Avançar para o conteúdo principal

A engenharia de Murilo Rubião

Cassionei Niches Petry

O oroboro é uma serpente mítica, ou um dragão, que morde sua própria cauda, formando, assim, um círculo. Não confundir com o cão que tenta morder comicamente seu próprio rabo. Aqui, a simbologia é a do eterno retorno, da circularidade do universo e da sua criação. O crítico Jorge Schwartz apontou esse mito como chave para a obra de Murilo Rubião. A julgar pela republicação de sua Obra completa (Companhia das Letras, 232 páginas), os mesmos 33 contos que ele vinha durante toda sua vida escrevendo e reescrevendo – e pela temática de boa parte deles – a analogia é mais do que justificada.

Para nos guiar na leitura de alguns contos do escritor mineiro, usarei as letras da banda Engenheiros do Hawaii, cuja capa de um dos discos estampava a imagem do oroboro. Os versos de Humberto Gessinger servirão como epígrafes, assim como Rubião colocava frases bíblicas antes de seus textos.

“Há tantos quadros na parede, há tantas formas de se ver o mesmo quadro” (Ninguém = ninguém)

Murilo Rubião nos oferece em sua curta obra uma vasta possibilidade de leituras. Um crítico pode analisar os contos sob um enfoque religioso, provocado pelas epígrafes. Pode também fazer uma leitura psicanalítica, visto que os personagens passam por situações oníricas, cuja simbologia deixaria um discípulo de Freud ou de Jung num paraíso. Não se pode descartar também uma abordagem mítica ou então sociológica. A análise filosófica também tem seu lugar, pois os personagens estão sempre questionando sua existência. Em “O ex-mágico da Taberna Minhota”, o protagonista, perguntado sobre como conseguiu tirar o dono de um restaurante do próprio bolso, diz: “O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo?”. De qualquer forma, os elementos do gênero fantástico utilizados pelo autor causam um estranhamento que tira o leitor da realidade cotidiana, mas para fazê-lo ver o quão absurda é essa mesma realidade.

“Quando eu vivia e morria na cidade” (Infinita highway)

O livro inicia com um conto que nos joga de cara com o insólito. Em “O pirotécnico Zacarias”, mesmo depois de narrar sua própria morte, o morto não sabe se realmente passou dessa para melhor, pois conversa tranquilamente com os jovens que o atropelaram numa estrada, chegando até a sair para se divertir com eles. Sem saber qual seu destino, apenas observa as pessoas da cidade que olham assustadas para ele, os vivos que “respiram uma vida agonizante”.

“Eu me sinto um estrangeiro, passageiro de algum trem” (A revolta dos dândis)

O questionamento do “estar-no-mundo” coloca Murilo Rubião lado a lado com os filósofos existencialistas. “A cidade”, por exemplo, lembra o romance A peste, de Albert Camus. No conto, um viajante chega de trem a uma cidadezinha e, depois de fazer algumas perguntas, é preso. No texto do escritor francês, é a peste bubônica que impede um jornalista – portanto um perguntador profissional – de sair da cidade de Oran, sendo que a doença seria a metáfora para a ocupação nazista. Na narrativa muriliana, os poderosos, com medo de um possível conspirador, detêm o homem, devido à sua curiosidade. O texto nos faz refletir sobre a alienação, palavra que vem de alienígena, que, por sua vez, significa estrangeiro. Portanto, é o medo do desconhecido, ou seja, do saber. As pessoas do lugar preferem a ignorância. “Casas vazias”, responde o funcionário da estação ao ser perguntado pelo viajante se existiam belas mulheres na cidade.

“Além do mito que limita o infinito” (Guardas da fronteira)

Mitos gregos e bíblicos são a referência em contos como o “Teleco, o coelhinho” e “O edifício”. No primeiro, um coelho se transforma em vários seres, retomando o mito de Proteu, que se metamorfoseava para fugir dos homens que não compreenderiam a verdade ditas nas suas profecias. No segundo, um prédio fica durante anos em construção, pois teria ilimitado número de andares, tal qual a Torre de Babel da Bíblia, que atingiria o céu, não fosse a proibição divina. João Gaspar, antigo diretor das obras, vê a inutilidade do projeto e tenta parar a construção, mas seus discursos são alvos de deboche. Seria ele a representação dos “limitadores” do conhecimento ou dos que nos mostram o saber com algum sentido?

“É preciso saber de tudo e esquecer de tudo” (Realidade virtual)

Para ler Murilo Rubião precisamos deixar de acreditar nas coisas reais e passar a ver tudo pelos olhos da fantasia. Devemos acreditar em dragões na nossa garagem, em coelhos que falam, em pessoas que depois de ficar tão magras se tornam quase invisíveis até desaparecerem completamente, em mulheres que engravidam todos os meses, etc. Depois disso, devemos enxergar nos contos uma alegoria dessa mesma realidade esquecida e assim refletirmos sobre o absurdo desse mundo real. O círculo do oroboro se fecha quando vemos a realidade por trás, para dominá-la. Só não podemos, claro, nos deixar ser engolidos por ela.

Cassionei Niches Petry é professor. Escreve contos insólitos influenciado por Murilo Rubião e Julio Cortázar e procura uma editora para publicá-los. Mantém o blog www.cassionei.blogspot.com.

***

Ouvindo, obviamente:


Comentários

Cassionei Petry disse…
Tinha que ser a Mirella pra não me deixar sozinho aqui.

Mensagens populares deste blogue

No Traçando Livros de hoje, Milan Kundera e A arte do romance

Notas sobre os ensaios de Milan Kundera
1 Se alguns veem o romance como mero entretenimento, apenas mais uma forma de contar uma história, quando penso em literatura, penso no romance como forma de arte em primeiro lugar. O escritor, nesse caso, elabora as palavras em busca do efeito estético. Além disso, o autor também pode refletir sobre sua criação e a dos outros, formando assim, sua poética. É o que faz Milan Kundera em seu A arte do romance, de 1986, livro de ensaios relançado este ano pela Companhia das Letras numa bela edição de capa dura, seguindo a linha de outros relançamentos do autor de A insustentável leveza do ser. 2 Como a maioria das outras obras do escritor checo, esta também é dividida em sete partes, contendo um ensaio cada. Kundera fala sobre este número em entrevista para a Paris Review, dividida no livro em dois ensaios: “não é de minha parte nem coquetismo supersticioso com um número mágico, nem cálculo racional, mas imperativo profundo, inconsciente, incompreensíve…

Uma resenha que não aconteceu

Terminei a leitura de Os invernos da ilha, de Rodrigo Duarte Garcia (Record, 462 páginas), já pensando em escrever uma resenha crítica, apontando alguns pontos positivos e outros negativos do romance. Antes de pôr a mão na massa, porém, entrei nas redes sociais e fiquei sabendo que a coluna do Raphael Montes, em O Globo, apontava a obra do Rodrigo como popular, para se divertir, e então desanimei.
Acontece que há um equívoco tremendo por parte de alguns autores e leitores de literatura de entretenimento quando afirmam que literatura policial, de mistério ou de aventura (em que se encaixaria Os invernos da ilha) são desprezados pela crítica. Este é o tom do texto de Raphael Montes. Ele e tantos outros se equivocam ao dizer que Rubem Fonseca, escritor já canonizado e que é objeto de estudos até em livros didáticos, não tem o reconhecimento que merece porque é taxado por fazer literatura menor. Ledo engano ou uma tentativa forçada de se colocar como vítima.
Ora, a “crítica” (coloco entre …