segunda-feira, junho 28, 2010

“A descida ao eu”


Cassionei Niches Petry
A frase que intitula esta resenha sintetiza o romance do século XX, segundo o escritor argentino Ernesto Sabato, que completou 99 anos no dia 24 de junho. A Argentina é um país que pode não ter o melhor futebol do mundo (apesar do título eminente), mas possui a melhor literatura, pelo menos na humilde opinião de quem escreve estas linhas, pois é o berço de Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e tantos outros. Não estranhe, caro leitor, se em plena Copa do Mundo estou neste espaço elogiando “los hermanos”. Não podia, porém, deixar passar a oportunidade de escrever sobre um grande escritor e sobre um livro que me tirou algumas noites de sono.
Sabato foi um grande físico, chegando a trabalhar no Laboratório Curie, em Paris. Nos anos 40, depois de questionar esse mundo tão racional – que lhe provocava, segundo suas palavras, “um vazio de sentido”–, abandonou a ciência para se dedicar à literatura e à pintura. Publicou livros de ensaios e romances, pouco em quantidade – só três romances –, mas de uma qualidade incontestável. Destaca-se nesse conjunto a obra-prima Sobre heróis e tumbas, lançado em 1961 e com edição recente no Brasil pela editora Companhia das Letras, com tradução de Rosa Freire d’Aguiar.
O romance é dividido em quatro partes, mas antes há uma nota, supostamente tirada de um jornal de Buenos Aires, pela qual ficamos sabendo que Alejandra matou seu pai, Fernando Vidal Olmos, e depois ateou fogo no próprio quarto, se suicidando. Na primeira parte, “O dragão e a princesa”, passamos a conhecer melhor essa impressionante personagem a partir das percepções de Martín, jovem que se apaixona por ela. Misteriosa, imprevisível e de personalidade forte, Alejandra só não é mais estranha do que os parentes que habitam a casa, gente ligada à antiga aristocracia argentina, cujos antepassados participaram da luta pela independência do país. Esses antepassados podem ser os heróis do título no que seria uma interpretação político-social da obra, colocando Alejandra como metáfora para a própria Argentina. Prefiro, no entanto, a chave mais existencial, sendo que o título dessa primeira parte nos leva a esse sentido. Seria o dragão Martín e a princesa a Alejandra? Ou seria a jovem uma princesa-dragão, soltando fogo através de suas duras palavras?
Na segunda parte, “Os rostos invisíveis”, a história se desenvolve com mais comentários sobre a história da Argentina, inclusive sobre a era peronista, as paixões anteriores de Alejandra e aparece pela primeira vez Fernando Vidal Olmos, esse o rosto invisível em boa parte do enredo, mas que começa a se revelar. É dele o manuscrito que seria encontrado posteriormente no quarto incendiado e que corresponde à terceira parte, talvez a mais perturbadora de todo o enredo: “Informe sobre cegos”.
O texto é uma narrativa enigmática, que reflete a mente perturbada de Fernando em sua tentativa de encontrar a Seita dos Cegos. Percorre, inclusive, os esgotos subterrâneos de Buenos Aires, como a descida de Ulisses ao Reino de Hades em busca das respostas do cego Tirésias, contada na Odisseia, de Homero. Paradoxalmente, busca a luz nas trevas. Na verdade, a busca representa a jornada nas tumbas da nossa mente, por isso as menções ao sexo desenfreado, aos canalhas de todas as estirpes, ao lixo produzido pelo homem. Tudo alegorias das questões morais do ser humano. Mais do que isso eu não falo sobre o “Informe”. Leia-o. Repito, leia-o. E mais uma vez: leia-o, mesmo que seja só essa parte. Vai te deixar perturbado durante dias, mas é esse o objetivo de todas as grandes obras literárias.
O romance se encerra com “Um Deus desconhecido”, que retrata os acontecimentos depois da tragédia relatada na nota policial do início. Também ficamos sabendo mais sobre a vida de Fernando Vidal Olmos. Vidas particulares e pátria se mesclam a partir de justaposições de imagens do passado e do presente, tanto dos personagens como da própria Argentina.
Tudo se conclui e nada se conclui. O Absoluto continua desconhecido, as trevas continuam trevas, os rostos continuam invisíveis e não descobrimos se a princesa é mesmo o dragão. A única certeza é de que o leitor terminará a leitura com a mesma sensação que teve Martín depois de ver Alejandra pela primeira vez: “já não era a mesma pessoa de antes. E nunca mais voltaria a sê-lo.”

