe, tão presente em sua vida, vitimada. Poe passou a vida castigando a sua pela ausência.

O precursor dos dois foi Édipo – o verdadeiro primeiro detetive da literatura - mas, separados por cem anos, Poe e Borges divergiram na escolha dos mitos básicos dos seus respectivos mistérios. Poe chegou a escrever sobre sua dívida literária a Édipo. Borges, reescrevendo Poe, preferiu a figura de Teseu, o matador do Minotauro, no centro do seu labirinto de significados. Teseu não casa com a própria mãe nem a leva ao suicídio.
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Uma vez imaginei a cena da mãe do Borges lendo para o filho cego.

Lendo os clássicos, e os velhos favoritos de Borges, mas exercendo seu direito de revisar o texto de acordo com sua sensibilidade de mãe. Assim, no Hamlet lido pela Sra. Borges o angustiado herói reconcilia-se com a mãe Gertrude, ouve seus conselhos, abandona seus planos de vingança, casa-se com Ofélia, e os dois vivem felizes para sempre. Todos os personagens de Dostoievski, orientados pela mãe, escapam do seu destino trágico e encontram a felicidade.

– Madre, não é assim que eu me lembro dessas histórias...

– Assim elas ficam melhores, hijo.

– Eu deveria ter desconfiado da senhora desde o tempo em que tentava me convencer que a colher com a comida era uma aviãozinho...

– O que vamos ler agora, hijo?

– Kafka.

– Ótimo, adoro comédia.

Na versão revisada de Édipo, depois de ouvir insinuações ele manda investigar sua própria vida, descobre que o rei que matou era o seu pai e que está vivendo incestuosamente com a viúva do rei, sua mãe. Depois de receber o relatório da investigação, decide que precisa escolher: ou renunciar ao trono, arrancar os olhos e levar sua mãe ao suicídio, ou pagar pelo relatório, incinerá-lo e continuar rei, depois de declarar que todas as conjeturas a seu respeito não passam de um mito. Aconselhado pela mulher, que também é, convenientemente, sua mãe, escolhe a segunda opção.

Comentários

Nine Stecanella disse…
Ele sempre produz textos que nos faz pensar muito além do que está escrito.

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