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Mais sobre o José


Tornou-se lugar-comum, nesses dias em que se comentou a morte de Saramago, frisar a todo o momento que:
1º) ele era comunista, como se fosse defeito;
2º) ele era ateu, como se fosse defeito;
3º) sua obra é interessante até “Ensaio sobre a cegueira”;
4º) Lobo Antunes era melhor do que ele;
5°) ele fez declarações que desagradaram os judeus;
6º) que ele chorou ao ver o filme do Fernando Meirelles;
7º) que a cegueira no mundo…, etc.

Quase tudo que se leu sobre ele, inclusive de críticos literários, se referem mais ao intelectual do que ao escritor. A obra dele foi colocada em segundo plano.
1 – Apontar que Saramago nunca disse nada sobre as ditaduras comunistas é desconhecer algumas entrevistas em que afirmava que os regimes deturparam o pensamento marxista.
2 – A velha mania de impor suas crenças e condenar aquele que não concorda com ela. Afirmou-se até que D-us o receberia de braços abertos, perdoando-o. E sobre as declarações vindas do Vaticano, então?
3 – Não gostar das obras alegóricas escritas pós-Evangelho segundo Jesus Cristo é desconhecer que ele não mudou muito, apenas deixou de nomear os lugares e as pessoas e datar os fatos. Continuou, porém, tratando de forma metafórica os temas recorrentes nos romances ditos históricos.
4 – Dizer que Lobo Antunes é melhor porque a escrita do Saramago é difícil, mostra que também não leram Lobo Antunes (eu tentei e não consegui até agora).
5 – Nada que é desumano pode ser comparado com o Holocausto?
6 – Sobre o livro “Ensaio sobre a cegueira” e o filme pouco se falou.
7 – Realmente o mundo ficou mais cego e a mídia está contribuindo para isso.

Falando sobre cegos, quinta-feira Ernesto Sábato estará completando 99 anos. Apesar de Saramago citar Borges como sua influência, acredito que ele também tenha lido a obra de Sábato, para mim hoje o maior escritor vivo, pena que não em atividade.

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