quinta-feira, junho 24, 2010

Sabato, 99 anos hoje


"Creio que a verdade é perfeita para a matemática, a química, a filosofia, mas não para a vida. Na vida contam mais a ilusão, a imaginação, o desejo, a esperança."

quarta-feira, junho 23, 2010

Meu texto sobre o Saramago na Gazeta de hoje


O texto que escrevi sobre o Saramago saiu na Gazeta do Sul de hoje, muito bem acompanhado pela ótima resenha do Luís Fernando Ferreira sobre o livro O sorriso do lagarto, de João Ubaldo Ribeiro.

Aqui em PDF.


segunda-feira, junho 21, 2010

Mais sobre o José


Tornou-se lugar-comum, nesses dias em que se comentou a morte de Saramago, frisar a todo o momento que:
1º) ele era comunista, como se fosse defeito;
2º) ele era ateu, como se fosse defeito;
3º) sua obra é interessante até “Ensaio sobre a cegueira”;
4º) Lobo Antunes era melhor do que ele;
5°) ele fez declarações que desagradaram os judeus;
6º) que ele chorou ao ver o filme do Fernando Meirelles;
7º) que a cegueira no mundo…, etc.

Quase tudo que se leu sobre ele, inclusive de críticos literários, se referem mais ao intelectual do que ao escritor. A obra dele foi colocada em segundo plano.
1 – Apontar que Saramago nunca disse nada sobre as ditaduras comunistas é desconhecer algumas entrevistas em que afirmava que os regimes deturparam o pensamento marxista.
2 – A velha mania de impor suas crenças e condenar aquele que não concorda com ela. Afirmou-se até que D-us o receberia de braços abertos, perdoando-o. E sobre as declarações vindas do Vaticano, então?
3 – Não gostar das obras alegóricas escritas pós-Evangelho segundo Jesus Cristo é desconhecer que ele não mudou muito, apenas deixou de nomear os lugares e as pessoas e datar os fatos. Continuou, porém, tratando de forma metafórica os temas recorrentes nos romances ditos históricos.
4 – Dizer que Lobo Antunes é melhor porque a escrita do Saramago é difícil, mostra que também não leram Lobo Antunes (eu tentei e não consegui até agora).
5 – Nada que é desumano pode ser comparado com o Holocausto?
6 – Sobre o livro “Ensaio sobre a cegueira” e o filme pouco se falou.
7 – Realmente o mundo ficou mais cego e a mídia está contribuindo para isso.

Falando sobre cegos, quinta-feira Ernesto Sábato estará completando 99 anos. Apesar de Saramago citar Borges como sua influência, acredito que ele também tenha lido a obra de Sábato, para mim hoje o maior escritor vivo, pena que não em atividade.

sábado, junho 19, 2010

Sugestão de leitura

Sabático especial, no Estadão de hoje, sobre Saramago.


Texto do Romar Beling, grande poeta e crítico literário de Santa Cruz do Sul, sobre A questão dos livros, de Robert Darnton, na Gazeta do Sul de hoje.

sexta-feira, junho 18, 2010

Saramago ou simplesmente José


por Cassionei Niches Petry

A morte não foi intermitente com José Saramago. Ela, a indesejada das gentes, que em um dos romances do escritor decidiu parar de agir, resolveu agora nos levar o gênio. Como ele mesmo escreveu uma vez, “somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se”. A chama, ou o lança-chamas, apagou-se. Já disseram que o mundo ficou mais burro nesta sexta-feira. A cegueira vai continuar, a lucidez vai diminuir, vamos continuar presos na caverna.

As mentes pequenas, que não aceitavam um contestador como Saramago, hoje se regozijam. Livraram-se do incômodo. Será? Creio que não. Seus livros estão aí, cada vez mais se multiplicando, como a cegueira do seu romance adaptado para o cinema. Continuarão chegando a todos os continentes, tal qual a jangada de pedra que se desprendeu do continente europeu. Ele continuará incomodando por muito tempo ainda.

Saramago, um “ser amargo” para alguns, que não esquecerão O evangelho segundo Jesus Cristo, censurado pela Igreja Católica e pelo governo português, por mexer com um mito inatacável. “Ser amargo” para os acreditam em um deus bondoso, na verdade um deus sanguinário, desmascarado no mais recente livro, Caim. “Ser amargo” para quem não sai de um shopping center, uma caverna platônica dos tempos modernos. “Ser amargo” é dizer um não para a história oficial. “Ser amargo” para os burocratas, “ser amargo” para os políticos, “ser amargo” para a Igreja, religiões, padres, pastores. “Ser amargo” para os capitalistas e para os banqueiros.

Mas “ser amargo” não é um defeito. Um ser doce não vê nossas idiossincrasias, não põe o dedo na ferida, aceita que tudo aconteça sem contestar e deixa os poderosos se perpetuarem. Um “ser amargo” nos deixa de olhos bem abertos, rói a cadeira do rei até ela quebrar.

Ser amargo, sal amargo, Saramago. Ou simplesmente José. Que seus livros continuem jogando pimenta nos nossos olhos e nos guiando para sair da escuridão dessa caverna chamada mundo.

Repostagem em homenagem a Saramago


Texto que escrevi para o jornal Gazeta do Sul, caderno Mix, publicado no dia 03 de fevereiro de 2006.

http://gazeta.via.com.br/arquivos/pdf/28168.pdf

Saramago e a morte

Viemos a este mundo para nascer, crescer e morrer, certo? Talvez. Talvez? Bom, eu nasci, você nasceu, eu cresci, você cresceu. Mas eu vou morrer? Você vai morrer? Já disseram que a única coisa certa na nossa vida é que vamos morrer. Certa por quê? Porque outros morreram? Agora porque os outros passaram dessa para melhor (?) eu tenho que ir também?

Bom, não estou velho e nem no fim da vida para me preocupar com isso, muito menos uma inquietação filosófica me faz escrever este texto. O tema vem à tona por causa do último romance de José Saramago (ou melhor, do mais recente, porque ele não vai morrer agora), As intermitências da morte (Companhia das Letras, 208p.). Imaginem, senhoras e senhores, se as pessoas deixassem de morrer. Quais as conseqüências? Imaginaram? Pois esse é o ponto de partida da história. Bem, mas o que vocês, simples mortais, imaginaram está longe do que a mente brilhante de Saramago pode criar, me desculpem. A capacidade criativa do autor português também nunca morre. Basta lembrar romances como Ensaio sobre a cegueira ou Jangada de pedra, e depois ler o atual, para entender por que ele é um dos maiores escritores contemporâneos e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

A maioria dos críticos, porém, não pensa dessa forma ou porque gostaria que ele escrevesse sempre obras-primas ou porque nunca gostou de nenhum dos seus livros. Nessa última categoria estão os que admiram o também português António Lobo Antunes e não querem admirar ao mesmo tempo José Saramago, pois para eles o primeiro, autor de romances como Exortação aos crocodilos, era quem deveria ter ganhado o Prêmio Nobel. Da mesma forma, a postura política de Saramago incomoda muitas pessoas, como se isso influenciasse na qualidade de um livro.

Voltemos ao romance, então.

A principal personagem é a própria morte. Por um simples capricho ela resolve que não vai mais “trabalhar” em um determinado país. As conseqüências são alarmantes. Nessa primeira parte, cabe de tudo um pouco do rol de temas do escritor português: há a discussão sobre a finitude do ser humano, a velhice, etc. Não poderia, da mesma forma, faltar o lado polêmico do autor, quando ele analisa as conseqüências políticas e principalmente religiosas que a ausência da morte acarretaria. Pouco foi comentado, porém - apesar de ser um tema que seguidamente está em pauta -, que o romance também trata da eutanásia. Não havendo morte, como ficariam os doentes em estado terminal? Vale lembrar que as mortes cessaram, mas não as doenças. A solução para esse impasse? Leia o romance.

Na segunda parte, a morte resolve voltar a atuar e escreve uma carta para uma emissora de TV, para que seja anunciado que, à meia-noite daquele dia, tudo voltaria ao normal e que todos aqueles que deveriam ter morrido naquele período morreriam agora. Mais caos à vista, continuando a narrativa a flertar com o realismo mágico latino-americano. Ela anuncia também uma novidade: antes de morrer, cada pessoa receberá uma carta anunciando sua partida com 7 dias de antecedência, podendo assim resolver suas pendências no mundo dos vivos e se despedir dos familiares e amigos. Uma das cartas, no entanto, teima em voltar para a remetente. E é quando começa a terceira parte, a melhor do romance.

Num estilo mais poético, ao contrário do tom mais amargo e irônico do restante da história, a morte toma feições humanas, se transformando numa mulher, e vai ao encontro do destinatário da carta. Trata-se de um violoncelista, escolha acertada para poder contrapor a suavidade da música clássica com uma situação tão dura que é a morte. Pode surpreender os fãs acostumados com a acidez saramaguiana. O desfecho, no entanto, pode decepcionar um pouco, mas nada que tire o brilho do resto do romance.

As intermitências da morte faz parte do tipo de literatura que nos deixa inquietos, no faz refletir, acaba com nossas certezas. Devemos nos preocupar com a morte ou o que vem depois dela? Em vez de pensar somente nela, não deveríamos viver o tempo presente, aproveitando nossa vida na Terra? José Saramago nos mostra que a morte é, paradoxalmente, parte da vida e não passagem para outra. Ateu, acredita que as religiões se apoderam da idéia da morte para existirem. Certo ou não, se há outra vida depois dessa, espero que lá tenha romances tão bons como esse para ler.

quarta-feira, junho 16, 2010

Bloomsday


Sem tempo de escrever algo sobre o Bloomsday, sugiro esse post do Mundo Livro: aqui

Rubião na Gazeta de hoje


Minha resenha sobre a Obra completa, de Murilo Rubião, no jornal Gazeta de hoje:

A engenharia de Murilo Rubião

Cassionei Niches Petry
O oroboro é uma serpente mítica, ou um dragão, que morde sua própria cauda, formando, assim, um círculo. Não confundir com o cão que tenta morder comicamente seu próprio rabo. Aqui, a simbologia é a do eterno retorno, da circularidade do universo e da sua criação. O crítico Jorge Schwartz apontou esse mito como chave para a obra de Murilo Rubião. A julgar pela republicação de sua Obra completa (Companhia das Letras, 232 páginas), os mesmos 33 contos que ele vinha durante toda sua vida escrevendo e reescrevendo – e pela temática de boa parte deles – a analogia é mais do que justificada.
Para nos guiar na leitura de alguns contos do escritor mineiro, usarei as letras da banda Engenheiros do Hawaii, cuja capa de um dos discos estampava a imagem do oroboro. Os versos de Humberto Gessinger servirão como epígrafes, assim como Rubião colocava frases bíblicas antes de seus textos.
“Há tantos quadros na parede, há tantas formas de se ver o mesmo quadro” (Ninguém = ninguém)
Murilo Rubião nos oferece em sua curta obra uma vasta possibilidade de leituras. Um crítico pode analisar os contos sob um enfoque religioso, provocado pelas epígrafes. Pode também fazer uma leitura psicanalítica, visto que os personagens passam por situações oníricas, cuja simbologia deixaria um discípulo de Freud ou de Jung num paraíso. Não se pode descartar também uma abordagem mítica ou então sociológica. A análise filosófica também tem seu lugar, pois os personagens estão sempre questionando sua existência. Em “O ex-mágico da Taberna Minhota”, o protagonista, perguntado sobre como conseguiu tirar o dono de um restaurante do próprio bolso, diz: “O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo?”. De qualquer forma, os elementos do gênero fantástico utilizados pelo autor causam um estranhamento que tira o leitor da realidade cotidiana, mas para fazê-lo ver o quão absurda é essa mesma realidade.
“Quando eu vivia e morria na cidade” (Infinita highway)
O livro inicia com um conto que nos joga de cara com o insólito. Em “O pirotécnico Zacarias”, mesmo depois de narrar sua própria morte, o morto não sabe se realmente passou dessa para melhor, pois conversa tranquilamente com os jovens que o atropelaram numa estrada, chegando até a sair para se divertir com eles. Sem saber qual seu destino, apenas observa as pessoas da cidade que olham assustadas para ele, os vivos que “respiram uma vida agonizante”.
“Eu me sinto um estrangeiro, passageiro de algum trem” (A revolta dos dândis)
O questionamento do “estar-no-mundo” coloca Murilo Rubião lado a lado com os filósofos existencialistas. “A cidade”, por exemplo, lembra o romance A peste, de Albert Camus. No conto, um viajante chega de trem a uma cidadezinha e, depois de fazer algumas perguntas, é preso. No texto do escritor francês, é a peste bubônica que impede um jornalista – portanto um perguntador profissional – de sair da cidade de Oran, sendo que a doença seria a metáfora para a ocupação nazista. Na narrativa muriliana, os poderosos, com medo de um possível conspirador, detêm o homem, devido à sua curiosidade. O texto nos faz refletir sobre a alienação, palavra que vem de alienígena, que, por sua vez, significa estrangeiro. Portanto, é o medo do desconhecido, ou seja, do saber. As pessoas do lugar preferem a ignorância. “Casas vazias”, responde o funcionário da estação ao ser perguntado pelo viajante se existiam belas mulheres na cidade.
“Além do mito que limita o infinito” (Guardas da fronteira)
Mitos gregos e bíblicos são a referência em contos como o “Teleco, o coelhinho” e “O edifício”. No primeiro, um coelho se transforma em vários seres, retomando o mito de Proteu, que se metamorfoseava para fugir dos homens que não compreenderiam a verdade ditas nas suas profecias. No segundo, um prédio fica durante anos em construção, pois teria ilimitado número de andares, tal qual a Torre de Babel da Bíblia, que atingiria o céu, não fosse a proibição divina. João Gaspar, antigo diretor das obras, vê a inutilidade do projeto e tenta parar a construção, mas seus discursos são alvos de deboche. Seria ele a representação dos “limitadores” do conhecimento ou dos que nos mostram o saber com algum sentido?
“É preciso saber de tudo e esquecer de tudo” (Realidade virtual)
Para ler Murilo Rubião precisamos deixar de acreditar nas coisas reais e passar a ver tudo pelos olhos da fantasia. Devemos acreditar em dragões na nossa garagem, em coelhos que falam, em pessoas que depois de ficar tão magras se tornam quase invisíveis até desaparecerem completamente, em mulheres que engravidam todos os meses, etc. Depois disso, devemos enxergar nos contos uma alegoria dessa mesma realidade esquecida e assim refletirmos sobre o absurdo desse mundo real. O círculo do oroboro se fecha quando vemos a realidade por trás, para dominá-la. Só não podemos, claro, nos deixar ser engolidos por ela.
Cassionei Niches Petry é professor. Escreve contos insólitos influenciado por Murilo Rubião e Julio Cortázar e procura uma editora para publicá-los. Mantém o blog www.cassionei.blogspot.com

segunda-feira, junho 14, 2010

A engenharia de Murilo Rubião

Cassionei Niches Petry

O oroboro é uma serpente mítica, ou um dragão, que morde sua própria cauda, formando, assim, um círculo. Não confundir com o cão que tenta morder comicamente seu próprio rabo. Aqui, a simbologia é a do eterno retorno, da circularidade do universo e da sua criação. O crítico Jorge Schwartz apontou esse mito como chave para a obra de Murilo Rubião. A julgar pela republicação de sua Obra completa (Companhia das Letras, 232 páginas), os mesmos 33 contos que ele vinha durante toda sua vida escrevendo e reescrevendo – e pela temática de boa parte deles – a analogia é mais do que justificada.

Para nos guiar na leitura de alguns contos do escritor mineiro, usarei as letras da banda Engenheiros do Hawaii, cuja capa de um dos discos estampava a imagem do oroboro. Os versos de Humberto Gessinger servirão como epígrafes, assim como Rubião colocava frases bíblicas antes de seus textos.

“Há tantos quadros na parede, há tantas formas de se ver o mesmo quadro” (Ninguém = ninguém)

Murilo Rubião nos oferece em sua curta obra uma vasta possibilidade de leituras. Um crítico pode analisar os contos sob um enfoque religioso, provocado pelas epígrafes. Pode também fazer uma leitura psicanalítica, visto que os personagens passam por situações oníricas, cuja simbologia deixaria um discípulo de Freud ou de Jung num paraíso. Não se pode descartar também uma abordagem mítica ou então sociológica. A análise filosófica também tem seu lugar, pois os personagens estão sempre questionando sua existência. Em “O ex-mágico da Taberna Minhota”, o protagonista, perguntado sobre como conseguiu tirar o dono de um restaurante do próprio bolso, diz: “O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo?”. De qualquer forma, os elementos do gênero fantástico utilizados pelo autor causam um estranhamento que tira o leitor da realidade cotidiana, mas para fazê-lo ver o quão absurda é essa mesma realidade.

“Quando eu vivia e morria na cidade” (Infinita highway)

O livro inicia com um conto que nos joga de cara com o insólito. Em “O pirotécnico Zacarias”, mesmo depois de narrar sua própria morte, o morto não sabe se realmente passou dessa para melhor, pois conversa tranquilamente com os jovens que o atropelaram numa estrada, chegando até a sair para se divertir com eles. Sem saber qual seu destino, apenas observa as pessoas da cidade que olham assustadas para ele, os vivos que “respiram uma vida agonizante”.

“Eu me sinto um estrangeiro, passageiro de algum trem” (A revolta dos dândis)

O questionamento do “estar-no-mundo” coloca Murilo Rubião lado a lado com os filósofos existencialistas. “A cidade”, por exemplo, lembra o romance A peste, de Albert Camus. No conto, um viajante chega de trem a uma cidadezinha e, depois de fazer algumas perguntas, é preso. No texto do escritor francês, é a peste bubônica que impede um jornalista – portanto um perguntador profissional – de sair da cidade de Oran, sendo que a doença seria a metáfora para a ocupação nazista. Na narrativa muriliana, os poderosos, com medo de um possível conspirador, detêm o homem, devido à sua curiosidade. O texto nos faz refletir sobre a alienação, palavra que vem de alienígena, que, por sua vez, significa estrangeiro. Portanto, é o medo do desconhecido, ou seja, do saber. As pessoas do lugar preferem a ignorância. “Casas vazias”, responde o funcionário da estação ao ser perguntado pelo viajante se existiam belas mulheres na cidade.

“Além do mito que limita o infinito” (Guardas da fronteira)

Mitos gregos e bíblicos são a referência em contos como o “Teleco, o coelhinho” e “O edifício”. No primeiro, um coelho se transforma em vários seres, retomando o mito de Proteu, que se metamorfoseava para fugir dos homens que não compreenderiam a verdade ditas nas suas profecias. No segundo, um prédio fica durante anos em construção, pois teria ilimitado número de andares, tal qual a Torre de Babel da Bíblia, que atingiria o céu, não fosse a proibição divina. João Gaspar, antigo diretor das obras, vê a inutilidade do projeto e tenta parar a construção, mas seus discursos são alvos de deboche. Seria ele a representação dos “limitadores” do conhecimento ou dos que nos mostram o saber com algum sentido?

“É preciso saber de tudo e esquecer de tudo” (Realidade virtual)

Para ler Murilo Rubião precisamos deixar de acreditar nas coisas reais e passar a ver tudo pelos olhos da fantasia. Devemos acreditar em dragões na nossa garagem, em coelhos que falam, em pessoas que depois de ficar tão magras se tornam quase invisíveis até desaparecerem completamente, em mulheres que engravidam todos os meses, etc. Depois disso, devemos enxergar nos contos uma alegoria dessa mesma realidade esquecida e assim refletirmos sobre o absurdo desse mundo real. O círculo do oroboro se fecha quando vemos a realidade por trás, para dominá-la. Só não podemos, claro, nos deixar ser engolidos por ela.

Cassionei Niches Petry é professor. Escreve contos insólitos influenciado por Murilo Rubião e Julio Cortázar e procura uma editora para publicá-los. Mantém o blog www.cassionei.blogspot.com.

***

Ouvindo, obviamente:


domingo, junho 13, 2010

Textos apócrifos

Cassionei Niches Petry, a partir de fontes diversas


Imagine um escritor quebrando a cabeça, durante horas, diante da tela em branco do computador, até conseguir criar um bom texto. Mais tarde o publica num livro, jornal, site ou blogue. Passam-se os anos, e o texto aparece circulando na internet como se fosse de outro autor. Basta uma pessoa para disseminar o erro, e o vírus se espalha. Como o brasileiro não é muito de checar as fontes, está feito o estrago.

Um dos primeiros casos que conheço, ainda da era pré-internet, foi o do seguinte poema:


“Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.”


O poema circulou durante muito tempo como se fosse do poeta russo Maiakóvski. Mas trata-se, na verdade, de um fragmento do poema “No caminho, com Maiakóvski”, de Eduardo Alves da Costa. Esse equívoco, que começou nos anos 70, até hoje é repetido por uma legião de pessoas. Nem mesmo a citação correta em uma novela das 8 adiantou. Vale lembrar que há um poema semelhante a esse, na verdade um sermão do pastor Martin Niemölle proferido na época do nazismo e que muitas vezes é atribuído a Bertold Brecht :


“Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram; já não havia mais ninguém para reclamar.”


Outro caso famoso foi do poema “Instantes”, atribuído a Jorge Luis Borges. Eis a primeira estrofe:


"Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.”


Os leitores mais especializados na obra de Borges afirmavam que não poderia ser do escritor argentino, dada a pouca qualidade do texto. O jornal espanhol El País, em 1999, desvendou o mistério: o poema era de uma desconhecida escritora norte-americana chamada Nadine Stair. Depois, descobriu-se que na verdade era do humorista Don Herold, sendo apenas modificado nas versões seguintes ( aliás, a música “Epitáfio”, dos Titãs, não estaria entre essas versões?). De qualquer forma, isso tudo surgiu porque alguém quis dar mais “credibilidade” ao texto.

Aliás, esse tipo de valorização a partir de um nome famoso é o que mais de espalha na rede de computadores. Alguém acha um texto de um cronista desconhecido muito bom e o atribui a Arnaldo Jabor, por exemplo, e muitas vezes o texto não tem nada a ver com ele. É só mandar para um e-mail de um conhecido, que manda para seus contatos, os quais mandam para outros e a bola de neve se agiganta. Luis Fernando Verissimo, Millôr Fernandes, além de escritores já falecidos, como Carlos Drummond de Andrade, são os alvos principais. Recentemente, o prêmio Nobel Gabriel García Marquez teve que vir a público afirmar que o texto “Marionetes”, que ele achou muito ruim, não poderia jamais ser escrito por ele.

Recentemente me deparei na rede com um poema de Pablo Neruda, traduzido para o português. Eis os versos iniciais:


"Morre lentamente quem não viaja,

quem não lê,

quem não ouve música,

quem não encontra graça em si mesmo.”


Fiquei com um pé atrás com alguns trechos, que não me pareceram com seu estilo. Resolvi procurar nos livros dele e não encontrei. Pesquisando em um site em espanhol dedicado ao autor, achei finalmente, e no “original” em castelhano. Pensei, deve ter sido um poema publicado apenas em jornal ou revista, quem sabe, e por ser abaixo da qualidade dos outros, Neruda resolveu não eternizá-lo em livro nenhum. Acabei trazendo para a sala de aula para trabalhar com os alunos. Pois em 2009, leio uma reportagem do jornal Zero Hora sobre um político que recitou o poema no Senado italiano e a imprensa noticiou que a autoria era de Martha Medeiros. O texto era, na verdade, uma crônica publicada em 2000 em ZH (leia a matéria e a crônica aqui), e autora já havia até mantido contato com a Fundação Neruda sobre o caso. Claro, que, apesar de toda a fundamentação e a fonte, o poema vai continuar circulando pelo mundo todo como se fosse de Pablo Neruda, até porque a verdade não circula com a mesma facilidade do que a mentira.

Falando em mentira, há alguns meses o grande poeta Affonso Romano de Sant’anna pediu que seus leitores divulgassem que uma versão modificada de poema seu estava circulando em uma corrente na internet. Entre outras coisas, dizia o falso texto que Lula mente. Publico, então, o verdadeiro poema, aliás, um dos que os alunos mais adoram quando leio nas aulas, escrito em 1984, em um contexto bem diferente. E lembre-se, caro leitor: procure a verdade e valorize quem escreve:

A Implosão da Mentira


Fragmento 1


Mentiram-me. Mentiram-me ontem

e hoje mentem novamente. Mentem

de corpo e alma, completamente.

E mentem de maneira tão pungente

que acho que mentem sinceramente.


Mentem, sobretudo, impune/mente.

Não mentem tristes. Alegremente

mentem. Mentem tão nacional/mente

que acham que mentindo história afora

vão enganar a morte eterna/mente.


Mentem.Mentem e calam. Mas suas frases

falam. E desfilam de tal modo nuas

que mesmo um cego pode ver

a verdade em trapos pelas ruas.


Sei que a verdade é difícil

e para alguns é cara e escura.

Mas não se chega à verdade

pela mentira, nem à democracia

pela ditadura.



Fragmento 2


Evidente/mente a crer

nos que me mentem

uma flor nasceu em Hiroshima

e em Auschwitz havia um circo

permanente.


Mentem. Mentem caricatural-

mente.

Mentem como a careca

mente ao pente,

mentem como a dentadura

mente ao dente,

mentem como a carroça

à besta em frente,

mentem como a doença

ao doente,

mentem clara/mente

como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,

como nenhuma lavadeira mente

ao ver a nódoa sobre o linho.Mentem

com a cara limpa e nas mãos

o sangue quente.Mentem

ardente/mente como um doente

em seus instantes de febre.Mentem

fabulosa/mente como o caçador que quer passar

gato por lebre.E nessa trilha de mentiras

a caça é que caça o caçador

com a armadilha.

E assim cada qual

mente industrial? mente,

mente partidária? mente,

mente incivil? mente,

mente tropical?mente,

mente incontinente?mente,

mente hereditária?mente,

mente, mente, mente.

E de tanto mentir tão brava/mente

constróem um país

de mentira

-diária/mente.


Fragmento 3


Mentem no passado. E no presente

passam a mentira a limpo. E no futuro

mentem novamente.

Mentem fazendo o sol girar

em torno à terra medieval/mente.

Por isto, desta vez, não é Galileu

quem mente.

mas o tribunal que o julga

herege/mente.

Mentem como se Colombo partin-

do do Ocidente para o Oriente

pudesse descobrir de mentira

um continente.


Mentem desde cabral, em calmaria,

viajando pelo avesso, iludindo a corrente

em curso, transformando a história do país

num acidente de percuso.


Fragmento 4


Tanta mentira assim industriada

me faz partir para o deserto

penitente/mente, ou me exilar

com Mozart musical/mente em harpas

e oboés, como um solista vegetal

que absorve a vida indiferente.


Penso nos animais que nunca mentem.

mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros

cuja verdade do canto nos toca

matinalmente.

Penso nas flores

cuja verdade das cores escorre no mel

silvestremente.


Penso no sol que morre diariamente

jorrando luz, embora

tenha a noite pela frente.


Fragmento 5


Página branca onde escrevo. Único espaço

de verdade que me resta. Onde transcrevo

o arroubo, a esperança, e onde tarde

ou cedo deposito meu espanto e medo.

Para tanta mentira só mesmo um poema

explosivo-conotativo

onde o advérbio e o adjetivo não mentem

ao substantivo

e a rima rebenta a frase

numa explosão da verdade.


E a mentira repulsiva

se não explode pra fora

pra dentro explode

implosiva.


(Poema publicado no JB em 1984, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor. Está em Poesia Reunida, L&PM,1999, v.2)